Sistemas de calendários da Mesoamérica

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Calendário Maia
Calendário Maia

«[O Calendário de 260 dias] dizia às nações indígenas em que dias deviam semear, ceifar e lavrar a terra, cultivar o milho, arrancar ervas daninhas, colher, armazenar, debulhar o milho, semear feijões e linhaça.»

– Frei Diego Duran, cronista espanhol, sobre o papel dos calendários mesoamericanos na marcação de datas propícias para todas as actividades.

Com o passar dos séculos, povos de muitas culturas serviram-se de sistemas para descobrir quais os dias favoráveis e desfavoráveis. Porém, em nenhum lugar do mundo tais métodos foram levados ao extremo da complexidade e sofisticação como no México e na América Central nos anos que antecederam a conquista espanhola.

Os povos da região, sendo os mais conhecidos os Astecas e os Maias, partilhavam muitas ideias preconcebidas sobre a passagem do tempo. Para todos eles, os calendários eram meios fundamentais para percecionar e organizar o mundo, assim como para prever o seu futuro provável. Aos olhos mesoamericanos, os calendários faziam bem mais do que simplesmente registar a data. Cada dia estava sujeito a um rol de influências divinas e astrológicas que determinavam se o dia seria ou não propício, o que ajudava a ditar as actividades que podiam ser feitas.

Os anos mesoamericanos

Todas as nações mesoamericanas reconheciam um ciclo anual de 365 dias que correspondia aproximadamente ao nosso ano solar. O ano era dividido em 18 meses de 20 dias, sobrando cinco dias no final de cada ano. Estes chamados «dias sem nome» eram vistos como azarentos, porque não estavam sob a proteção de nenhum deus. Porém, os povos mesoamericanos não tinham equivalente ao nosso ano bissexto. Assim sendo, o cálculo dos 365 dias tornou-se aos poucos desfasado com o ciclo das estações. Este calendário era utilizado para marcar acontecimentos públicos oficiais, mas a sua imprecisão implicava que a data das festas da semeadura e colheita, por exemplo, tivesse de ser periodicamente alterada para continuar a coincidir com o ano agrícola.

O sistema de calendários mais considerado para propósitos de Adivinhação consistia num ano inteiramente distinto de 260 dias, em sintonia com o cálculo dos 365 dias. Não existe uma base sazonal óbvia para este segundo ciclo. A ligação mais provável parece ser o período de gestação humano, medido a partir do primeiro ciclo menstrual atrasado até ao nascimento da criança (as parteiras podem ter recorrido à contagem de 260 dias para calcular a data provável do parto). Esta ideia é corroborada pelo facto de os nomes das crianças astecas derivarem da data do nascimento, segundo esta contagem, e, quando nasciam, considerava-se terem já completado um ciclo.

Calendário Asteca
Calendário Asteca

Os nomes atribuídos às crianças combinavam um dos vinte nomes dos dias, como Vento, Veado, Pedra ou Flor, com um ciclo sucessivo de treze números. Por exemplo, uma pessoa podia ser chamada de Dois Veados ou Doze Pedras. Para os Astecas, cada um dos vinte nomes era associado a um determinado deus, tal como os treze números, que tinham como padroeiros os treze Senhores do Dia. Havia, ainda, outras influências, como, por exemplo, treze criaturas com asas, de beija-flores a corujas, que, por sua vez, estavam relacionadas com um dos treze patamares do céu asteca. Consequentemente, o calendário de 260 dias era o verdadeiro almanaque do adivinho, apresentando uma trama complexa de diferentes influências para cada dia, que somente um especialista seria capaz de desvendar. Na verdade, todos os sacerdotes astecas recebiam instruções sobre Adivinhação.

Alguns dias possuíam uma influência duradoura que se alongava bem para lá do período de 24 horas que, na verdade, abrangiam. O nome de uma pessoa podia afectar a sua própria sina para toda a vida, por isso as crianças nascidas em dias pouco propícios recebiam, muitas vezes, um novo nome numa altura mais auspiciosa.

O ciclo sagrado

Tanto os Astecas como os Maias gozavam de um conhecimento sofisticado de matemática e tinham uma profunda consciência dos padrões numéricos associados aos dois calendários. Tinham concluído que eram necessários 18.980 dias (73 anos pela contagem dos 260 dias e 52 anos pela contagem dos 365 dias) para ambos os calendários coincidirem. Na cultura mesoamericana, este período de 52 anos assumia uma grande importância e era conhecido como o «feixe de anos», devido ao hábito de os sacerdotes colocarem de parte uma vara de madeira descascada para marcar cada novo ano. Quando reuniam 52 varas, o período conhecido pelos historiadores modernos como «ciclo do calendário» terminara.

Para os Astecas, o fim de qualquer ciclo era um período perigoso, quando, por momentos, o mundo deixava de estar sob a influência protetora dos deuses comuns. Como consequência, a conclusão do ciclo do calendário era uma fase de particular terror. Segundo a cosmogonia dos Astecas, o mundo fora criado e destruído quatro vezes antes de o quinto Sol surgir na era actual e era esperado que também esta fase passasse, não nascendo, assim, mais nenhum Sol. A única certeza que tinham sobre o fim do mundo é que aconteceria com a conclusão de um ciclo do calendário, embora ninguém soubesse qual. Deste modo, sempre que chegava o fatídico momento, reinava o verdadeiro pavor de um desastre cósmico e uma preocupação aflitiva de que os deuses pudessem escolher a ocasião para finalmente erradicar quaisquer vestígios da criação humana.

Calendário Asteca
Calendário Asteca

Para minimizar os riscos, era realizado um importante ritual conhecido como cerimónia do Fogo Novo. No último dia do ciclo do calendário de 52 anos, as pessoas partiam toda a louça de barro que tinham em casa e apagavam todos os fogos. A vida quotidiana normal ficava suspensa e o jejum, a abstinência e o silêncio estavam na ordem do dia.

Ao cair da noite, uma procissão de sacerdotes e dignitários partia da capital asteca de Tenochtitlán rumo ao topo de uma montanha próxima, conhecida como Citlaltépetl ou «colina da estrela», onde aguardavam com grande tensão para apurar se a constelação que conhecemos como Plêiades se revelaria à meia-noite – um sinal de que o mundo continuaria num novo ciclo. Quando as estrelas eram vislumbradas, os sacerdotes sacrificavam uma vítima humana (por norma, um general inimigo tomado como prisioneiro de Guerra), retirando-lhe o coração do peito com uma faca feita de pedra. De seguida, com paus apropriados, produziam faíscas no interior do peito exposto da vítima e acendiam tochas, que eram acenadas para dar sinal das boas novas aos cidadãos ansiosos que observavam no sopé. A capital e todo o mundo asteca era inundado por uma vaga de alívio e alegria, dado que os demónios da destruição tinham sido, uma mais vez, afastados e a Humanidade tinha a garantia de sobrevivência durante os 52 anos que se seguiriam.

Calendários maias

Presos neste círculo vicioso de medo e salvação, os Astecas limitavam o tempo a 52 anos. Esta foi uma falha que os Maias, que tinham surgido alguns séculos antes na região onde actualmente se situam o sul do México e a Guatemala, aperfeiçoaram através da invenção do ciclo vertigino-samente extenso apelidado de Contagem Longa. O sistema de calendários maia era ainda mais complexo do que o asteca, visto que, para além dos anos de 260 e 365 dias, os sacerdotes maias calcularam ainda um calendário lunar a partir da primeira aparição de cada lua nova. Deixaram registos precisos o suficiente para calcular que 149 luas correspondiam à passagem de 4400 dias, dando a cada ciclo lunar a duração média de 29,5302 dias. O número aceite hoje em dia para um ciclo lunar é de 29,5306 dias.

Os Maias tinham o seu próprio almanaque de influências para cada dia do ano, bem diferente do almanaque dos povos do Norte no que aos detalhes diz respeito. Admitiam, igualmente, outros ciclos, prestando particular atenção ao aparecimento de Vénus, que identificavam com actividade militar (o glifo para «Guerra» representava Vénus sobre o símbolo do local atacado). Os Maias costumavam preparar ataques de forma a coincidirem com o primeiro aparecimento do planeta como Estrela Vespertina.

O fim da contagem longa dos Maias

Para calcular a passagem do tempo em períodos extensos, os Maias criaram a Contagem Longa, a partir de uma data fixa no passado distante (segundo os seus cálculos, o início da presente era do mundo). Em termos ocidentais, a contagem teve início a 11 de Agosto de 3114 a. C. Não existem registos que expliquem a escolha dessa data, mas algumas ilustrações sugerem que podia ter assinalado a recriação do mundo após ser destruído por uma grande inundação.

Os anos da Contagem Longa eram medidos em tuns de 360 dias. Seguindo a matemática vicesimal dos Maias, baseada no número 20 e não no 10 do sistema decimal, os períodos mais longos eram contados em katuns (20 tuns) e baktuns (20 katuns ou 400 tuns). Eram considerados períodos ainda mais longos de 20 e 400 baktuns, definindo eras de 8000 e 160.000 tuns, respetivamente.

Tal como todos os calendários mesoamericanos, a própria Contagem Longa era um ciclo e estava planeado chegar ao fim após 13 baktuns. Considerando os ajustes de calendários ocidentais e a discrepância entre o ano de 360 e 365 dias, essa data chegou (aproximadamente) no dia 21 de Dezembro de 2012, altura em que, caso os Maias tenham acertado nos cálculos, o ciclo prévio de existência terá chegado ao fim.

Fonte: Livro «As Profecias que Abalaram o Mundo» de Tony Allan

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