A arte da Cristolamancia

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Cristolamancia
Cristolamancia

«Foi-me dada uma visão no cristal e eu vi.»

–  Anotação no diário de John Dee a 25 de Maio de 1581, indicando a sua primeira experiência de sucesso com a bola de cristal.

A previsão através de bolas de cristal é um dos mais antigos e difundidos métodos de Adivinhação. Esta arte abrange uma série de formas de obter conhecimento ao olhar fixamente para superfícies lisas ou com reflexo, tipicamente bolas de vidro, mas também cristais e águas paradas, entre outras opções. A história da cristalomancia remonta, pelo menos, à Grécia clássica, onde Pausânias, o autor de literatura de viagens, descreveu várias fontes utilizadas para tais propósitos. Uma delas, em Tenaro, perto da extremidade mais a sul do Peloponeso, supostamente revelava tudo o que estava a suceder no porto local, até que uma mulher o poluiu ao lavar roupas sujas nas suas águas. Na Bíblia, o Livro do Génesis contém uma referência a José utilizando uma taça divinatória, ao passo que, segundo a tradição islâmica, o califa abássida al-Mansur tinha um espelho que, por milagre, revelava se um estrangeiro era aliado ou inimigo.

Na Mesoamérica, a cristalomancia parece ter tido um papel particularmente importante, representado pela sua associação a Tezcatlipoca, uma divindade assustadora cujo nome significava «espelho que deita fumo». As estátuas do deus exibem o espelho, feito de obsidiana de pedra vulcânica escura, a adornar-lhe a parte de trás da cabeça, enquanto um segundo substitui muitas vezes um dos pés que perdera numa batalha contra o monstro terreno numa luta da criação. Sabe-se que os Astecas utilizaram espelhos para actos de Adivinhação, assim como tigelas com água. Crenças da mesma natureza chegaram a Sul, evidentemente através do istmo do Panamá até ao Peru, a julgar por uma famosa lenda inca que descrevia como o conquistador Pachacuti encontrou, num riacho, um pedaço de cristal, no qual o deus criador Viracocha assomou, prometendo-lhe o império.

Como estes exemplos da Antiguidade indicam, existem muitas formas de cristalomancia, algumas mais globais do que outras. Hoje em dia, a maioria das pessoas associa a técnica a bolas de cristal, mas nem sempre foi assim. Os espelhos desfrutam de igual reputação (o «Espelho meu, espelho meu» nos contos de fada da Branca de Neve é um exemplo familiar do conto popular), ao passo que os Gregos da Antiguidade estavam longe de ser o único povo a servir-se da água dos rios, lagos ou riachos como espelho.

Cristalomancia
Bola de Cristal

Outros materiais e substâncias, além do vidro e da água, podem ser igualmente utilizados. Os praticantes de litomancia recorrem a pedras preciosas. Um dos métodos mais estranhos é a onicomancia, provavelmente extinta nos nossos dias, que consistia no estudo das unhas de um menino cobertas de fuligem e expostas ao sol. Mais recentemente, os videntes da cristalomancia têm, segundo consta, obtido resultados a partir de uma série de objectos inesperados, incluindo bolhas de sabão, versos de relógios e ecrãs das televisões sem imagem.

A cristalomancia tem servido vários propósitos com o passar dos tempos, incluindo a profecia pela profecia. Um exemplo retirado da obra Memoirs, de Saint-Simon, descreve uma menina que, simplesmente ao fixar o olhar num copo de água, conseguia narrar vários acontecimentos históricos que acabaram por acontecer no futuro. Porém, desde os primórdios que outros povos utilizaram o vidro com intenções definidas em vista. Por vezes, pessoas solteiras pretendiam ver o rosto do futuro companheiro. Uma antiga tradição do folclore norte-americano dizia que, se uma jovem descesse um lanço de escadas de costas no Dia das Bruxas enquanto olhava para um espelho, vislumbraria o rosto daquele que seria seu marido.

Uma tradição particularmente antiga é a utilização da cristalomancia para encontrar objectos perdidos ou roubados. A primeira referência à prática na Inglaterra data de 1467, quando William Byg, um habitante de Yorkshire, confessou ganhar a vida servindo-se de uma bola de cristal para descobrir objectos perdidos. Acusado de heresia pelas autoridades eclesiásticas, foi sentenciado a percorrer o caminho até York Minster carregando uma placa onde levava escrito «bruxo».

O vidente isahelino

A cristalomancia podia também ser utilizada, com sucesso ou não, para fins mais ambiciosos – um exemplo são as experiências do ocultista e erudito inglês do Século XVI, John Dee. Homem de grande sapiência, Dee era bem conhecido pela rainha Isabel I, a quem chegou mesmo a fazer o horóscopo. De facto, algumas autoridades julgam que o inglês foi o modelo de inspiração para o personagem Próspero, em «A Tempestade», de Shakespeare.

Os minuciosos estudos sobre o misticismo judaico tinham convencido Dee de que existia uma série de seres angélicos entre o Homem e Deus. Em 1580, Dee acreditou que estes espíritos podiam ser contactados através do vidro divinatório de cristal. Na década seguinte, registou as experiências num diário, documentando uma das mais extraordinárias histórias de aventuras psíquicas do mundo.

Cristalomancia
Vidente a praticar Cristalomancia

Infelizmente, o próprio Dee revelou ter pouca aptidão para invocar espíritos: «Sabeis que não consigo ver ou adivinhar», escreveu, desanimado. Consequentemente, foi forçado a confiar em assistentes. O mais significativo foi, de longe, um vigarista perspicaz de nome Edward Kelley, um aventureiro que já perdera as orelhas por falsificar dinheiro, anos antes de conhecer Dee.

Kelley não só evocava espíritos depressa e em quantidade, como também se servia de uma nova bola divinatória de uma forma altamente dramática. Ao final de uma tarde, em 1582, Dee vislumbrou uma criança-anjo segurando um «objecto luzente, claro e glorioso da dimensão de um ovo», na janela oeste do seu laboratório. O cristal revelou-se, de facto, verdadeiro e Dee descrevê-lo-ia mais tarde como a dádiva de Uriel, o anjo da luz.

Contudo, o assistente Kelley estava mais interessado em servir-se dos conhecimentos de alquimia de Dee para fazer ouro do que em espíritos angélicos. Com este propósito, convenceu o erudito de 56 anos a deixar a sua casa em Mordake, nos arredores de Londres, e viajar na companhia da esposa e empregados para a Polónia, onde um nobre bem abastado prometera apoiar-lhe as investigações. Uma peregrinação fútil de seis anos motivou a dupla a pedir ajuda não só na Polónia, como também na corte de Praga do sacro imperador romano Rodolfo II e no castelo do vice-rei da Boémia. No decurso das viagens, Kelley não só continuou a invocar anjos e a dedicar-se a pesquisas relacionadas com alquimia, mas também convenceu o já muito envelhecido Dee de que, a conselho dos espíritos, os dois deviam compartilhar, inclusivamente as esposas. Entretanto, os rumores quanto às actividades mágicas de Dee despertaram o ódio na terra natal, onde uma multidão furiosa lhe saqueou a casa e queimou muitos dos livros e objectos.

Dee acabou por se fartar, regressando à Inglaterra em 1589, falido e desanimado. Felizmente, a sua antiga protetora, a rainha Isabel I, teve pena da sua situação precária e recompensou-lhe os longos anos ao serviço da coroa com o cargo de reitor no colégio de Manchester, uma cidade em crescimento situada a Norte.

Kelley não teve tanta sorte. Permaneceu na Europa Oriental, onde era cada vez menos bem recebido. Acusado de fraude e bruxaria, acabou por ser preso. Uma tentativa de fuga correu desastrosamente mal, quando a escada feita de nós de lençóis por onde descia, rebentou com o peso e ele morreu no dia seguinte devido aos ferimentos. Com ele, morreu igualmente o conhecimento sobre se vira, de facto, maravilhas na bola de cristal. A única certeza que resta é que as experiências posteriores de Dee com a cristalomancia foram infrutíferas e as vozes angélicas se silenciaram.

Visões nubladas

A profecia através de bolas de cristal continua, nos dias de hoje, a ser a técnica de cristalomancia mais popular, embora o modus operandi varie consideravelmente entre os videntes. Alguns insistem numa preparação de vários dias para limpar o corpo e a mente antes de uma sessão, enquanto outros dispensam tais preliminares. A maioria insiste que o próprio espelho deve estar imaculado e impecável, já que qualquer imperfeição no vidro pode ser alvo de distracção. Um dos métodos de limpeza eleito consiste em mergulhar a bola numa panela com uma medida de conhaque para cinco de água e deixar ferver durante quinze minutos, secando-a de seguida, com um peça de pele de camurça. Alguns videntes gostam de praticar a cristalomancia em escuridão total ou contra um fundo escuro, como uma peça de veludo ou uma gaveta meio fechada. Outros conseguem trabalhar em pleno dia, embora a maioria prefira a penumbra, com a bola posicionada na distância típica de leitura. No passado, muitos adivinhos empregavam jovens rapazes ou raparigas, que eram tidos como portadores de uma visão psíquica particularmente boa, para que olhassem para o vidro, limitando o seu próprio papel à interpretação das visões que os jovens supostamente vislumbravam. Contudo, nos dias de hoje, a maioria realiza a sua própria cristalomancia. A visão em si demora, regra geral, entre cinco a quinze minutos para tomar forma.

O que o vidente vê na verdade também varia de indivíduo para indivíduo, mas os relatos clássicos falam de uma nuvem leitosa ou opaca que vai preenchendo o interior da bola a pouco e pouco. As próprias visões assomam por entre a nebulosidade, muitas vezes banhadas numa luz preternaturalmente brilhante. Podem estar imóveis ou em movimento, sempre reduzidas à circunferência da bola ou num tamanho aparentemente real. Por vezes, não é vislumbrada qualquer forma, mas, mesmo assim, o vidente pode ainda recolher alguma informação das nuvens em si; se apresentarem uma tonalidade clara, denotam, em geral, boa sorte, ao passo que cores mais escuras implicam maus presságios.

Um romance revelado

Um curioso caso de cristalomancia divinatória foi registado em 1915 por um certo Dr. Edmund Waller, que estava na altura a viver em Paris. Um amigo que ia embarcar numa longa viagem a África pediu-lhe que, num ato de gentileza, se certificasse de que estaria tudo bem com a sua esposa enquanto estivesse fora. Contudo, pouco depois da partida do amigo, a esposa viajou para os Estados Unidos e Waller despendeu pouco tempo a pensar na sua tarefa. Eis que, numa noite em que não conseguia dormir, decidiu distrair-se com a bola de cristal que o pai comprara recentemente. Ficou boquiaberto ao ser confrontado com a visão da esposa do amigo na companhia de um homem desconhecido, num cenário que identificou como o recinto do hipódromo de Longchamps, nos arredores de Paris. Sabendo que haveria uma corrida no domingo seguinte precisamente em Longchamps, cancelou um compromisso importante para lá estar e viu o casal tal como na sua visão; como era óbvio, ele não soubera que a esposa do amigo regressara a França. Waller teve muitas outras visões do par na bola de cristal, o que relatou ao amigo no seu regresso a França. De início, o homem recusou-se a acreditar na história. Porém, quando Waller teve uma nova visão do casal, desta vez num conhecido restaurante parisiense, o marido concordou em acompanhá-lo ao local, onde se depararam com o casal adúltero a jantar, seguindo-se uma cena que acabou por originar um divórcio.

Fonte: Livro «As Profecias que Abalaram o Mundo» de Tony Allan

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