H.G. Wells: o Profeta da Era Moderna

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H. G. Wells
H. G. Wells

«Com certeza, parece agora que nada poderia ter sido mais óbvio para as pessoas do início do Século XX do que a rapidez com a qual a Guerra se estava a tornar impossível. E com certeza não o viram. Não o viram até que as bombas atómicas lhes explodiram nas mãos desajeitadas.»

H. G. Wells, prevendo uma guerra atómica e as suas consequências no romance, de 1914, «The World Set Free», cinco anos antes de Ernest Rutherford descobrir a desintegração do átomo.

De todos os profetas da Tecnologia do início do mundo moderno, nenhum resistiu tão bem à prova do tempo como H. G. Wells. Claro que Wells errou em muitas coisas e previu equivocadamente outras tantas. No entanto, o retrato da vida moderna que esboçou há cem anos ainda é reconhecível hoje em dia e, em alguns detalhes incluídos nos seus romances, os relatos foram sinistramente prescientes.

O sucesso de Wells é ainda mais extraordinário se considerarmos o seu passado. Nascido em 1866 no seio de uma família pobre, foi tirado da escola aos 14 anos para trabalhar como assistente de negociante de tecidos. Com os próprios meios, conseguiu uma bolsa para estudar em Londres na Royal College of Science e, aos 20 e poucos anos, descobriu por fim a sua vocação como romancista popular e jornalista. Escreveu mais de 100 livros e inúmeros artigos, conseguindo uma reputação considerável em vida. A combinação de curiosidade tecnológica, estimulada pelos estudos científicos, e as preocupações sociológicas encorajadas pela sua veia jornalística fizeram com que Wells visualizasse não só a era da máquina, como também os possíveis efeitos sociais.

O fruto de tais especulações nasceu num livro intitulado «Anticipations», publicado em 1901. Na época, quando os primeiros automóveis começavam a circular nas ruas, Wells imaginou como seria uma futura era do motor. Visualizou empresas de transporte e autocarros para percorrer grandes distâncias e falou com entusiasmo sobre a liberdade de viajar de cada um, mediante a vontade, que representariam os veículos a motor individuais. Previu autoestradas e até viadutos, comentando que «onde os caminhos se ramificam, o fluxo de trânsito não se manterá num mesmo nível, mas sim por pontes». Foi igualmente perspicaz quanto aos efeitos sociais prováveis dos automóveis, prevendo o aumento das viagens de longa distância. Comentou que «Não é de mais dizer que o cidadão londrino do ano 2000 d. C. pode escolher quase toda a Inglaterra e País de Gales a sul de Nottingham e a este de Exeter como subúrbio.» Wells previu, ainda, que os trabalhadores de Nova Iorque do futuro poderiam viver num local do interior que se estenderia de Albany a Washington.

Socialmente, Wells previu a expansão da classe média e do sistema educativo para atender às necessidades de uma população cada vez mais capacitada e instruída. Imaginou as casas dos novos cidadãos, onde não existiriam empregados como era comum na sua época, já que o trabalho doméstico seria minimizado pela Ciência. Imaginou uma espécie de ar condicionado: «[…] o ar entrará na casa do futuro por canos próprios nas paredes para aquecê-la e aspirar o pó, sendo expelido por um mecanismo simples.» Em 1900, a culinária ainda implicava fogões a lenha e cozinheiros mourejando sobre pratos quentes «com o rosto afogueado e os braços desnudos enegrecidos». Porém, também isso mudaria, escreveu Wells, já que «com um pequeno fogão elétrico munido de termómetros, com temperaturas totalmente controladas e placas de calor apropriadas, cozinhar poderá, muito facilmente, passar a ser uma tarefa de agradável diversão.»

H. G. Wells
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O profeta pessimista

No entanto, Wells estava longe de ser um optimista convicto do futuro. Previu com incrível clareza a direcção que o estado de Guerra tomaria. Ao escrever doze anos antes da sua invenção, antecipou qual seria a utilização de «blindados de terra» (tanques) e a evolução da espingarda moderna: «[…] é possível criá-la no futuro com mira telescópica incorporada, cujo foco, corrigido por uma qualquer utilização engenhosa de material higroscópico, poderá até ser de longo alcance». No romance «The War in the Air», publicado em 1908, quase quatro anos após o primeiro voo dos irmãos Wright, Wells considerou o bombardeamento de cidades como uma ameaça à civilização. Mais incrível ainda, previu a construção de bombas atómicas em 1914, mesmo antes de o átomo ter sido desintegrado, inventando um elemento radioactivo imaginário denominado «carolinum», com o mesmo propósito que o urânio e o plutónio acabaram por servir.

Apesar de toda a sua previdência e enorme sucesso como romancista, Wells morreu infeliz e imensamente frustrado, em 1946. Ao longo da vida, defendeu soluções para os problemas que confrontavam a Humanidade, incluindo o abandono do nacionalismo a favor do governo internacional (foi, por exemplo, um dos primeiros defensores da Liga das Nações) e a necessidade de Educação para prevenir que as pessoas entrassem cegamente em Guerra. «A vida humana», escreveu, «torna-se cada vez mais uma corrida entre Educação e catástrofe». No entanto, ao invés do esclarecimento que esperara transmitir, Wells viveu para testemunhar o mergulho do mundo ocidental no vórtice do fascismo, Nazismo e terrível destruição em massa que foi a Segunda Guerra Mundial. Num dos seus últimos livros, «Mind at the End of its Tether», escreveu, com pessimismo: «O final de tudo a que chamamos de vida está próximo e não pode ser evitado.» Na sua desilusão final, o apóstolo do progresso acabou a ecoar o velho grito secular de desespero dos profetas do Juízo Final.

Fonte: Livro «As Profecias que Abalaram o Mundo» de Tony Allan

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