A ascenção da Futurologia

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Bola de Cristal
Bola de Cristal

«O telefone pode ser adequado para os nossos primos norte-americanos, mas não aqui, pois temos uma boa oferta de mensageiros.»

– A conclusão de um painel de especialistas ingleses sobre o futuro da telefonia no final do Século XIX, como citado em «The Fortune Sellers», de William A. Sherden.

À medida que um número cada vez maior de pessoas se voltava para a Ciência para saber o futuro, era talvez inevitável que a previsão em si acabasse por dar origem a uma ciência própria. A palavra «futurologia» foi aplicada em 1940 por um cientista político alemão, Ossip Flechtheim, com base na obra de H. G. Wells e noutros autores para delinear tendências vindouras. Nos anos de pós-guerra, a nova disciplina depressa se tornou um grande negócio com a multiplicação de institutos de investigação e desenvolvimento e fóruns sobre planos de acção.

A Rand Corporation, criada em 1948 com o apoio da Força Aérea norte-americana, foi o protótipo da equipa de especialistas. O seu aluno mais conhecido foi Herman Kahn, investigador formado pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, que a corporação contratou para trabalhar em questões de estratégia militar. Os livros de Kahn, incluindo «Thinking About the Unthinkable» (1962), fizeram dele uma celebridade e, em 1961, criou a sua própria organização, o Hudson Institute. Outros países não tardaram em seguir o exemplo norte-americano e hoje em dia proliferam equipas de investigadores por todo o mundo.

Surgiram também outras instituições dedicadas à especulação do futuro. A World Future Society, fundada em 1966, com sede em Washington, D. C., conta hoje com 25 mil sócios a nível internacional. O seu conselho inclui Alvin Toffler, autor de «Choque do Futuro» e «A Terceira Vaga», John Naisbitt, cujas obras incluem «Megatrends 2000», e, até à sua morte recente, Arthur C. Clarke, autor de «2001: Odisseia no Espaço».

O movimento da futurologia tem tido um profundo impacto na Política e atitudes públicas nos últimos cinquenta anos e uma avaliação dos seus vários sucessos e fracassos não se encontra no âmbito deste livro. Contudo, o ponto de interesse da futurologia é que o seu desenvolvimento foi, por si só, inteiramente previsível.

Futurologia

Desde os primórdios, a necessidade de prever o futuro tem sido mais marcada em períodos de mudança e instabilidade. Os grandes profetas bíblicos não surgiram nos dias da expansão de Israel, mas sim quando o seu povo estava em risco, dividido entre os reinos de Israel e Judá, e era ameaçado pelos exércitos da Babilónia ou Assíria. Os videntes indígenas norte-americanos viram o número de seguidores aumentar numa época em que as suas formas tradicionais de vida estavam sob ameaça e todo o continente estava a ser invadido por uma vaga de colonizadores brancos. A um nível mais pessoal, momentos traumáticos da História, como o naufrágio do Titanic, assassinatos políticos de grande relevância ou o ataque terrorista a Nova Iorque, tendem a desencadear uma série de premonições e sonhos individuais de previsões. A ansiedade e a incerteza, ao que parece, criam uma necessidade de informação à qual os profetas se propõem a responder.

Mudanças inquietantes

O ritmo a que tem ocorrido a mudança tecnológica e social desde o final da Segunda Guerra Mundial não tem comparação igual em toda a história do Homem. Tomemos, por exemplo, o crescimento da população mundial. Foram necessários 100 mil anos de desenvolvimento humano para que a população mundial atingisse mil milhões de habitantes, número esse ultrapassado no início do Século XIX. Em 1950, o total passará para dois mil e quinhentos milhões e hoje está bem acima dos seis mil milhões, com tendência a atingir novos máximos. Associado a esse fenómeno, está o aumento da esperança média de vida, que subiu gradualmente dos 20 e poucos anos que os caçadores-ceifeiros da Idade da Pedra poderiam esperar atingir para os 46,4 anos em 1950. Desde então, o número aumentou exponencialmente, chegando a uma média global de 63 anos por volta do ano 2000, com os habitantes de países desenvolvidos podendo geralmente atingir os 75.

A velocidade cada vez maior do desenvolvimento tecnológico é igualmente inquietante. A energia nuclear comercial, os computadores e transístores, a tecnologia espacial, os lasers e fibras ópticas invadiram todo o mundo desde a Segunda Guerra. Não há sinal de o ritmo diminuir com o crescimento actual da investigação genética, nanotecnologia e bioengenharia.

Num cenário que muda com a rapidez de uma paisagem vista da janela de um carro em andamento, as pessoas tendem naturalmente a procurar indicações. Os futurologistas ajudam a dar um sentido de direcção ao distinguir padrões no aparente caos e iluminando o caminho a seguir. Assim, cumprem ambos os papéis tradicionais da Profecia: tal como os antigos áugures e adivinhos, prevêem o que o futuro pode reservar e, ao mesmo tempo, herdam algo da missão dos inspirados videntes que diziam às pessoas como moldar as suas vidas a um mundo em evolução.

No passado, quando as pessoas procuravam a Religião para explicar o Universo, a Profecia adoptava um tom religioso. Agora que a Ciência assumiu por completo esse papel, não é surpresa que as pessoas esperem que as previsões adoptem tons científicos. No entanto, estas esperanças são, na maioria, passíveis de serem uma desilusão. O futuro continua tão misterioso como sempre. Quando se trata de prever grandes e inesperadas mudanças que lhes alteram o curso, os momentos súbitos e imprevisíveis de revelação têm tanta probabilidade de estarem corretos como o mais rápido e mais bem informado computador à face da Terra.

Fonte: Livro «As Profecias que Abalaram o Mundo» de Tony Allan

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