Propaganda norte-americana atinge alvos específicos, omitindo flagrantemente as suas próprias agressões aos Direitos Humanos

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Armando Valladares no Fórum da Liberdade em Oslo, em 2010
Armando Valladares no Fórum da Liberdade em Oslo, em 2010

Em Maio de 1986, vieram a lume as memórias de um preso político cubano que fora posto em liberdade: Armando Valladares. O livro tomou-se rapidamente um assunto de sensação nos Meios de Comunicação Social. Vou citar algumas passagens: Os Meios de Comunicação Social referem-se às revelações de Valladares como “o relato definitivo do vasto sistema de tortura e prisão pelo qual Castro pune e destrói a oposição política”; como «uma sugestiva e inesquecível descrição» das “prisões brutais”, da tortura desumana e como um registo de violência de Estado, mais um neste século de assassínios em massa, que, ficamos a saber graças a este livro, “criou um novo despotismo que institucionalizou a tortura como mecanismo de controlo social” no “inferno que foi a Cuba em que [Valladares] viveu”. As citações são do Washington Post e do New York Times em repetidas ocasiões. Castro era descrito como um «rufia ditatorial». As suas atrocidades foram reveladas neste livro de forma tão conclusiva que «só o mais desmiolado e indiferente intelectual ocidental virá em defesa do tirano», diz o Washington Post. Recorde-se que isto é o relato do que aconteceu a um homem. Diga-se que é tudo verdade. Não se façam perguntas sobre o que aconteceu ao homem que diz que foi torturado. Numa cerimónia realizada na Casa Branca para assinalar o Dia dos Direitos Humanos, Armando Valladares foi destacado por Ronald Reagan pela coragem com que suportou os horrores e o sadismo desse sanguinário déspota cubano. O mesmo Valladares foi depois nomeado representante dos Estados Unidos na Comissão dos Direitos Humanos das Nações Unidas, onde pôde prestar serviços importantes em defesa dos governos do Salvador e da Guatemala contra as acusações de que praticavam tais atrocidades que, em comparação, tudo o que ele sofrera, parecia não ter importância. É assim que as coisas estão.

Estava-se em Maio de 1986. Era interessante e diz alguma coisa sobre o fabrico do consentimento. No mesmo mês, os membros sobreviventes do Grupo de Direitos Humanos de El Salvador — os chefes tinham sido mortos — foram presos e torturados, incluindo Herberto Anaya, que era o director. Foram mandados para uma prisão — a Prisão La Esperanza (A Esperança). Enquanto estiveram na prisão continuaram o seu trabalho em defesa dos direitos humanos. Eram advogados e continuaram a receber depoimentos juramentados. Nessa prisão, encontravam-se 432 prisioneiros. Os advogados obtiveram depoimentos de 430, os quais descreveram, sob juramento, as torturas que haviam sofrido: torturas que incluíam choques eléctricos e outras atrocidades, incluindo, num caso, a tortura praticada por um major norte-americano, que se apresentava fardado, o qual é descrito com algum pormenor. Trata-se de um invulgar e abrangente testemunho, provavelmente único nos seus pormenores sobre como se passavam as coisas numa sala de tortura. Este relatório de 160 páginas do testemunho juramentado dos presos foi passado para fora da prisão, juntamente com uma gravação em video que mostrava pessoas na prisão a prestarem depoimentos sobre as torturas que lhes foram infligidas. O material foi distribuído pelo Marin County Interfaith Task Force. A Imprensa norte-americana recusou referir os depoimentos. As estações de televisão recusaram passar o video. Apareceu um artigo no jornal local de Marin County, o San Francisco Examiner, e penso que foi tudo. Mais ninguém tocaria no assunto. Estava-se num tempo em que havia mais do que alguns «intelectuais ocidentais indiferentes e desmiolados» entretidos a cantarem loas a José Napoléon Duarte e a Ronald Reagan. Anaya não foi alvo de quaisquer homenagens. Não foi nomeado para coisa nenhuma. Foi libertado numa troca de prisioneiros e depois assassinado, aparentemente pelas forças de segurança, treinadas pelos norte-americanos. Os Meios de Comunicação Social nunca se perguntaram se a revelação — em vez do silêncio e do esquecimento — das atrocidades que sofrera poderiam ter-lhe salvo a vida.

Isto diz alguma coisa sobre a maneira como trabalha um bom sistema de fabrico de consentimentos. Em comparação com as revelações de Herberto Anaya no Salvador, as memórias de Valladares dão conta apenas de uma gota no meio do oceano. Isto leva-nos à próxima Guerra. Julgo eu que iremos ouvir cada vez mais disto até que ocorra a próxima operação.

Algumas observações acerca da última. Regressemos a esse assunto e comecemos com esse estudo da Universidade de Massachusetts, mencionado no artigo «A Ficção apresentada como Realidade à Opinião Pública», e que tem algumas conclusões interessantes. Nesse estudo, perguntava-se às pessoas se pensavam que os Estados Unidos deviam intervir pela força para inverter ocupações ilegais ou sérios abusos de direitos humanos. Cerca de cinquenta por cento dos norte-americanos pensavam que sim. Devemos usar a força no caso de ocupação ilegal de território e de graves violações dos direitos humanos. Se os Estados Unidos fossem seguir este conselho, bombardearíamos El Salvador, Guatemala, Indonésia, Damasco, Telavive, Cidade do Cabo, Turquia, Washington e mais uma lista imensa de outros Estados. Todos estes são casos de ocupação ilegal, de agressão e de graves ofensas aos direitos humanos. Se se conhecessem os factos por detrás desta lista de exemplos, saber-se-ia muito bem que o tipo de agressões e de atrocidades, de Saddam Husseim lhe conferiria um lugar na lista. Todavia, não se trata do caso mais gritante. Porque é que ninguém chega a esta conclusão? O motivo é simples: porque ninguém sabe. Num sistema em que a propaganda funcione bem, ninguém saberia de que é que estou a falar quando enumero aqueles exemplos. Mas se alguém se der ao incómodo de verificar, verá que os exemplos referidos são bastante apropriados.

Guerra Israel Líbano
Guerra Israel Líbano

Tome-se um exemplo que esteve ominosamente quase a ser visto durante a Guerra do Golfo. Em Fevereiro, mesmo em plena campanha de bombardeamentos, o governo do Líbano pediu que Israel cumprisse a Resolução 425 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, a qual lhe exige que retire imediata e incondicionalmente do Líbano. Essa resolução data de Março de 1978. Mais tarde, foram aprovadas outras duas resoluções apelando à imediata e incondicional retirada israelita do Líbano. Claro que as resoluções não foram cumpridas por Israel porque os Estados Unidos apoiam Israel na continuação da ocupação. Entretanto, o sul do Líbano vive aterrorizado. Existem grandes salas de tortura onde se passam coisas horríveis. A região é usada como base para atacar outras zonas do Líbano. Depois da invasão do Líbano, em 1978, a cidade de Beirute foi bombardeada, foram mortas cerca de 20.000 pessoas, das quais uns 80% eram civis, vários hospitais foram destruídos e aumentaram o terror, a pilhagem e o roubo. Tudo bem, os Estados Unidos apoiam. Isto é só um caso. Nos Meios de Comunicação Social não se vê nada sobre o assunto, nem qualquer discussão sobre se Israel e os Estados Unidos deviam acatar a Resolução 425 do Conselho de Segurança das Nações Unidas ou qualquer das outras resoluções; nem ninguém pediu o bombardeamento de Telavive, embora de acordo com os princípios defendidos por dois terços da população, o devêssemos fazer. No fim de contas, trata-se de uma ocupação ilegal de território e de graves violações dos direitos humanos. É só um caso. Existem outros muito piores. A invasão de Timor-Leste pela Indonésia provocou a morte de cerca de 200.000 pessoas. Face a este, todos os outros casos parecem insignificantes. Isto foi activamente apoiado pelos Estados Unidos e a Indonésia ainda continua com importante apoio militar e diplomático dos Estados Unidos. Podíamos continuar a apresentar exemplos indefinidamente.

Fonte: LIVRO «A Manipulação dos Media» de Noam Chomsky

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