OVNI em Dili

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Mapa de Dili, a capital de Timor Leste
Mapa de Dili, a capital de Timor Leste

Lembro-me de que, quando ainda era um garoto de uns treze ou catorze anos, no intervalo de uma aula, perguntei a uma professora muito competente de Ciências Geográfico-Naturais, se haveria vida noutros planetas.

Naturalmente surpreendida pela pergunta, a professora respondeu-me com a maior honestidade:

– A essa pergunta que acabas de me fazer ainda nem os maiores sábios do Mundo sabem dar resposta.

Eu bem gostaria que ela soubesse dar-me resposta, e não uma resposta qualquer, mas a de que não estávamos isolados no Universo

Hoje, tenho racionalmente como certo que tem mesmo de existir vida, não só num, mas em muitos planetas dos muitíssimos triliões de sistemas “solares” que existem em cada galáxia dos muitíssimos milhões delas que constituem o nosso Universo. E isto, passando da suposição de que existe apenas um único Universo, o nosso, o que não é nada provável…

Sou, porém, um tanto céptico no que respeita à crença de que Extraterrestres observem ou visitem o nosso planeta. Sou quase como o Sancho Pança, quando dizia, referindo-se às bruxas: “Não acredito em bruxas, mas lá que as há, há!…” Assim, como o bom do Sancho Pança a respeito das bruxas, tenho como certo que há mesmo Extraterrestres, mas não acredito, nem um pouco, nas suas visitas passadas ou presentes à nossa Terra.

Como explicar esta aparente contradição?

É simples:

Realmente, no que toca à vida em outras regiões do Universo, acho, racionalmente falando, que só por milagre apenas neste nosso mesquinho planeta fosse haver vida e não em mais qualquer outro, havendo triliões deles pelo nosso Universo fora, para não falar dos que existirão em outros possíveis universos…

Agora quanto às visitas de Extraterrestres, acho que, se, porventura, eles realmente nos visitassem, certamente já teriam encontrado maneira de se relacionarem com os terráqueos. Ora, ao que me parece, não há ainda quaisquer provas credíveis de que tenha havido qualquer desses contactos. E, a dar-se a hipótese de eles se terem já verificado e estarem no segredo de apenas uns quantos, isso seria, quanto a mim, um indesculpável crime de lesa-Humanidade.

Os Homens, todos os Homens do Mundo têm, em princípio, o direito de saber o que se passa nesse domínio!

Até aqui, tudo bem, tudo claro e racional, mas a verdade é que, por vezes, acontecem factos que me levam a pensar se a minha razão não me estará a enganar…

Vejamos o que se passou em Dili:

Um alferes do Quadro Permanente, homem que servia o exército desde o modesto posto de soldado, aquilo a que, injusta e até depreciativamente, se costuma chamar “tarimbeiro”, que era a pessoa mais amiga do concreto e objectivo que jamais conheci na minha vida, estava prestando serviço, como eu, na Chefia do Serviço de Contabilidade e Pagadoria do Quartel-General em Dili, e a sua especialidade, portanto, era só números, contas, realidades concretas, e nada de abstracções ou subjectivismos…

Então não é que um dia tive imensa pena do pobre do homem, pessoa já de uns quarenta e tantos anos de idade, quando o vi ser objecto de risota dos demais colegas por afirmar, a pés juntos, ter visto em Dili, quando fazia o seu passeiozinho higiénico após um jantar, um disco voador pairando baixo sobre a cidade, e desaparecendo alguns minutos depois?

OVNI
OVNI

O pobre homem dizia:

-Mas se o que eu vi, vi bem com estes meus olhos! Tenho bem a firme certeza de que não me enganei! Beber não bebo, vocês bem o sabem, e tenho a certeza de que não fui vítima de qualquer engano.

-Tu o que estás é já gagá, ó F.! Estás já caquético!

-Está bem, chamem-me lá gagá ou o que quiserem. Um dia, hão-de vir a lembrar-se de mim e dar-me razão, tenho a certeza, porque o que eu vi, vi, pronto e acabou-se.

Olhei para ele e vi-lhe lágrimas de cruel desespero por ninguém acreditar no que ele afirmava categoricamente.

Quanto a mim, nada disse, mas, quando me encontrei a sós comigo, pensei: “Não se estará a passar neste momento, no Mundo, o mesmo que no tempo de Camões, no Século XVI, quando os rudes marinheiros afirmavam, igualmente a pés juntos, que viam trombas marítimas e fogos de São Telmo e eram incompreendidos pelas gentes bem pensantes da época, que consideravam tais fenómenos da Natureza meros delírios, frutos da imaginação doentia dos pobres nautas, depois de muito tempo no mar?”.

Não sei. O mistério persiste…

Nota — No dia seguinte ao da redacção deste texto, foi noticiado, nos canais informativos de todo o mundo, que uns cientistas detectaram e, portanto, comprovaram, a existência, como era de prever, de dois planetas girando em torno de outros sistemas “solares” da nossa galáxia. Está a Humanidade de parabéns. E que isto de nos sentirmos sós num Universo tão gigantesco faz pena!…

Fonte: LIVRO: Ran Méan Ôtu (O Sangue é Todo Vermelho) – Memórias de Timor de José Conceição Casinha Nova

Sobre o Autor:

José da Conceição Casinha Nova
José da Conceição Casinha Nova

José da Conceição Casinha Nova nasceu a 5 de Junho de 1934, em Burgau, aldeia da freguesia de Budens, concelho de Vila do Bispo, no barlavento Algarvio.

Depois de ter concluído a licenciatura em Filologia Românica, partiu, com 27 anos, para Timor, para cumprir o serviço militar obrigatório, onde ficaria mais de dois anos, deixando na Metrópole a esposa e a filha, de 18 meses.

Regressou em Setembro de 1964, ficando a residir em Portimão, onde leccionou no Liceu Nacional de Portimão, durante dois anos, após os quais voltou a partir, desta vez com a família e de livre vontade, para São Tomé e Príncipe.

Aí, leccionou durante cinco anos, tendo-lhes nascido mais uma filha. Regressando ao continente em Julho de 1971.

Após três anos de serviço no Liceu Nacional de Faro, onde se profissionalizou, fixou residência em Portimão, donde não voltou a partir.

Aposentou-se em 1996, e, desde então, tem-se ocupado a escrever as suas memórias. Este volume é dedicado ao tempo passado em Timor que, apesar dos momentos vividos em temos menos tranquilos, é o seu país de eleição, cuja terra e cujas gentes o marcaram profundamente.

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