Descobertas Simultâneas e a Medicina do Século XX

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Joseph Priestley e Antoine Lavoisier
Joseph Priestley e Antoine Lavoisier

Por volta de 1770 Priestley e Lavoisier, realizaram uma série de experiências que os conduziu, separadamente, à descoberta daquilo que hoje sabemos ser o oxigénio [1]. Entre 1842 e 1847 Mayer, Joule, Colding e Helmholtz, percorrendo caminhos independentes, anunciaram a “teoria da conservação da energia[2]. Estes são dois exemplos, entre muitos outros, daquilo a que os historiadores da Ciência chamam “descobertas simultâneas”.

Episódios como estes podem levantar questões de prioridade: afinal, quem é que descobriu primeiro? Mas a resposta a esta pergunta, que poderá ser útil para justificar homenagens póstumas ou alimentar sentimentos patrióticos ou regionalistas, pouco contribui para lançar luz sobre a verdadeira natureza do conhecimento científico. Na verdade, descobrir qualquer coisa, raras vezes é um acto simples e único, atribuível a uma só pessoa e referido a um tempo exacto. Quase sempre é um acontecimento complexo em que as questões de prioridade nem sempre são lineares.

A ocorrência de “descobertas simultâneas” nada tem de misterioso e pode ser explicada pela convergência de diversos factores presentes num certo momento histórico. Dados empíricos, modelos conceptuais e instrumentos postos à disposição dos cientistas, podem conduzir, em cada época, a novas questões que exigem novas respostas. Os cientistas, colocados perante problemas diferentes, tentam ultrapassá-los como se subitamente tomassem consciência de conhecimentos que apontam num determinado sentido. Não admira por isso que, em curtos intervalos de tempo, haja mais do que um cientista a fazer a mesma descoberta, embora percorrendo caminhos distintos.

Num texto de 1959, Thomas Kuhn valoriza um grupo de factores que tiveram influência específica nas investigações dos cientistas que descobriram a “teoria da conservação da energia”, a saber: “conhecimento dos processos de combustão”, “interesse pelos motores” e “filosofia da natureza” (Naturphilosophie) [3]. Reconhece, contudo, que para além destes factores desencadeantes, existiram outros pré-requisitos com papel determinante tais como os elementos conceptuais e experimentais da calorimetria e as novas concepções químicas derivadas dos trabalhos de Lavoisier e seus contemporâneos. Quer isto dizer que as descobertas científicas só acontecem quando se encontram reunidas algumas condições prévias experimentais e conceptuais que as tornam possíveis.

“Prioridade” e “condições prévias” são, portanto, questões importantes do ponto de vista histórico, mas estão longe de esgotar o problema epistemológico. O caminho que cada cientista percorre, a terminologia que utiliza e os modelos que desenvolve, constituem importantes fontes de reflexão acerca da natureza do conhecimento científico. A tarefa que se coloca aos historiadores da Ciência é, sem dúvida, difícil e exige a análise dos textos originais e o conhecimento dos cenários culturais, das tradições científicas, dos ambientes académicos e até das influências filosóficas. Quem se debruça sobre os trabalhos de Priestley e Lavoisier que conduziram à descoberta do oxigénio, dá-se conta desta complexidade e da variedade de percursos que podem levar aos mesmos resultados. Priestley trabalhava dentro da tradição britânica da “química pneumática” que tinha muitos pontos de contacto com a física e a medicina. As suas investigações, realizadas no campo dos fenómenos biológicos, permitiram-lhe perceber que o ar, longe de ser um elemento irredutível, incluía diversos “ares”. Mas o “ar” que conseguiu isolar como um elemento distinto, não era ainda uma amostra pura de oxigénio. E, ao verificar que nele uma vela ardia melhor do que no ar vulgar, deu-lhe o nome de “ar desflogistificado” [4]. Lavoisier, formado na tradição da “química dos sais”, apercebeu-se da importância da descoberta de Priestley e tirou dela todas as consequências possíveis ao combinar as descobertas britânicas com os dados acumulados pelos cientistas continentais. Chamou ao novo gás “o próprio ar inteiro”, mas insistiu que o oxigénio era “um princípio de acidez” e que o gás oxigénio só se formava quando esse “princípio” se unia ao calórico [5].

James Prescott Joule
James Prescott Joule

Apesar desta terminologia confusa, associada a definições de conceitos nem sempre claras, não temos hoje dificuldade em aceitar que ambos descobriram o oxigénio. Mas, reconhecer isto, pode não ser suficiente para ultrapassar a dificuldade de definir o momento exacto em que uma descoberta ganha estatuto, ou seja, a altura a partir da qual os fenómenos observados por um ou mais cientistas se organizam num todo coerente e se incorporam num modelo conceptual aceite consensualmente, independentemente de lhe ser ou não atribuída a categoria de um novo paradigma. De facto, aquilo a que chamamos descoberta científica não tem necessariamente valor por si só nem se completa no momento em que se realiza, mas apenas quando se integra num contexto mais amplo em que intervêm factores culturais, sociais e psicológicos. É à luz desta perspectiva e tendo presentes estas reservas que o fenómeno das descobertas simultâneas deve ser encarado.

O estudo da História e da Filosofia das Ciências conheceu a partir do Século XX um grande impulso devido sobretudo à contribuição dos físicos e dos matemáticos. A física quântica, a teoria da relatividade e as geometrias não-euclidianas, tinham produzido um profundo abalo nos fundamentos da física newtoniana e tornara-se por isso necessário fazer uma reflexão filosófica acerca da essência, dos fundamentos e da metodologia da Ciência. Não admira pois que grande parte do debate epistemológico se desenrolasse entre físicos e matemáticos e que a literatura dedicada ao assunto fosse dominada pela física, pela química e pela Astronomia. Basta citar os nomes de Duhem, Poincaré, Carnap, Popper e Kuhn para perceber que foi realmente assim.

As ciências biológicas, em especial aquelas que se relacionam de perto com a medicina, têm tido uma participação mais modesta em todo este debate. Em 1968, Thomas Kuhn considerava que as únicas áreas da biologia razoavelmente estudadas eram, além do darwinismo, a anatomia e a fisiologia dos Séculos XVI e XVII [6], mas apontava claras insuficiências e fragilidades mesmo nalguns dos textos mais consistentes. Nos livros gerais sobre História das Ciências os nomes que aparecem ligados à medicina são invariavelmente os de Vesalio, Harvey e Mendel. Curiosamente uma figura como Claude Bernard, que além de uma obra pioneira em fisiologia fez algumas incursões importantes no campo da reflexão filosófica, raras vezes é citada.

Esta situação revela agora sinais de estar a modificar-se, devido à actividade de numerosos grupos académicos que se dedicam à investigação na área da História da Medicina. Mas isso não tem impedido que o debate epistemológico acerca da biologia continue com visibilidade reduzida quando se compara com o debate à volta da física. Talvez seja por isso que os textos sobre “descobertas simultâneas” não se refiram habitualmente à biologia, área em que é possível identificar casos verdadeiramente exemplares.

Fontes:

[1] Thomas Kuhn. A Estrutura das Revoluções Científicas, p.79

[2] Thomas Kuhn. A Conservação da Energia como Exemplo de Descoberta Simultânea. In A Tensão Essencial, p. 101

[3] Ibidem. p.108

[4] Frederic Holmes. The Revolution in Chemistry and Physics. Isis, 91 (2000), 735-753

[5] Thomas Kuhn. A Estrutura das Revoluções Científicas, p.81

[6] Thomas Kuhn. A História da Ciência. In A Tensão Essencial, p.151

Artigo Original:

Livro «Descobertas simultâneas e a medicina do Século XX»

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