Investigação Científica: Revisão de Pares, Replicação e Fraude

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Fraude nas análises dos resultados cientificos

Os cientistas, médicos, advogados e outros profissionais resistem por norma às tentativas de regulação da sua conduta por parte de entidades exteriores. Orgulham-se dos seus sistemas de auto-regulação. Estes são de três tipos:

1. As candidaturas a empregos e bolsas são submetidas a análise dos pares, que confere aos investigadores e respectivos projectos a aprovação de profissionais credenciados.

2. As comunicações enviadas para publicação nos órgãos de imprensa científica têm de passar pelo crivo crítico de árbitros especializados, normalmente anónimos.

3. Todos os resultados publicados estão potencialmente sujeitos a replicação por entidade independente.

Os processos de análise dos pares e de arbitragem funcionam de facto como importantes controlos de qualidade, e não há dúvida de que são geralmente eficazes, mas têm um factor de distorção intrínseco. Tendem a favorecer os cientistas e as instituições de prestígio. E a replicação independente, na realidade, raramente acontece. E isto por quatro razões, pelo menos. A primeira é que é muito difícil, na prática, repetir exactamente uma dada experiência, quanto mais não seja porque as receitas estão incompletas ou omitem os truques práticos. A segunda é que poucos investigadores têm tempo ou recursos para repetir o trabalho dos outros, em especial quando os resultados provêm de um laboratório bem financiado e envolvem equipamento dispendioso. A terceira é que, normalmente, não existe motivação para reproduzir trabalho alheio. E a quarta é que, mesmo que se façam replicações exactas, é difícil conseguir a sua publicação porque as revistas científicas privilegiam a investigação original. A replicação de resultados de outras pessoas só costuma ser tentada em condições especiais, por exemplo, quando os resultados são de invulgar importância ou quando outros indícios fazem suspeitar de fraude.

Em tais circunstâncias, a batota pode facilmente passar despercebida, bastando que os resultados estejam de acordo com as expectativas dominantes.

Processo de revisão científica pelos pares
Processo de revisão científica pelos pares

A aceitação de resultados fraudulentos é o outro lado dessa moeda bem conhecida que é a resistência às ideias novas. Os resultados fraudulentos têm fortes probabilidades de serem aceites pela Ciência desde que sejam apresentados de maneira plausível, estejam de acordo com os preconceitos e expectativas vigentes e venham de um cientista adequadamente qualificado e filiado numa instituição de elite. É por falta de todas estas qualidades que as novas ideias em Ciência tendem a deparar-se-lhes resistências. Só quem parte do princípio de que a lógica e a objectividade são os únicos guardiões do templo da Ciência poderá de algum modo admirar-se com a generalização e a frequência com que a fraude é bem-sucedida… Para os ideólogos da Ciência, a fraude é assunto tabu, um escândalo cuja importância tem de ser ritualmente negada em todas as ocasiões. Para quem vê na Ciência um esforço persistente do homem no sentido de encontrar o sentido do mundo, a fraude é uma simples prova de que a Ciência voa com as asas da retórica, tanto como com as da razão.

Uma das poucas áreas da Ciência que estão sujeitas a uma forma limitada de supervisão externa é a dos ensaios de segurança de novos alimentos, Medicamentos e pesticidas. Nos Estados Unidos, milhares e milhares de ensaios são anualmente submetidos pela indústria à aprovação da Food and Drug Administration (FDA – Administração de Alimentos e Medicamentos) ou à Environmental Protection Agency (EPA – Agência de Protecção do Ambiente). Estes departamentos oficiais têm poderes para enviar inspectores aos laboratórios que fornecem os dados. Estão constantemente a descobrir resultados falsificados.

Os casos de fraude descobertos nos vastos recônditos da Ciência que ninguém fiscaliza raramente são trazidos à luz do dia pelos mecanismos oficiais da análise dos pares, da arbitragem de comunicações e da hipotética replicação independente. E mesmo quando falham as tentativas de replicar uma experiência, a explicação normalmente adiantada para o facto é que não foram reproduzidas, com o necessário rigor, as condições da experiência. Existe uma grande barreira psicológica e cultural que obsta a que se acuse de fraude um colega – a não ser que se tenha fortes razões pessoais para pôr em causa a sua integridade. A maioria dos casos de fraude conhecidos vem à superfície porque são denunciados por colegas ou rivais directos, muitas vezes em resultado de algum agravo pessoal. Quando tal acontece, a reacção típica dos chefes de laboratório e outras autoridades responsáveis é tentar abafar o caso. Mas quando as acusações de fraude não se desvanecem e as alegações persistem, quando as provas se tornam avassaladoras, então faz-se um inquérito oficial. Identifica-se um culpado, que é despedido sem apelo nem agravo.

FDA
Food and Drug Administration (FDA – Administração de Alimentos e Medicamentos)

Os cientistas profissionais, de um modo geral, negam que estes incidentes lancem a dúvida sobre a Ciência institucional no seu todo; consideram-nos, antes, aberrações isoladas, praticadas por indivíduos que temporariamente se deixaram descontrolar pela pressão, ou que não passam de psicopatas, raros mas inevitáveis. A sua expulsão purifica a Ciência. São bodes expiatórios, no sentido bíblico da expressão. No Dia da Expiação, o sumo sacerdote confessou os pecados do povo com as mãos pousadas num bode. Acto contínuo, o bode expiatório, carregado de culpas, foi expulso da comunidade e escorraçado para o deserto, levando consigo todas as iniquidades.

Os cientistas sentem geralmente a necessidade de manter uma imagem idealizada de si próprios, não só por razões pessoais e profissionais mas também porque é essa a imagem que os outros projectam sobre eles. Há muita gente que deposita mais fé na Ciência do que na Religião, e tem necessidade de acreditar na sua autoridade, superior e objectiva. E, na medida em que a Ciência toma o lugar da Religião enquanto fonte de verdade e de valores, os cientistas transformam-se numa espécie de sacerdotes. Logo, e à semelhança do que acontece com todos os sacerdotes, gera-se da parte do público a expectativa de que eles estejam à altura dos ideais que pregam: no caso dos cientistas, objectividade, racionalidade e a busca da verdade. “Há cientistas que, nas suas intervenções públicas, dão todo o ar de que estão a representar esse papel, que parece investi-los como cardeais da razão que propõem a salvação a um público irracional”. Acresce que nada os motiva a admitir que haja algo de fundamentalmente errado nas crenças e instituições que legitimam a sua posição. Se é relativamente fácil admitir que os indivíduos podem errar, e purificar a comunidade expulsando-os, é muito mais difícil questionar os credos e idealizações em que assenta todo o sistema.

Os filósofos da Ciência tendem a mistificar o método experimental, o mesmo fazendo os próprios cientistas. No seu bem fundamentado estudo sobre a fraude e a mistificação na CiênciaWilliam Broad e Nicholas Wade trataram de indagar o que acontece de facto nos laboratórios, em vez do que seria de esperar que acontecesse. Chegaram à conclusão de que a realidade é muito mais pragmática e empírica, recorrendo muito ao método de tentativa e erro:

fraude ciênticica 1
Ensaios de vários métodos para obtenção do melhor resultado

Os concorrentes em presença num determinado campo da Ciência ensaiam muitos métodos diferentes mas muito rapidamente optam pela receita que melhor resulta. Sendo a Ciência um processo social, o investigador procura simultaneamente avançar e conquistar aceitação para as suas receitas e interpretações do campo em questão. […] A Ciência é um processo complexo em que o observador consegue ver praticamente tudo o que pretende desde que estreite suficientemente o seu campo de visão […] Os cientistas são indivíduos e como tal têm estilos diferentes e diferentes formas de procurar a verdade. O estilo idêntico de todos os escritos científicos, que aparentemente resulta de um método científico universal, é uma falsa unanimidade imposta pelas convenções em vigor quanto à informação científica. Se aos cientistas fosse permitido exprimirem-se naturalmente na descrição das suas experiências e teorias, talvez o mito de um método científico único e universal se desvanecesse de repente.

Estou de acordo com esta análise. É um tipo de investigação científica mais democrático e pluralista, liberto das convenções impostas à investigação institucional pelo seu papel de Igreja Oficial da ordem mundial secular. Mas a Ciência sempre há-de depender das experiências, tome ela a forma que tomar.

Fonte: LIVRO: «7 Experiências que podem mudar o Mundo» de Rupert Sheldrake

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