Fátima: uma multinacional religiosa

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Fátima
Fátima

Proscrito da Igreja Católica, mas não afastado de uma prática e de uma leitura muito própria dos evangelhos, o padre Mário de Oliveira, conhecido como padre Mário da Lixa, lançou o livro «Fátima S.A.», assente numa releitura dos documentos oficiais compilados ao longo dos anos pelas estruturas do santuário com o objectivo de comprovar a veracidade e a autenticidade histórica das chamadas aparições da Cova da Iria.

O título é desde logo um enunciado e uma forma de dizer ao que vem Mário de Oliveira. Segundo revela ao Expresso Diário, procurou meter-se dentro dos documentos “e tentar recriar as circunstâncias históricas em que foram produzidos para perceber, sobretudo nos pormenores, as contradições existentes entre eles e a realidade”.

A partir de um ponto de vista negacionista no que às chamadas aparições de Fátima diz respeito, e ancorado numa visão crítica de toda a envolvente Política, social e religiosa criada à volta do fenómeno, o livro tem uma primeira parte que toma como base para a sua construção os dois primeiros volumes da “Documentação Crítica de Fátima”, um projecto desenvolvido pelo santuário de Fátima destinado, segundo a página oficial daquela estrutura, “à edição científica dos documentos relacionados com os acontecimentos da Cova da Iria, Fátima, em 1917, com a evolução do santuário naquele lugar e com a expansão da mensagem, em Portugal e no estrangeiro”.

Este projecto começou a concretizar-se em Agosto de 1992 com a edição do primeiro volume, dedicado aos interrogatórios aos videntes (19171919). O segundo volume, dedicado ao processo canónico diocesano (19221930), foi editado em 1999.

Padre Mário de Oliveira
Entrevista a Padre Mário Pais de Oliveira, Director do Jornal Fraternizar em São Pedro da Cova. Foto de José Mota

A segunda parte tem no ponto de partida as “Memórias da Irmã Lúcia” (volumes I e II), escritas, numa primeira fase, em 1935 e, depois, já no final do milénio, próximo da morte da vidente. As três crianças colocadas no centro dos acontecimentos da Cova da Iria, sobre os quais existem infindáveis teorias com inumeráveis defensores, seja para proclamarem o seu carácter sobrenatural, seja para os situarem no domínio da impostura alimentada por militantes católicos, tiveram sortes diferentes.

Francisco (8 anos) e Jacinta (7 anos) adoeceram um ano após os acontecimentos, ao que se diz debilitados pelos jejuns que a “senhora” teria recomendado, mas sobretudo vitimados pela epidemia de pneumónica que grassava pela Europa. Lúcia (10 anos), a mais velha, foi levada em Maio de 1921 para um internato religioso e com rigorosas instruções do bispo de Leiria para não falar, fosse a quem fosse, das chamadas aparições. Desde então e até à sua morte, em 2005, com 97 anos, ficará reclusa em conventos e casas religiosas.

Após a análise de toda a documentação disponível, o padre diz ter-se confrontado “com uma enorme frustração”, ao ponto de se interrogar como tudo quanto ali é narrado “pôde ser tomado a sério”. Oliveira interroga-se como é que Fátima, “a julgar por tudo o que hoje nos é dado observar, acabou por se transformar no suprassumo da fé católica, com tudo o que é alto clero de Portugal e do Vaticano envolvido e comprometido”. O espectáculo anual das peregrinações leva-o a assegurar que “o fenómeno de Fátima não tem nada de dignidade humana”.

No prefácio do livro, o autor defende que a resposta a uma pergunta como aquela “só pode ser uma de duas, ou as duas ao mesmo tempo: ou a fé da Igreja Católica anda pelos antípodas da mesma fé de Jesus, ou esta Igreja Católica que inventou Fátima e, progressivamente, a impôs ao país e ao mundo, tem inconfessáveis interesses que não quer perder”.

Daí à noção de Fátima como sociedade anónima vai um pequeno passo, ao ponto de Mário de Oliveira defender que a Igreja se encarregou de “criar e desenvolver uma empresa multinacional religiosa, com fama de milagreira que, cem anos depois, já tem tudo de “Fátima S.A.”. É uma Fátima, acrescenta, “que garante à sua hierarquia uma visibilidade, um palco de influência sobre a consciência das populações menos ilustradas”. Acresce que o santuário, sustenta o padre, se transformou numa fonte de acumulação de dinheiro “acima de toda a suspeita, totalmente isento de impostos e quase sem custos”.

Capa do Livro: «Fatima, S.A.»
Capa do Livro: «Fatima, S.A.»

Além de assegurar que a beatificação dos dois irmãos pastorinhos “foi contra uma tradição de 2 mil anos da Igreja Católica” de não beatificar crianças, Mário de Oliveira chama a atenção para o papel desempenhado neste processo pelo então cardeal Ratzinger, depois Papa Bento XVI, enquanto presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, no sentido de “reconhecer a verdade teológica de tudo quanto se passou em Fátima“.

Neste seu novo livro, o padre Mário da Lixa pensa dar alguns contributos para uma melhor compreensão do que esteve em causa, pelo menos na primeira fase de publicitação das aparições. Percebe-se, diz, “que, de início, o que move a necessidade de impor o fenómeno passa por uma luta para restaurar a diocese de Leiria, então integrada no patriarcado de Lisboa“. Na verdade a diocese acaba por ser restaurada em Janeiro de 1918 e em Maio de 1920 é nomeado bispo José Alves Correia da Silva, que consagra a diocese à Virgem Maria dez dias após a tomada de posse, e acaba por ter um papel determinante na consolidação do fenómeno de Fátima na sua primeira fase

Depois, prossegue o padre, há a questão das aparições programadas, “um teatrinho que curiosamente não aconteceu em Agosto, porque os pastorinhos tinham sido levados de férias” para casa do administrador do concelho de Ourém. Não desprezível para compreender todo o contexto político e social da época, diz Mário Oliveira, é a necessidade sentida pelas elites católicas de “fazer frente à República e à secularizaçào que começava a singrar na população”.

Muito crítico para com a cobertura mediática todos os anos dada às cerimónias de Fátima, Mário de Oliveira defende que a “aparentemente ingénua promoção televisiva perfaz um pecado e um crime sem perdão”.

Com a publicação de «Fátima Nunca Mais», neste momento com onze edições, Mário de Oliveira criou muitas inimizades, embora nunca até hoje nenhuma voz autorizada da Igreja Católica alguma vez se tenha pronunciado sobre o conteúdo do livro de um homem ordenado padre no dia 5 de Agosto de 1962. Como ele próprio faz questão de sublinhar, não obstante todas as incidências e problemas que têm afectado a sua presença no seio da Igreja, nunca desertou do exercício do ministério presbiterial.

Fonte: Expresso

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