As Fontes da História Atlante (do Século IV a.C. em diante)

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Localizações da Atlântida
Localizações da Atlântida

Diodoro Sículo, um historiador de Agira, Sicília, contemporâneo de Júlio César e de Augusto, outorgou-nos quase tantas informações sobre a Atlântida e a sua História como o próprio Platão. A sua «Historical Library» é uma História geral do mundo, tal como era conhecido na altura, desde as épocas mais remotas até à conquista da Gália por César. Embora Diodoro fosse essencialmente um compilador, era também um grande viajante, e percorreu grande parte da Europa e da Ásia com o objectivo de recolher material para a sua obra. Ao falar da geografia da região do Atlântico Oriental, no quarto capítulo do seu terceiro livro, Diodoro afirma que as amazonas de África eram muito mais antigas e famosas do que as de Pontus, na Ásia Menor. Mas elas não eram a única raça de mulheres guerreiras que habitavam o solo africano, sendo as górgonas quase tão conhecidas como elas, pela sua coragem e valor. As amazonas habitavam numa ilha chamada Hespéria (as Hespérides, ou ilha de Hésper, a estrela da noite, filho de Atlas, onde cresciam as famosas maçãs ou laranjas de ouro, guardadas por um dragão) situada a Oeste, perto do pântano chamado Tritónidas, assim chamado por ser atravessado pelo rio Tritão. Este pântano faz fronteira com a Etiópia, sob o Monte Atlas, que se estende ele próprio até ao oceano (segui Diodoro na sua utilização do tempo verbal presente).

A ilha de Hespéria, diz ele, é muito grande, e nela abundam todo o tipo de árvores de fruta, manadas de gado e rebanhos de ovelhas e cabras. Mas os seus habitantes desconhecem o milho. As amazonas, inspiradas por ambição guerreira, subjugaram todas as cidades desta ilha, à excepção de uma chamada Mena, supostamente sagrada, e agora habitada pelos etíopes chamados ictiófagos, ou comedores de peixe. É frequentemente queimada por erupções de fogo, que irrompem da terra, e rica em pedras preciosas.

Depois de subjugarem muitas das tribos africanas e núbias vizinhas, as amazonas fundaram uma grande cidade no pântano de Tritão à qual, pelo seu formato, chamaram Quersoneso, ou a Cidade da Península. Mas, não satisfeitas com as suas inúmeras conquistas, invadiram o Monte Atlas, um território rico, cheio de grandes cidades, onde os deuses tiveram origem, na zona fronteiriça ao oceano. Conduzido por Merina, a sua rainha, um exército de trinta mil soldados de infantaria e dois mil cavalos, vestido com peles de serpente e armado com espadas, azagaias e arcos, com os quais eram especialmente hábeis, precipitou-se sobre o país dos atlantes e expulsou os que residiam na cidade de Cercenes. Perseguiram-nos tão de perto que entraram na cidade nos seus calcanhares, e tomaram-na de assalto, matando os homens e fazendo cativas as mulheres e crianças. As restantes comunidades atlantes, acometidas pelo pânico, submeteram-se incondicionalmente, após o que Medina se aliou com elas, construiu outra cidade no lugar de Cercenes, dando-lhe o seu próprio nome, e povoou-a com os cativos e outros atlantes.

Amazonas
Amazonas

Os atlantes, que parecem ter sentido um forte temor da rainha-guerreira, cobriram-na de presentes e honrarias, e este tratamento parece ter-lhe conquistado o coração. Pouco depois, quando os atlantes foram atacados pelas górgonas, Merina, a pedido deles, invadiu o país das górgonas, chacinando grandes números e fazendo três mil prisioneiros. Os restantes fugiram para as florestas, às quais Merina tentou deitar fogo. Mas, frustrada nesta sua amável intenção, acabou por regressar ao seu país.

Tanto as amazonas como as górgonas foram posteriormente conquistadas por Perseu e Hércules. “Consta também que, num terramoto, a zona perto do oceano abriu a boca e engoliu todo o pântano de Tritão.” No entanto, durante o seu reinado, Merina alargou as suas conquistas à Ásia Menor e às Ilhas Mediterrânicas, e formou uma aliança com Horus, rei do Egipto.

Diodoro prossegue então com um relato mais pormenorizado dos atlantes e das afirmações fabulosas que eles faziam relativamente à sua descendência dos deuses, que, diz ele, não diferem muito das fábulas dos gregos.

Os atlantes, diz-nos ele, habitavam um território muito rico, fronteiriço ao oceano, e eram conhecidos pela sua hospitalidade com os estrangeiros. Gabavam-se de os deuses terem nascido entre eles e diziam que o mais famoso poeta entre os gregos confirma esta afirmação quando coloca na boca de Hera as palavras:

“Daqui vejo os mais remotos limites da terra distante Onde Tétis e o velho Oceano se vangloriam de ser Os Pais dos Deuses [1].

Afirmam [2] que Urano foi o seu primeiro rei e que ele civilizou o povo, levando-os a residir em cidades e a cultivar o solo. Tinha sob o seu domínio a maior parte do mundo, especialmente para Norte e para Oeste. Entusiasta do estudo da Astrologia, profetizou muitos eventos futuros e instituiu o calendário solar e o mês lunar como medidas de tempo. O povo, repleto de admiração pelas suas capacidades, prestou-lhe homenagens divinas depois da sua morte e deu aos céus estrelados o seu nome.

Deus Urano
Deus Urano

Urano teve quarenta e cinco filhos, de várias mulheres, e dezoito de Titeia ou Terra, que passaram a ser conhecidos como Titãs, ou povo Terreno. As suas filhas mais conhecidas são Basiieia, e Reia ou Pandora. Basileia, a mais velha, era tão solícita no seu cuidado com os irmãos que ficou conhecida como Grande Mãe, e, após a morte de Urano, foi eleita rainha por sufrágio geral entre o povo. Desposou o seu irmão Hipérion e com ele gerou Hélios e Selene, mais tarde deuses do sol e da lua, respectivamente. Mas os restantes irmãos, temendo que Hipérion pudesse usurpar o trono, chacinaram-no e afogaram o seu filho Hélios no rio Eridano ou , em Itália. Selene, sua irmã, que amava apaixonadamente o irmão, atirou-se do telhado e morreu.

Basileia, ao saber da morte dos filhos, enlouqueceu e passava o tempo a vaguear para cima e para baixo, de cabelo desgrenhado e enfeitada com adornos, tocando desvairadamente o pandeiro e o címbalo. Quando o povo conseguiu dominá-la, rebentou subitamente uma terrível tempestade de chuva, trovões e relâmpagos e ela nunca mais foi vista. Estabeleceram-se rituais divinos em sua honra, e em honra dos seus filhos, que incluíam tocar os instrumentos que ela tocara na sua loucura, e a edificação de altares onde eram feitas ofertas sacrificiais.

Após a morte de Hipérion, os filhos de Urano dividiram o reino entre si. Os mais conhecidos entre eles eram Atlas e Saturno. Atlas assumiu o controlo no território junto ao oceano, chamando ao povo que o habitava atlantes, e às suas grandes montanhas Atlas, o seu próprio nome. Tal como o seu pai, Urano, Atlas era um sábio astrólogo e foi o primeiro a descobrir o conhecimento da esfera, de onde nasceu a lenda de que carregava o mundo sobre os ombros. O mais conhecido dos seus filhos foi Hésper, que, enquanto observava os movimentos das estrelas sobre o Monte Atlas, desapareceu numa tempestade. O povo, lamentando a sua sorte, deu à estrela da manhã o seu nome.

Atlas tinha também sete filhas, às quais chamavam, em homenagem ao pai, atlântidas. Os seus nomes eram Maia, Electra, Taígeta, Astérope, Alcíone e Celeno [3]. A sua descendência constituiu os primeiros antepassados de várias nações bárbaras, bem como gregas. As atlântidas tornaram-se a constelação das Plêiades e eram adoradas como deusas. Também as ninfas eram vulgarmente conhecidas como atlântidas, “porque ninfas é um termo geral aplicado neste país a todas as mulheres”.

Deus Saturno
Deus Saturno

Saturno, irmão de Atlas, era profano e ambicioso. Do casamento com a sua irmã Reia nasceu Júpiter, que não deve ser confundido com Júpiter, o irmão de Ceio, ou o céu. Este Júpiter sucedeu ao seu pai Saturno como rei dos atlantes, ou destronou-o. Saturno, segundo consta, declarou Guerra ao filho com a ajuda dos Titãs, mas Júpiter venceu-o numa batalha e conquistou todo o mundo. “Este é um relato completo de todos os deuses mencionados e registados pelos atlantes.”

No segundo capítulo do seu «Quarto Livro», Diodoro regressa ao tema de Atlas e da origem das Hespérides. No país chamado Hespéria, diz ele, viveram dois irmãos famosos, Hésper e Atlas. Possuíam um rebanho de ovelhas incomparavelmente belas, de cor vermelha e dourada, razão pela qual os poetas se referem a elas como “maçãs de ouro” [4].

Hespéria, a filha de Hésper, casou com o seu irmão Atlas e tiveram sete filhas, as Atlântidas, também conhecidas como Hespérides, em homenagem à mãe. Busiris, rei do Egipto, apaixonou-se pelas donzelas e enviou piratas para as capturar. Mas Hércules interceptou os piratas e salvou as jovens, que devolveu a Atlas, o seu pai. Em sinal de gratidão, Atlas ensinou-lhe a arte da Astrologia, instruindo-o no uso da esfera. Desta circunstância, os gregos inventaram a fábula de que, por uma estação, Hércules aliviara Atlas do fardo de carregar o mundo sobre os ombros.

Noutro ponto, no quarto capítulo do «Quinto Livro», Diodoro confirma em certa medida a afirmação de Platão relativamente à submersão de parte da península grega. Afirma que a costa helénica, em frente da ilha de Rodes e Cos, ficou tão danificada pela inundação de Deucalião, ocorrida na Sétima Geração, que sofreu “calamidades terríveis e severas, pois os frutos da terra ficaram podres e estragados durante muito tempo, a fome instalou-se e, através da poluição do ar, a doença e a pestilência esvazia­ram e devastaram as cidades.”

Diodoro Sículo
Diodoro Sículo

Diodoro, no seu «Quinto Livro», afirma também que uma certa ilha atlântica foi descoberta por alguns navegadores fenícios que, enquanto navegavam ao longo da costa ocidental de África, foram empurrados para o oceano por súbitos ventos violentos. Eles trouxeram um tal relato sobre a beleza e os recursos dessa ilha que os tirenos, tendo obtido o conhecimento da arte de navegar, planearam uma expedição para colonizar esta nova terra, mas foram impedidos pela oposição dos cartagineses. Diodoro não menciona o nome da ilha; e difere de Platão quando se refere a ela como ainda existente. Pausânias relata que um cariano, Eufemo, falara-lhe de uma viagem durante a qual fora arrastado pela força dos ventos para o mar alto, “onde os homens já não navegam; e onde foi dar a ilhas desertas, habitadas por homens selvagens com caudas, a quem os marinheiros que tinham visitado anteriormente estas ilhas chamavam sátiros, e às ilhas Satíridas”, que alguns tomavam por macacos. Talvez toda a narrativa pretendesse apenas enganar os viajantes sérios.

Estrabão (n. 54 a. C.) menciona no seu «Sétimo Livro», sob a autoridade de Teopompo e Apolodoro, a mesma lenda, na qual a ilha se chama Merópide e os seus habitantes merópides. Observa também, no «Segundo Livro», que Poseidónio (fls. 151-135 a. C.) diz que, uma vez que se sabia que a elevação dessa terra se alterara, o relato de Platão não devia ser encarado como ficção e que o continente da Atlântida podia muito bem ter existido e desaparecido. A passagem diz o seguinte: “Poseidónio relata correctamente na sua obra o facto de a terra por vezes se erguer e passar por processos de abaixamento, e por alterações em resultado de terramotos e outras actividades semelhantes, as quais, também eu, enumero acima. E em relação a este ponto ele faz bem em citar a afirmação de Platão, pois é possível que a História sobre a ilha da Atlântida não seja ficção. Relativamente à Atlântida, Platão conta que Sólon, depois de ter interrogado os sacerdotes egípcios, conta que a Atlântida existiu em tempos mas desapareceu — uma ilha que não era mais pequena do que um continente; e Poseidónio pensa que é melhor colocar a questão dessa forma do que dizer da Atlântida: ‘O seu inventor provocou o seu desaparecimento, tal como o Poeta fez com a muralha dos Aqueus.’»

Pompónio Mela (n. 80 d. C.) afirma expressamente no seu «Primeiro Livro» a existência de uma ilha como a Atlântida, mas coloca-a na zona temperada a Sul.

Teopompo de Chios, um historiador grego do Século IV a. C., do qual não sobreviveu nenhum trabalho, excepto o incluído em «Varia Historia», de Aelian, compilador do Século III d. C., alude a uma descrição da área atlântica feita pelo sátiro Sileno, companheiro de Dionísio, ao Rei Midas da Frigia, que o apanhou embriagado e recuperou muita sabedoria antiga dos seus lábios. “Sileno” diz Teopompo, “falou a Midas de certas ilhas chamadas Europa, ÁsiaLíbia, que o mar oceano rodeia e envolve. Para além deste mundo há um continente ou massa de terra seca que, em grandeza, é infinito e incomensurável, e que alimenta e suporta, graças aos seus pastos e prados verdes, muitas bestas grandes e poderosas. Os homens que habitam este clima têm mais do dobro da estatura humana e, contudo, a duração da sua vida não é igual à nossa.”

O relato do grande continente de Satúrnia, do diálogo atribuído a Plutarco, “Sobre o Rosto Que Aparece na Orbe da Lua” e impresso na sua «Moral», diz-nos que “uma ilha, Ogígia, jaz nos braços do oceano, a cerca de cinco dias de vela a Oeste da Grã-Bretanha, e em frente dela há três outras, mais ou menos à mesma distância umas das outras, e também da maior, todas voltadas para Noroeste, onde o Sol se põe no Verão. Numa destas ilhas, os bárbaros inventaram que Saturno está aprisionado por Zeus.” O mar adjacente era conhecido como mar saturnino, e o continente pelo qual o grande mar era circularmente rodeado distava de Ogígia cerca de cinco mil estádios, mas não tanto das outras ilhas. Uma baía deste continente, na latitude do mar Cáspio, era habitada pelos gregos, que, uma vez de trinta em trinta anos, enviavam um certo número dos seus para prestar assistência ao Saturno aprisionado. Um destes visitou a grande ilha, como chamavam à Europa, e através dele o narrador soube muitas coisas estranhas, especialmente em relação ao estado da alma depois da morte.

Proclo relata que Marcelo, um escritor de quem não se conhece mais nada, numa obra intitulada «The Ethiopic History» fala de dez ilhas situadas no Oceano Atlântico, perto da Europa. Ele diz que os habitantes destas ilhas preservaram a memória de uma ilha atlântica muito maior, a Atlântida, que durante muito tempo exercera o seu domínio sobre as outras ilhas desse oceano. Das ilhas, ele diz que sete eram consagradas a Prosérpina, e das restantes três uma era consagrada a Plutão, outra a Amon e a terceira, com mil estádios de comprimento, a Poseidon.

Arnóbio, um defensor cristão de Sica, na África, que viveu no Século IV d. C., diz no seu «Primeiro Livro»:  “[…] vasculhem-se os registos da História, escritos em várias línguas, e vereis que todos os países foram frequentemente devastados e despojados dos seus habitantes. Todo o tipo de colheitas foi consumido e devorado por gafanhotos e ratos: percorram os vossos anais e perceberão, com estas pragas, a frequência com que as épocas anteriores foram visitadas por elas, e com que frequência os povos eram arrastados para a miséria da pobreza. Cidades abaladas por poderosos terramotos caminham para a destruição: o quê?! Não testemunharam os dias de antanho cidades cujas populações foram engolidas por imensas fendas no solo? Ou estariam eles livres destes desastres?”

“Quando foi a raça humana destruída por uma inundação?” foi antes do nosso tempo? Quando foi o mundo incendiado e reduzido a carvão e cinzas? Não foi antes do nosso tempo? Quando foram as grandes cidades engolidas pelas ondas do mar? Não foi antes do nosso tempo? Quando foram travadas Guerras com bestas selvagens, e batalhas com leões? Não foi antes do nosso tempo? Quando se abateu sobre comunidades inteiras a ruína trazida por serpentes venenosas? Não foi antes do nosso tempo? Pois, uma vez que pretendem atribuir-nos a causa das Guerras frequentes, da devastação de cidades, das irrupções de alemães e citas, permitam-me, com a vossa licença, que vos diga — na vossa pressa de nos caluniar (aos cristãos) não compreendem a verdadeira natureza daquilo que alegam.

“Terá sido por obra nossa que, há dez mil anos, um grande número de homens avançou da ilha a que se chama Atlântida de Neptuno, como Platão nos conta, para arruinar e eliminar completamente as nossas incontáveis tribos?”

Deve bastar agora um resumo dos restantes dados clássicos sobre a Atlântida. Plínio, o Velho, no «Segundo Livro» da sua «Natural History», lança dúvidas sobre a história, mas Filo, o Judeu, um platónico, na sua obra «Indestructibility of the World», adopta-a na sua totalidade, entregando-se à palavra do seu grande mestre. Longino acreditava que o episódio atlante no «Timeu» era simplesmente um ornamento literário, sem qualquer veracidade histórica ou significado filosófico. Siriano, mestre de Proclo, considerava a narrativa historicamente exacta, e um símbolo dos filósofos dogmáticos. Amélio viu nela a oposição das estrelas fixas aos planetas, Numénio a oposição entre o bem e o mal. Orígenes, o padre cristão, considerava o relato uma alegoria da Guerra constante entre os génios do bem e do mal, e Porfírio viu nela o conflito entre a carne e o espírito, lamblico era da opinião de que as suas circunstâncias se revestiam de uma semelhança admirável com a Guerra entre gregos e persas, a contenda de deuses e titãs, e o combate entre Osíris e Tifão ou Set, ou a luta contínua entre o caos e a ordem, a dualidade contra a unidade.

Platão
Platão

As ideias da escola alexandrina relativamente ao relato de Platão encontram-se no «Décimo Oitavo Livro» de Amiano Marcelino, que menciona a destruição da Atlântida como facto histórico. O geógrafo bizantino, Cosmas Indicopleustes, na sua «Christian Topography», incluiu a Atlântida no seu sistema cosmográfico, mas alterou as circunstâncias de modo a concordarem com a autoridade das escrituras. Ele acreditava que a terra era achatada e que um vasto continente cercava o oceano. Neste continente o homem tivera a sua origem, e, para defender a sua existência, ele invoca a autoridade do «Timeu». O relato de Platão, julgava ele, era um legado da tradição moisaica original, mas a Atlântida devia ser procurada a Leste, e era a terra das dez gerações de Noé.

Em tempos mais recentes, Serrano, em 1578, declarou ter descoberto nos escritos moisaicos o sésamo da pedra que bloqueava a entrada do labirinto atlante. A pista foi avidamente aproveitada por Huet, Bochart e Vossius, um trio muito impaciente, que através de engenhosas interpretações do Pentateuco confundiu os seus crédulos contemporâneos, levando-os a aceitar a ilha de Platão como teatro da história patriarcal.

Mas, por mais disseminada que estivesse a concordância com as suas conclusões, elas pareciam a Mathew Olivier, um sério advogado de Marselha, deixar passar a essência do principal argumento de Serrano. Desenvolvendo a teoria do seu mestre, Olivier colocou a Atlântida na própria Palestina, assumindo, com bastante lógica, que se os patriarcas bíblicos eram de facto os cidadãos da Atlântida, e era um facto histórico conhecido que tinham habitado na Terra Santa, essa região teria indubitavelmente de ser a Atlântida! Cerca de um quarto de século mais tarde, em 1754, Euménio, um erudito sueco, desenvolvendo as ideias de Olivier, levou a teoria à sua conclusão natural e explicou toda a mitologia atlante através da história judaica. Fora, contudo, precedido por outro escandinavo de ainda mais portentosa erudição, pois em 1692, Olaus Rudbeck publicara a sua espantosa obra, «Atlantica», que, num estranho espírito de patriotismo, afirmava que era a Eda Nórdica, e não os escritos moisaicos, que continham a verdadeira interpretação do segredo atlante. Para ele, a Suécia era a Atlântida, e Upsala a capital da vaga Utopia de Platão. Em quatro volumes infolio ele dedicou-se a provar que a península escandinava era, não só o centro a partir do qual tinha radiado toda a civilização europeia mas também a fonte de uma mitologia mundial original, da qual a Eda era um fragmento sobrevivente.

A teoria da localização da Atlântida a Norte é resistente. Na verdade, ainda persiste, pois M. Gattefossé de Lyons afirmou-a triunfantemente na sua obra «La Verité sur UAtlantide», publicada em 1923. Mas teve um valoroso percursor em Bailly, contem­porâneo de Voltaire, que, tal como Rudbeck, procurou descobrir a região atlante no Norte gelado. Pouco tempo antes, Buffon popularizara a ideia de que o “fogo central” que mantinha a temperatura da Terra tinha arrefecido com o decorrer do tempo, e Bailly, apoderando-se dessa ideia, afirmou ousadamente que o Norte, agora gelado, gozara em tempos de condições climatéricas quase tropicais. Os seus habitantes durante esse período tórrido, afirmava, eram os atlantes de Platão, que, com o gradual arrefecimento da região, tinham fugido para a Ásia, levando com eles o seu conhecimento científico e as suas crenças religiosas, que transmitiram e espalharam entre as nações. Em «History of Ancient Astronomy e Letters on Attantis», ele recorreu a todos os seus conhecimentos para provar que Spitzbergen fora em tempos um território fértil e densamente povoado e era, de facto, a verdadeira Atlântida platónica. Estranhamente, a sua tese assumiu a qualidade de lenda e, em algumas partes da Europa do Norte, ainda vinga a tradição de que existiram de facto vales férteis algures nas imediações do Pólo Norte. De facto, essa crença recebeu recentemente um novo sopro de vida com as afirmações de recentes exploradores do Extremo Norte, no lado americano, que forneceram relatos entusiásticos de vales profundos na área polar, perfumados por flores e repletos de enxames de borboletas.

Deus Atlas
Deus Atlas

Bailly era um meticuloso discípulo de Evémero de Tessália, e acreditava que todos os mitos tinham uma base histórica. Para ele, Atlas fora o rei de Spitzbergen-Atlântida, em tempos tropical, um governante humano e um astrónomo distinto, inventor da esfera. Os seus atlantes do Norte tinham acabado por se instalar, após uma prolongada migração, nas planícies da Tartária. Mas o monte de disparates eruditos de Bailly era demasiado grosseiro até mesmo para a crédula Paris que estava, na época, à beira de uma catástrofe humana ainda mais estupenda do que a destruição da Atlântida. Nas suas Lettre Americaine, o Comte de Corli, ao mesmo tempo que punha de lado os absurdos de Bailly, lançou sobre um público pronto para a aceitar a teoria de que a Atlântida era, nem mais nem menos, o próprio continente americano. Até o imperturbável Voltaire, que mostrara apenas com relutância uma dúvida bem-humorada em relação à inexistência de um grande continente atlântico, foi apanhado de surpresa pela ousadia da hipótese árctica que Bailly, disposto a tudo, lhe dedicara tão irreflectidamente.

Mas um esforço ainda mais erudito e determinado para localizar a Atlântida noutro local, a saber, na Ásia, foi aquele efectuado anonimamente em 1779 por Delisle de Sales, membro do Instituto, na sua «History of the Atlanteans». De Sales tentou provar, com a ajuda da geologia, que a verdadeira Atlântida se situara num vasto mar antigo que ocupara anteriormente o lugar da Grécia e de grande parte da península itálica. O globo, argumentava ele, estivera em épocas primitivas quase completamente coberto de água mas, com o decurso do tempo, esta evaporara-se, deixando, contudo, um mar imenso que unia o Cáspio ao golfo Pérsico e o Oceano Índico ao Mediterrâneo. No meio desta antiga expansão oceânica erguia-se a cordilheira caucasiana, que De Sales identifica com a antiga Atlântida. Daí tinham migrado os seus civilizados habitantes, uma das vagas para a cordilheira do Atlas, na altura também um subcontinente insular, e outra para a Ásia Central. De Sales afastava a hipótese da Atlântida de Platão, identificando-a com a Ogígia de Homero, a ilha mágica da feiticeira Calipso, situada “entre a Itália e Cartago”, e esta, declarava, fora destruída por um terramoto, restando apenas a ilha da Sardenha como testemunha dessa destruição. Chamava aos atlantes “os benfeitores da humanidade” e descrevia o seu sistema como “a chave para a História da antiguidade”.

Um pouco mais tarde, Bartoli, no seu «Essai sur l’explication», propôs uma hipótese aparentemente mais modesta, mas, na realidade, igualmente bizarra. Sólon, disse, inventara a fábula da Atlântida, fazendo dela objecto de um poema alegórico e político, no qual os atlantes representavam a facção ateniense dos paralienos. Platão, apoderando-se desta ficção, adoptara-a para eventos posteriores, entre eles a guerra do Peloponeso. Os atlantes de Platão que tinham cercado Atenas eram, segundo Bartoli, os persas, e toda a história apenas uma representação mítica da sua luta com Hélade e da sua derrota final.

Igualmente curiosas são as tentativas de identificar a Atlântida perdida com a América. Começaram a aparecer tratados sobre o tema pouco depois da descoberta da América, e parecem ter sido feitos esforços extraordinários para ligar o nome da ilha de Platão ao novo continente. Em 1533, Gomara, na sua «Historia de las Indias», identifica sem hesitar a América com a Atlântida e, oito anos mais tarde, Guillaume de Postel chama a atenção para a semelhança do nome nativo do México, Aztlan, com o da Atlântida, que propõe seja atribuído ao Novo Mundo. Bacon, na sua «Nova Atlantis», identifica a América com a ilha de Platão, embora certamente num espírito de fantasia mais apropriado a Sir J. M. Barrie. Seja como for, coloca-a no Pacífico. Mas não parece improvável que Shakespeare tivesse pelo menos alguma memória da Atlântida no fundo da mente quando localizou a cena da sua Tempestade numa fantástica ilha atlântica.

Mas os geógrafos franceses, Nicholas e Guillaume Sauson, não eram de forma alguma intencionalmente fantásticos nos seus métodos. Em 1689 publicaram um atlas que representava as divisões geográficas primitivas da América, a sua partição entre as dez famílias reais derivadas de Poseidon, pai de Atlas, e assinalando as partes do Velho Mundo, que, segundo a história de Platão, elas tinham conseguido colonizar. Já em 1762, Robert de Vaugoudy produziu um atlas semelhante, confirmando as teorias dos Sausons, despertando o riso irreverente e inextinguível de Voltaire. Até mesmo Stallbaum, o sério crítico do «Timeu do Crítias» de Platão, apoiou a identificação da América com a Atlântida, e considerou provável que os antigos egípcios tivessem conheci­mento do continente ocidental. Harles, na sua «Bibliotheca Grseca», inclina-se contra a teoria americana, e Humboldt, no seu «Examen Critique», considerou-a uma mera fábula, embora acreditasse que Sólon tinha de facto trazido a história do Egipto. Entre outros escritores mais modernos, Buffon, Ginguené, Mentelle e Raynal não eram hostis relativamente à teoria geral da existência da Atlântida, e Athanasius KircherBecman, Genebrard e Fortia d’Urban abraçaram-na completamente. Baudelot, Tournefort, d’Engel, Cadit, De la Borde e Bori de Saint-Vincent defendiam-na entusiasticamente.

Muitos destes autores mais recentes concordam em pensar que a Atlântida existiu, tal como Platão afirma, mas divergem relativamente às circunstâncias dos eventos ocorridos e às maravilhas de que ele falava. Alguns procuraram explicar simbolicamente os nomes das divindades ligadas à História, ou enquanto elementos cosmogónicos personificados. Os dez reis da Atlântida eram, para alguns, representativos das dez grandes épocas antediluvianas, e discutia-se se a história da Atlântida seria na realidade apenas uma narrativa alegórica da História primitiva da humanidade. Kircher, Ginguené, Mentelle e outros acreditavam que as Ilhas Atlânticas eram os vestígios restantes do continente afundado, e Buffon argumentava que a Irlanda, os Açores e a América tinham em tempos feito parte da grande ilha de Platão. De la Borde incluía mesmo as Molucas, a Nova Zelândia e outras massas insulares distantes na massa terrestre original da Atlântida, e Engel e o Comte de Corli insistiam que as fronteiras atlantes tinham tocado a Europa e a África de um lado e a América do outro. Segundo eles, o homem passara do Velho Mundo para o Novo Mundo através de uma ponte de terra atlante, cuja submersão destruíra as antigas comunicações entre os dois continentes.

NOTAS:

[1] No original: The utmost bounds of earth far off I see / Where Thetys and old Ocean boast to be / The parents of the gods. (N. da T.)

[2] Nesta passagem Diodoro parece falar do Estado Atlante como se ainda existisse no seu tempo. Pode, é claro, estar a referir-se ao povo de Atlas, em África, como algumas partes da sua narrativa parecem indicar; mas é indubitável que o seu relato tem, relativamente à sua aplicação mais antiga, referências à Atlântida, o continente meridional, e não aos sobreviventes da sua população existentes em África.

[3] São-nos dados aqui apenas seis nomes.

[4] Melon, em grego, significa tanto ovelha como maçã.

 Fonte: LIVRO: «A História da Atlântida» de Lewis Spence

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