Qual é a idade da Terra?

Então, que idade tem a Terra? Parece uma pergunta irrelevante para o debate acerca da Evolução. Parece irrelevante porque a idade agora universalmente aceite para a Terra é tão vasta: 4.6 milhões de anos – permitindo que a vida tenha evoluído muitas vezes. Mas vamos usar as nossas imaginações por um momento e fazer duas perguntas heréticas: 1) Será que 4.6 milhões de anos daria tempo suficiente para a evolução segundo as linhas darwinistas? e ainda mais ultrajante: 2) e se a Terra não for tão antiga quanto pensamos?

Como começou a vida na Terra?

Faça esta experiência mental com a primeira pergunta. O que é que precisa acontecer para que a vida comece nos oceanos primitivos e se desenvolva por mutação e selecção natural para até aos reinos vegetal e animal que vemos hoje? Primeiro, os químicos básicos dos mares precisam formar aminoácidos, provavelmente sob a influência da luz ultravioleta e de descargas eléctricas na forma de relâmpagos. Este processo foi demonstrado por Harold Urey e Stanley Miller na Universidade de Chicago em 1953. [1] Na segunda etapa, os primeiros aminoácidos do oceano primitivo devem combinar-se para formar a matéria-prima da vida: as moléculas de proteína. São essas moléculas gigantes e complexas que, em última análise, constituem todas a vida vegetal e animal, mas o mecanismo pelo qual poderão ter-se formado espontaneamente não é conhecido nem foi demonstrado no laboratório.

A visão darwinista é a de que, embora a formação de moléculas de proteínas sem qualquer precursor seja altamente improvável, poderá ter ocorrido, com tempo suficiente – centenas de milhões de anos. A terceira etapa será a variação explosiva e crescimento de todas as formas de vida com base em proteínas, das bactérias a Beethoven, novamente, exigindo centenas de milhões de anos. Dados os passos um e dois, não é impossível de se imaginar, e de um ponto de vista darwinista, talvez fosse surpreendente se não acontecesse.

São as etapas dois e três que estão dependentes da idade da Terra. Embora a etapa dois, a formação espontânea de moléculas de proteína, seja uma processo desconhecido, é teoricamente possível avaliar quanto tempo levaria para acontecer por acaso. Com base no tamanho e complexidade de tais moléculas, Murray Eden, professor de Engenharia Eléctrica no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), calculou que uma síntese muito simples poderia acontecer ao acaso, uma vez em cerca de 1.000 milhões de anos. [2] Em face disso, mesmo estas probabilidades podem ser facilmente acomodadas nos 4.600 milhões de anos que a maioria dos geólogos atribui à história da Terra. Mas olhemos um pouco mais próximo.

A vida não está a surgir espontaneamente nos mares, nos dias actuais. Tal é explicado pelos darwinistas pelo facto de que as condições se alteraram desde que a vida evoluiu dos oceanos arcaicos. [3] Então, durante quanto tempo as condições foram adequadas para o evento espontâneo? O tempo disponível seria limitado por dois eventos: o resfriamento da Terra e o estabelecimento dos oceanos seriam o marco anterior. Diz-se que ocorreram há cerca de 3.800 milhões de anos atrás (a data em que, pelo que se sabe, as rochas sedimentares mais antigas foram formadas). [4]

O marco mais tardio seria a data do primeiro fóssil de um ser vivo. O local onde este marco deve ser colocado é um assunto controverso. A visão conservadora afirma que o primeiro sinal de vida é representado por organismos chamados Eobacterium isolatum e Archaeospheroides barbertonensis, que estão datados como há cerca de 3.200 milhões de anos atrás. [5] Isso dá-nos uma janela de oportunidade para a ocorrência espontânea do primeiro microrganismo de cerca de 600 milhões de anos. Na verdade, a lacuna é menor do que o sugerido por esta soma bruta porque levaria um tempo considerável aos novos oceanos a adquirir a mistura certa de produtos químicos básicos para fazer a ‘sopa’ primitiva, e na outra extremidade, a bactéria deve ter sido precedida por algo mais simples: moléculas não replicantes das quais nenhum traço sobreviveu.

Mas sejamos generosos e permitamos que sejam 600 milhões de anos. O que são alguns milhões de anos quando temos tantos à nossa disposição? Este intervalo deve acomodar não apenas a combinação espontânea de materiais básicos em aminoácidos, mas também a combinação de aminoácidos em moléculas de proteínas, o aparecimento de pelo menos uma molécula auto-replicante e a subsequente evolução desta molécula em corpos celulares auto-replicantes para o nível bacteriano. E lembre-se de que dessas quatro etapas, apenas uma (a segunda) foi estimada que aconteça ao acaso uma vez em 1.000 milhões anos.

Então, dos 4.600 milhões de anos de tempo geológico que os darwinistas concederam a si próprios, apenas uma pequena fracção – menos de 600 milhões – está realmente disponível para acomodar os processos que acreditam ter acontecido. Os processos evolutivos darwinistas já estão ficar sem tempo.

As últimas evidências fósseis indicam que a lacuna é muito mais estreita e que os darwinistas estão completamente sem tempo. Em 1979, os geólogos Hans Pflug e H. Jaeschke-Boyer estudaram as rochas sedimentares mais antigas de que há conhecimento da Groenlândia, que datam de há 3.800 milhões de anos atrás, e encontraram fósseis semelhantes a estruturas semelhantes a células, às quais chamaram Isosphaera. [6]

Os fósseis são de um organismo primitivo semelhante a uma levedura. Em 1980, C. Walters, A. Shimoyama e C. Ponnamperuma examinaram uma possível actividade fotossintética da Isosphaera e anunciaram: “Possuímos agora o que acreditamos serem fortes evidências da vida na Terra há 3.800 milhões de anos.” [7]

[caption id="attachment_34595" align="alignleft" width="300"]Prof. Dr. Manfred Schidlowski Prof. Dr. Manfred Schidlowski[/caption]

Essas descobertas foram apoiadas em 1988 por Manfred Schidlowski do Instituto Max Planck, na Alemanha, que publicou um artigo na revista Nature interpretando a proporção de isótopos de carbono leve em rochas sedimentares com 3.800 milhões provenientes de Isua, na Groenlândia, como constituindo indícios do início da vida orgânica. [8]

A interpretação de Schidlowski foi confirmada em 1996 por Gustaf Arrhenius do Scripps Institute em San Diego, que examinou rochas de Isua com 3.800 milhões de anos de idade e relatou uma mistura de isótopos de carbono que apenas algo vivo poderia produzir. [9]

O significado dessas descobertas é inequivocamente claro. Se as primeiras águas superficiais foram formadas há 3.800 milhões de anos e os primeiros micro-organismos surgiram também há 3.800 milhões de anos atrás, então não houve tempo disponível para o aparecimento espontâneo da vida. A vida, ao que parece, não esperou pelo acaso cego do rolar dos dados, tendo sim irrompido logo no primeiro instante disponível, deixando os darwinistas sem tempo algum para os seus processos probabilísticos.

Estritamente falando, o Darwinismo não está preocupado com a abiogénese – o aparecimento de vida a partir de matéria inanimada – mas apenas com a subsequente evolução desses organismos primitivos em espécies mais desenvolvidas. Na prática, no entanto, o Darwinismo está intimamente relacionado com as teorias de abiogénese. O próprio Darwin especulou em correspondência privada sobre a possibilidade da vida ter surgido espontaneamente nalgum lago primitivo aquecido. Mais significativamente, todas as teorias plausíveis de abiogénese que foram sugeridas até agora, empregaram o mecanismo darwinista de variação e selecção natural – teorias como a de Graham Cairns-Smith da Universidade de Glasgow, que sugeriu que a vida surgiu usando argilas como catalisadores. [10]

Qual a probabilidade de uma proteína se formar espontaneamente?

A descoberta de que tais processos hipotéticos tiveram disponível um tempo insignificante para gerar as primeiras moléculas de proteínas e os primeiros organismos auto-replicantes, através do acaso, é significativo tendo em conta o trabalho do cientista Hubert Yockey, que calculou a probabilidade de uma proteína que contenha 100 aminoácidos se formar espontaneamente: 10⁶⁵ (na melhor das hipóteses). [11]

Em 1989, Robert Sauer e os seus colaboradores biólogos do MIT experimentaram “reconstruir” proteínas ao retirar aminoácidos e substitui-los por outros aminoácidos. Descobriram que algumas partes de uma cadeia de proteína são tolerantes a substituições, mas outras são totalmente intolerantes a semelhantes “remendos”, revelando-se que as proteínas não são colecções arbitrárias de componentes químicos, mas combinações raras e às vezes únicas. Sauer e colaboradores confirmaram os cálculos de Yockey [11] de que a probabilidade de se formar uma proteína dobrada específica através de evolução não direccionada é de 1 em 10⁶⁵. O número de outras combinações que poderiam ocorrer aleatoriamente e resultar em sequências de proteínas que se iriam revelar inúteis ao nível de funções para organismos vivos, é praticamente infinito. [12][13]

Estes achados indicam que a magnitude da improbabilidade das proteínas e moléculas de ADN auto-replicantes formadas por acaso é tão grande, que se torna virtualmente impossível no tempo que agora sabemos que estaria disponível. A probabilidade calculada por Yockey [11] e confirmada pelas experiências de Sauer [12][13] – 1 chance em 10⁶⁵ – é um evento tão improvável que poderia ser comparado a ganhar a lotaria com uma única aposta com um dado conjunto de números, e a partir daí, continuar a ganhar na lotaria todas as semanas durante mil anos, com o mesmo conjunto de números – é possível, se se tiver a eternidade à disposição: mas impossível, na prática, se tudo o que tiver for um tempo insignificante.

Os darwinistas não ficam nem um pouco consternados com tais improbabilidades porque podem sempre cair na afirmação de que, por mais improvável que sejam os acidentes necessários para que as primeiras moléculas de proteína surjam, eles devem ter acontecido, ou então não estaríamos aqui.

Quais são as evidências de que a Terra tem a idade que se alega ter?

Vamos então considerar a segunda questão proposta no início deste artigo (a mais herética): que evidências temos para definir a idade da Terra em 4.8 milhões de anos e quais as bases para essas evidências?

A importância desta questão, conforme observado anteriormente, reside no facto de que uma Terra com uma idade imensa é indispensavelmente necessária para a teoria neodarwinista porque a mutação genética e a selecção natural são processos que são concebidos como um trabalho muito lento ao longo de centenas de milhões de anos. E se a Terra tivesse apenas alguns milhões de anos, então simplesmente não haveria tempo suficiente para a selecção natural funcionar. Quer gostemos ou não, seríamos compelidos a procurar uma nova explicação para a origem das espécies vivas.

Sobre esta questão fundamentalmente importante, o Museu de História Natural e todas as outras autoridades modernas estão de acordo. A Terra tem 4.600 milhões de anos. Além do mais, diferentes períodos da história da Terra têm sido caracterizados pela formação de diferentes tipos de rocha que contêm os restos fósseis de tipos distintos de criaturas. Estes diferentes períodos também foram datados para dar o que é geralmente referido como a coluna geológica da história da Terra.

Ao referir-se à coluna geológica, qualquer pessoa pode afirmar a idade de uma rocha ou fóssil que encontra. Por exemplo, os penhascos brancos da Inglaterra consistem em giz datado do final do período Cretáceo, que segundo a coluna, data de há 65 milhões de anos atrás.

As datas anexadas à coluna geológica foram alcançadas e refinadas ao longo do século passado, sensivelmente. A avaliação mais recente, e aquela citada nas publicações do Museu de História Natural, é a de Van Eysinga publicada em 1975. [14] Este esquema é muito semelhante ao usado na maioria dos museus e universidades desde as primeiras décadas deste século, e é baseado no trabalho pioneiro de Arthur Holmes [15][16] no Reino Unido e Henry Faul [17] nos Estados Unidos. Podem existir alguns pequenos desacordos entre os geólogos, mas existe uma grande concordância sobre a questão principal: que as primeiras rochas da coluna têm cerca de 4 mil milhões de anos, e sobre a maioria dos detalhes, como por exemplo, que o período Cretáceo começou há cerca de 140 milhões de anos e terminou há cerca de 65 milhões de anos.

[caption id="attachment_34592" align="aligncenter" width="850"]Esquema da Coluna Geológica da Terra Esquema da Coluna Geológica da Terra[/caption]

Os especialistas referem todos (inclusive os citados) que a datação moderna foi conseguida através de métodos radioactivos tratando-se, portanto, de um método de datação absoluto de uma ordem mais elevada de precisão do que todos os métodos anteriores – a maioria dos quais dependia de cálculos que envolviam um ou mais factores relativos. Esses métodos de datação relativos dependiam de factores como o aumento de salinidade dos oceanos o que a taxa de arrefecimento da Terra, sendo actualmente considerados falíveis. A datação radioactiva, porém, é usada para datar as rochas e consequentemente, os fósseis que nelas estão contidos tendo sido por isso recebido como um método absoluto.

O quebra-cabeça surge porque as técnicas de datação radioactiva podem ser aplicadas apenas a rochas vulcânicas que contêm algum mineral radioactivo – as rochas primárias da crosta terrestre. Mas a coluna geológica consiste em rochas sedimentares – rochas formadas a partir de sedimentos depositados nas camadas de mares antigos e compostas por partículas dessas rochas primárias. Então, claro que qualquer determinação de idade feita utilizando-se essas partículas será a mesma que a das rochas primárias das quais foram derivadas. Em algumas rochas sedimentares comuns, como giz ou calcário, não há sequer partículas das rochas primárias presentes e, portanto, a datação radioactiva não pode ser usada, de todo. Felizmente para os homens e mulheres ingleses, os penhascos brancos de Dover não são radioactivos.

No «The Age of The Earth» publicado pelo Institute of Geological Sciences, a posição é explicada de forma sucinta por John Thackray:

“Os únicos sedimentos que podem ser datados directamente são aqueles em que um mineral radioactivo é formado durante a diagénese [estabelecimento] dos mesmos, como os bastante incomuns xistos ilíticos e arenitos glauconíticos. Outros sedimentos fornecem apenas a idade da rocha-mãe da qual os grãos minerais que a constituem são derivados.” [18]

Então, como é que Holmes, Faul e Van Eysinga chegaram às datas anexadas aos sedimentos da coluna geológica? O Institute of Geological Sciences explica:

«Onde lavas ou cinzas vulcânicas são intercaladas com um sedimento de idade estratigráfica conhecida, então pode ser atribuída uma data a essa divisão estratigráfica. Onde uma rocha ígnea se intromete numa unidade sedimentar e é coberta por outra, então os sedimentos podem ser datados da rocha ígnea por inferência. A raridade de tais casos, juntamente com o erro analítico inerente à determinação da idade, significa que as idades isotópicas são improváveis de rivalizar ou substituir os fósseis como sendo o meio mais importante de correlação.» [18]

Acontece que o que foi datado por métodos de decaimento radioactivo não foram as rochas sedimentares ou os fósseis em si, mas a intrusão isolada entre  eles de rochas ígneas ou primárias, geralmente como material vulcânico. Este tem tem sido um processo raro e puramente fortuito e não confiável – tão raro e tão pouco confiável que o Institute of Geological Sciences acha improvável que possa substituir ou mesmo rivalizar com os fósseis como método de datação. Mas isto não é tudo: o método depende, por sua vez, de uma outra cadeia de inferências: a coluna geológica de Van Eysinga não é encontrada em lugar algum na natureza. Trata-se de uma estrutura imaginária que foi sintetizada a partir da comparação de um estrato de rocha de uma parte do mundo com um estrato de aparência semelhante noutra parte do mundo (abordaremos esta questão mais detalhadamente em artigos posteriores).

[caption id="attachment_34596" align="alignright" width="230"]Gavin de Beer Gavin de Beer[/caption]

Os próprios naturalistas ficam frequentemente confusos na compreensão desta questão. Gavin de Beer, por exemplo, director do Museu Britânico de História Natural de 1950 a 1960, escreveu na introdução ao Guia do Museu para a Evolução, publicado em 1970, que as rochas que formam a coluna geológica foram datada por métodos radioactivos. [19]

As estimativas de tempo com base na desintegração do material radioactivo permitem que sejam datados vários níveis de linhagens evolutivas e o tempo que duraram certas mudanças ocorreram, fornecendo assim evidências de taxas de evolução e tempos de duração de géneros e espécies.

Esta alegação, que é universalmente aceite e ensinada nas escolas e universidades em todo o mundo, é totalmente falsa. E quando os darwinistas falam da datação absoluta da coluna geológica e dos fósseis que ela contém por métodos radioactivos estão completamente enganados. Não há nada absoluto sobre isso. Na verdade, o método deveria ser referido como “datação comparativa”, porque data as rochas sedimentares apenas por inferência através da sua relação com as raras amostras de rochas ígneas ou primárias que são datadas. [19]

Há no entanto, outro método que é utilizado: conjectura. Esse método entrou na datação geológica num estágio muito inicial, quando Charles Lyell, o geólogo mais proeminente do Século XIX e mentor de Darwin em questões geológicas, tentou datar o final do período Cretáceo por referência a quanto tempo pensou que demoraria o marisco (cujos fósseis são encontrados em camadas posteriores) a terem evoluído para os seus descendente modernos. Lyell estimou que o Cretáceo terminou há 80 milhões de anos (não muito longe do número aceite de hoje de 65 milhões), mais ou menos 3 milhões.

De acordo com Harold Levin da Washington University, “Comparando a quantidade de evolução exibida pelos moluscos marinhos nas várias séries do Sistema Terciário com o valor ocorrido desde o início da Idade do Gelo do Pleistoceno, Lyell estimou que teriam transcorrido 80 milhões de anos desde o início do Cenozóico.” [20] Levin acrescenta que,” Ele chegou surpreendentemente perto da marca.” Na verdade, não é nada surpreendente quando se sabe que a data aceite de hoje não foi derivada de uma fonte absoluta e independente, mas de conjecturas, incluindo a de Lyell.

O tipo de suposição usada para complementar as datas relativas produzidas pela datação radioactiva inclui suposições sobre as taxas às quais os sedimentos são colocados no fundo de lagos, praias e leitos oceânicos; estimativas das taxas nas quais as florestas são transformadas em depósitos de carvão e estimativas das taxas nas quais certas famílias de criaturas de vida muito longa podem ter evoluído. Mas embora essas conjecturas estejam incorporadas na visão moderna da idade dos depósitos geológicos, raramente são divulgadas em livros geológicos ou biológicos e raramente são expostas ao debate.

Curiosamente também, nenhum geólogo parece ter verificado as datas da coluna geológica com uma calculadora electrónica numa base de bom senso. Vejamos a ilustração da coluna e olhemos para a espessura das rochas em cada período em comparação com a extensão de tempo atribuída a esses períodos. Observe que há uma consistência notável entre a idade atribuída e a espessura do depósito. Por exemplo, diz-se que o período do Cretáceo durou 65 milhões de anos e tem 15.000 metros de espessura – uma taxa média anual de deposição de 0,2 milímetros. Agora olhe para o período siluriano: este também produz uma taxa média de deposição de cerca de 0,2 milímetros por ano – assim como o Ordoviciano, o Devoniano, o Carbonífero e o resto. É apenas quando chegamos a tempos relativamente modernos na era Cenozóica em que as taxas de deposição variam muito, parecendo acelerar ligeiramente.

Este é um achado bastante notável. Espera-se uniformidade geológica para favorecer a uniformidade. Ao longo de condições climáticas amplamente mutáveis, oceanos que avançam e recuam, secas e idades do gelo, a taxa de sedimentação parece permanecer incrivelmente constante ao longo dos milhares de milhões de anos que se diz terem passado. A própria taxa de deposição presumida – espessura de um fio de cabelo humano por ano. Mas vale a pena fazer uma pausa para notar que uma taxa tão lenta seria totalmente incapaz de enterrar e fossilizar florestas inteiras, dinossauros ou mesmo um girino de tamanho médio.

Claro que, todos esses sedimentos, com os seus conteúdos de cápsula do tempo de criaturas fossilizadas do passado foram estabelecidos muito depois da Terra ter sido formado e muito depois do evento decisivo que ocorreu na cadeia de evolução: a origem da própria vida nos mares antigos. É na rocha da qual mais tarde derivaram os sedimentos – o alicerce primário da crosta terrestre – que estamos principalmente interessados se quisermos datar a Terra.

A questão chave permanece: Que idade tem a Terra? E para examinar a resposta que veio a ser aceite nesta questão, devemos olhar mais atentamente para os métodos radioactivos de datação.

Referências Bibliográficas:

[1] Miller, S. L. (1953). A production of amino acids under possible primitive Earth conditions. Science, 117(3046), 528-529. http://dx.doi.org/ 10.1126/science.117.3046.528. [2] Eden, M. (1967). Inadequacies of neo-Darwinian evolution as a scientific theory. Wistar Inst Symp Monogr. 5, 109-11. [3] Livro «Life Itself: Its Origin and Nature» de Francis Crick (1981) [4] Livro «Story of the Earth» de John Thackray (1980) [5] Barghoorn ES. (1971). The oldest fossils. Scientific American. 224: 30-42. PMID 4994765 [6] H. D. Pflug & H. Jaeschke-Boyer (1979). Combined structural and chemical analysis of 3,800-Myr-old microfossils. Nature, volume 280, páginas 483–486. [7] Clifford Walters, Akira Shimoyama, Cyril Ponnamperuma (1980). Organic Geochemistry of the ISUA Supracrustrals. Y. Wolman (ed.), Origin of Life, 473-479. [8] Manfred Schidlowski (1988). A 3,800-million-year isotopic record of life from carbon in sedimentary rocks. Nature, volume 333, páginas 313–318. [9] Mojzsis SJ, Arrhenius G, McKeegan KD, Harrison TM, Nutman AP, Friend CR. Evidence for life on Earth before 3,800 million years ago. Nature. 384: 55-9. PMID 8900275 DOI: 10.1038/384055a0 [10] A.G. Cairns-Smith (1982). Genetic Takeover and the Mineral Origins of Life. Cambridge University Press. 477 páginas. [11] Livro «Information Theory and Molecular Biology.» de Hubert P. Yockey (1992) [12] Bowie JU, Sauer RT. (1989). Identifying determinants of folding and activity for a protein of unknown structure. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America. 86: 2152-6. PMID 2928323 [13] Bowie JU, Reidhaar-Olson JF, Lim WA, Sauer RT. (1990). Deciphering the message in protein sequences: tolerance to amino acid substitutions. Science (New York, N.Y.). 247: 1306-10. PMID 2315699 [14] F. W. B. van. Eysinga 1975. The Geological Time Table, 3rd edition. Elsevier Scientific Publishing Co., Amsterdam. [15] Livro «The Age of the Earth» de Arthur Holmes (1913) [16] Livro «Principles of Physical Geology» de Arthur Holmes (1944) [17] Livro «Ages Of Rocks, Planets And Stars» de Henry Faul (1966) [18] Livro «The Age of the Earth» de John Thackray (1980) [19] Livro «A Handbook on Evolution» de Gavin de Beer (1970) [20] Livro «The Earth Through Time» de Harold L. Levin (1978) [21] Livro «Shattering the Myths of Darwinism» de Richard Milton
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Origem da Vida na Terra
Origem da Vida na Terra

Qual é a idade da Terra?

Então, que idade tem a Terra? Parece uma pergunta irrelevante para o debate acerca da Evolução. Parece irrelevante porque a idade agora universalmente aceite para a Terra é tão vasta: 4.6 milhões de anos – permitindo que a vida tenha evoluído muitas vezes. Mas vamos usar as nossas imaginações por um momento e fazer duas perguntas heréticas: 1) Será que 4.6 milhões de anos daria tempo suficiente para a evolução segundo as linhas darwinistas? e ainda mais ultrajante: 2) e se a Terra não for tão antiga quanto pensamos?

Como começou a vida na Terra?

Faça esta experiência mental com a primeira pergunta. O que é que precisa acontecer para que a vida comece nos oceanos primitivos e se desenvolva por mutação e selecção natural para até aos reinos vegetal e animal que vemos hoje? Primeiro, os químicos básicos dos mares precisam formar aminoácidos, provavelmente sob a influência da luz ultravioleta e de descargas eléctricas na forma de relâmpagos. Este processo foi demonstrado por Harold Urey e Stanley Miller na Universidade de Chicago em 1953. [1] Na segunda etapa, os primeiros aminoácidos do oceano primitivo devem combinar-se para formar a matéria-prima da vida: as moléculas de proteína. São essas moléculas gigantes e complexas que, em última análise, constituem todas a vida vegetal e animal, mas o mecanismo pelo qual poderão ter-se formado espontaneamente não é conhecido nem foi demonstrado no laboratório.

A visão darwinista é a de que, embora a formação de moléculas de proteínas sem qualquer precursor seja altamente improvável, poderá ter ocorrido, com tempo suficiente – centenas de milhões de anos. A terceira etapa será a variação explosiva e crescimento de todas as formas de vida com base em proteínas, das bactérias a Beethoven, novamente, exigindo centenas de milhões de anos. Dados os passos um e dois, não é impossível de se imaginar, e de um ponto de vista darwinista, talvez fosse surpreendente se não acontecesse.

São as etapas dois e três que estão dependentes da idade da Terra. Embora a etapa dois, a formação espontânea de moléculas de proteína, seja uma processo desconhecido, é teoricamente possível avaliar quanto tempo levaria para acontecer por acaso. Com base no tamanho e complexidade de tais moléculas, Murray Eden, professor de Engenharia Eléctrica no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), calculou que uma síntese muito simples poderia acontecer ao acaso, uma vez em cerca de 1.000 milhões de anos. [2] Em face disso, mesmo estas probabilidades podem ser facilmente acomodadas nos 4.600 milhões de anos que a maioria dos geólogos atribui à história da Terra. Mas olhemos um pouco mais próximo.

A vida não está a surgir espontaneamente nos mares, nos dias actuais. Tal é explicado pelos darwinistas pelo facto de que as condições se alteraram desde que a vida evoluiu dos oceanos arcaicos. [3] Então, durante quanto tempo as condições foram adequadas para o evento espontâneo? O tempo disponível seria limitado por dois eventos: o resfriamento da Terra e o estabelecimento dos oceanos seriam o marco anterior. Diz-se que ocorreram há cerca de 3.800 milhões de anos atrás (a data em que, pelo que se sabe, as rochas sedimentares mais antigas foram formadas). [4]

O marco mais tardio seria a data do primeiro fóssil de um ser vivo. O local onde este marco deve ser colocado é um assunto controverso. A visão conservadora afirma que o primeiro sinal de vida é representado por organismos chamados Eobacterium isolatum e Archaeospheroides barbertonensis, que estão datados como há cerca de 3.200 milhões de anos atrás. [5] Isso dá-nos uma janela de oportunidade para a ocorrência espontânea do primeiro microrganismo de cerca de 600 milhões de anos. Na verdade, a lacuna é menor do que o sugerido por esta soma bruta porque levaria um tempo considerável aos novos oceanos a adquirir a mistura certa de produtos químicos básicos para fazer a ‘sopa’ primitiva, e na outra extremidade, a bactéria deve ter sido precedida por algo mais simples: moléculas não replicantes das quais nenhum traço sobreviveu.

Mas sejamos generosos e permitamos que sejam 600 milhões de anos. O que são alguns milhões de anos quando temos tantos à nossa disposição? Este intervalo deve acomodar não apenas a combinação espontânea de materiais básicos em aminoácidos, mas também a combinação de aminoácidos em moléculas de proteínas, o aparecimento de pelo menos uma molécula auto-replicante e a subsequente evolução desta molécula em corpos celulares auto-replicantes para o nível bacteriano. E lembre-se de que dessas quatro etapas, apenas uma (a segunda) foi estimada que aconteça ao acaso uma vez em 1.000 milhões anos.

Então, dos 4.600 milhões de anos de tempo geológico que os darwinistas concederam a si próprios, apenas uma pequena fracção – menos de 600 milhões – está realmente disponível para acomodar os processos que acreditam ter acontecido. Os processos evolutivos darwinistas já estão ficar sem tempo.

As últimas evidências fósseis indicam que a lacuna é muito mais estreita e que os darwinistas estão completamente sem tempo. Em 1979, os geólogos Hans Pflug e H. Jaeschke-Boyer estudaram as rochas sedimentares mais antigas de que há conhecimento da Groenlândia, que datam de há 3.800 milhões de anos atrás, e encontraram fósseis semelhantes a estruturas semelhantes a células, às quais chamaram Isosphaera. [6]

Os fósseis são de um organismo primitivo semelhante a uma levedura. Em 1980, C. Walters, A. Shimoyama e C. Ponnamperuma examinaram uma possível actividade fotossintética da Isosphaera e anunciaram: “Possuímos agora o que acreditamos serem fortes evidências da vida na Terra há 3.800 milhões de anos.” [7]

Prof. Dr. Manfred Schidlowski
Prof. Dr. Manfred Schidlowski

Essas descobertas foram apoiadas em 1988 por Manfred Schidlowski do Instituto Max Planck, na Alemanha, que publicou um artigo na revista Nature interpretando a proporção de isótopos de carbono leve em rochas sedimentares com 3.800 milhões provenientes de Isua, na Groenlândia, como constituindo indícios do início da vida orgânica. [8]

A interpretação de Schidlowski foi confirmada em 1996 por Gustaf Arrhenius do Scripps Institute em San Diego, que examinou rochas de Isua com 3.800 milhões de anos de idade e relatou uma mistura de isótopos de carbono que apenas algo vivo poderia produzir. [9]

O significado dessas descobertas é inequivocamente claro. Se as primeiras águas superficiais foram formadas há 3.800 milhões de anos e os primeiros micro-organismos surgiram também há 3.800 milhões de anos atrás, então não houve tempo disponível para o aparecimento espontâneo da vida. A vida, ao que parece, não esperou pelo acaso cego do rolar dos dados, tendo sim irrompido logo no primeiro instante disponível, deixando os darwinistas sem tempo algum para os seus processos probabilísticos.

Estritamente falando, o Darwinismo não está preocupado com a abiogénese – o aparecimento de vida a partir de matéria inanimada – mas apenas com a subsequente evolução desses organismos primitivos em espécies mais desenvolvidas. Na prática, no entanto, o Darwinismo está intimamente relacionado com as teorias de abiogénese. O próprio Darwin especulou em correspondência privada sobre a possibilidade da vida ter surgido espontaneamente nalgum lago primitivo aquecido. Mais significativamente, todas as teorias plausíveis de abiogénese que foram sugeridas até agora, empregaram o mecanismo darwinista de variação e selecção natural – teorias como a de Graham Cairns-Smith da Universidade de Glasgow, que sugeriu que a vida surgiu usando argilas como catalisadores. [10]

Qual a probabilidade de uma proteína se formar espontaneamente?

A descoberta de que tais processos hipotéticos tiveram disponível um tempo insignificante para gerar as primeiras moléculas de proteínas e os primeiros organismos auto-replicantes, através do acaso, é significativo tendo em conta o trabalho do cientista Hubert Yockey, que calculou a probabilidade de uma proteína que contenha 100 aminoácidos se formar espontaneamente: 10⁶⁵ (na melhor das hipóteses). [11]

Em 1989, Robert Sauer e os seus colaboradores biólogos do MIT experimentaram “reconstruir” proteínas ao retirar aminoácidos e substitui-los por outros aminoácidos. Descobriram que algumas partes de uma cadeia de proteína são tolerantes a substituições, mas outras são totalmente intolerantes a semelhantes “remendos”, revelando-se que as proteínas não são colecções arbitrárias de componentes químicos, mas combinações raras e às vezes únicas. Sauer e colaboradores confirmaram os cálculos de Yockey [11] de que a probabilidade de se formar uma proteína dobrada específica através de evolução não direccionada é de 1 em 10⁶⁵. O número de outras combinações que poderiam ocorrer aleatoriamente e resultar em sequências de proteínas que se iriam revelar inúteis ao nível de funções para organismos vivos, é praticamente infinito. [12][13]

Estes achados indicam que a magnitude da improbabilidade das proteínas e moléculas de ADN auto-replicantes formadas por acaso é tão grande, que se torna virtualmente impossível no tempo que agora sabemos que estaria disponível. A probabilidade calculada por Yockey [11] e confirmada pelas experiências de Sauer [12][13] – 1 chance em 10⁶⁵ – é um evento tão improvável que poderia ser comparado a ganhar a lotaria com uma única aposta com um dado conjunto de números, e a partir daí, continuar a ganhar na lotaria todas as semanas durante mil anos, com o mesmo conjunto de números – é possível, se se tiver a eternidade à disposição: mas impossível, na prática, se tudo o que tiver for um tempo insignificante.

Os darwinistas não ficam nem um pouco consternados com tais improbabilidades porque podem sempre cair na afirmação de que, por mais improvável que sejam os acidentes necessários para que as primeiras moléculas de proteína surjam, eles devem ter acontecido, ou então não estaríamos aqui.

Quais são as evidências de que a Terra tem a idade que se alega ter?

Vamos então considerar a segunda questão proposta no início deste artigo (a mais herética): que evidências temos para definir a idade da Terra em 4.8 milhões de anos e quais as bases para essas evidências?

A importância desta questão, conforme observado anteriormente, reside no facto de que uma Terra com uma idade imensa é indispensavelmente necessária para a teoria neodarwinista porque a mutação genética e a selecção natural são processos que são concebidos como um trabalho muito lento ao longo de centenas de milhões de anos. E se a Terra tivesse apenas alguns milhões de anos, então simplesmente não haveria tempo suficiente para a selecção natural funcionar. Quer gostemos ou não, seríamos compelidos a procurar uma nova explicação para a origem das espécies vivas.

Sobre esta questão fundamentalmente importante, o Museu de História Natural e todas as outras autoridades modernas estão de acordo. A Terra tem 4.600 milhões de anos. Além do mais, diferentes períodos da história da Terra têm sido caracterizados pela formação de diferentes tipos de rocha que contêm os restos fósseis de tipos distintos de criaturas. Estes diferentes períodos também foram datados para dar o que é geralmente referido como a coluna geológica da história da Terra.

Ao referir-se à coluna geológica, qualquer pessoa pode afirmar a idade de uma rocha ou fóssil que encontra. Por exemplo, os penhascos brancos da Inglaterra consistem em giz datado do final do período Cretáceo, que segundo a coluna, data de há 65 milhões de anos atrás.

As datas anexadas à coluna geológica foram alcançadas e refinadas ao longo do século passado, sensivelmente. A avaliação mais recente, e aquela citada nas publicações do Museu de História Natural, é a de Van Eysinga publicada em 1975. [14] Este esquema é muito semelhante ao usado na maioria dos museus e universidades desde as primeiras décadas deste século, e é baseado no trabalho pioneiro de Arthur Holmes [15][16] no Reino Unido e Henry Faul [17] nos Estados Unidos. Podem existir alguns pequenos desacordos entre os geólogos, mas existe uma grande concordância sobre a questão principal: que as primeiras rochas da coluna têm cerca de 4 mil milhões de anos, e sobre a maioria dos detalhes, como por exemplo, que o período Cretáceo começou há cerca de 140 milhões de anos e terminou há cerca de 65 milhões de anos.

Esquema da Coluna Geológica da Terra
Esquema da Coluna Geológica da Terra

Os especialistas referem todos (inclusive os citados) que a datação moderna foi conseguida através de métodos radioactivos tratando-se, portanto, de um método de datação absoluto de uma ordem mais elevada de precisão do que todos os métodos anteriores – a maioria dos quais dependia de cálculos que envolviam um ou mais factores relativos. Esses métodos de datação relativos dependiam de factores como o aumento de salinidade dos oceanos o que a taxa de arrefecimento da Terra, sendo actualmente considerados falíveis. A datação radioactiva, porém, é usada para datar as rochas e consequentemente, os fósseis que nelas estão contidos tendo sido por isso recebido como um método absoluto.

O quebra-cabeça surge porque as técnicas de datação radioactiva podem ser aplicadas apenas a rochas vulcânicas que contêm algum mineral radioactivo – as rochas primárias da crosta terrestre. Mas a coluna geológica consiste em rochas sedimentares – rochas formadas a partir de sedimentos depositados nas camadas de mares antigos e compostas por partículas dessas rochas primárias. Então, claro que qualquer determinação de idade feita utilizando-se essas partículas será a mesma que a das rochas primárias das quais foram derivadas. Em algumas rochas sedimentares comuns, como giz ou calcário, não há sequer partículas das rochas primárias presentes e, portanto, a datação radioactiva não pode ser usada, de todo. Felizmente para os homens e mulheres ingleses, os penhascos brancos de Dover não são radioactivos.

No «The Age of The Earth» publicado pelo Institute of Geological Sciences, a posição é explicada de forma sucinta por John Thackray:

“Os únicos sedimentos que podem ser datados directamente são aqueles em que um mineral radioactivo é formado durante a diagénese [estabelecimento] dos mesmos, como os bastante incomuns xistos ilíticos e arenitos glauconíticos. Outros sedimentos fornecem apenas a idade da rocha-mãe da qual os grãos minerais que a constituem são derivados.” [18]

Então, como é que Holmes, Faul e Van Eysinga chegaram às datas anexadas aos sedimentos da coluna geológica? O Institute of Geological Sciences explica:

«Onde lavas ou cinzas vulcânicas são intercaladas com um sedimento de idade estratigráfica conhecida, então pode ser atribuída uma data a essa divisão estratigráfica. Onde uma rocha ígnea se intromete numa unidade sedimentar e é coberta por outra, então os sedimentos podem ser datados da rocha ígnea por inferência. A raridade de tais casos, juntamente com o erro analítico inerente à determinação da idade, significa que as idades isotópicas são improváveis de rivalizar ou substituir os fósseis como sendo o meio mais importante de correlação.» [18]

Acontece que o que foi datado por métodos de decaimento radioactivo não foram as rochas sedimentares ou os fósseis em si, mas a intrusão isolada entre  eles de rochas ígneas ou primárias, geralmente como material vulcânico. Este tem tem sido um processo raro e puramente fortuito e não confiável – tão raro e tão pouco confiável que o Institute of Geological Sciences acha improvável que possa substituir ou mesmo rivalizar com os fósseis como método de datação. Mas isto não é tudo: o método depende, por sua vez, de uma outra cadeia de inferências: a coluna geológica de Van Eysinga não é encontrada em lugar algum na natureza. Trata-se de uma estrutura imaginária que foi sintetizada a partir da comparação de um estrato de rocha de uma parte do mundo com um estrato de aparência semelhante noutra parte do mundo (abordaremos esta questão mais detalhadamente em artigos posteriores).

Gavin de Beer
Gavin de Beer

Os próprios naturalistas ficam frequentemente confusos na compreensão desta questão. Gavin de Beer, por exemplo, director do Museu Britânico de História Natural de 1950 a 1960, escreveu na introdução ao Guia do Museu para a Evolução, publicado em 1970, que as rochas que formam a coluna geológica foram datada por métodos radioactivos. [19]

As estimativas de tempo com base na desintegração do material radioactivo permitem que sejam datados vários níveis de linhagens evolutivas e o tempo que duraram certas mudanças ocorreram, fornecendo assim evidências de taxas de evolução e tempos de duração de géneros e espécies.

Esta alegação, que é universalmente aceite e ensinada nas escolas e universidades em todo o mundo, é totalmente falsa. E quando os darwinistas falam da datação absoluta da coluna geológica e dos fósseis que ela contém por métodos radioactivos estão completamente enganados. Não há nada absoluto sobre isso. Na verdade, o método deveria ser referido como “datação comparativa”, porque data as rochas sedimentares apenas por inferência através da sua relação com as raras amostras de rochas ígneas ou primárias que são datadas. [19]

Há no entanto, outro método que é utilizado: conjectura. Esse método entrou na datação geológica num estágio muito inicial, quando Charles Lyell, o geólogo mais proeminente do Século XIX e mentor de Darwin em questões geológicas, tentou datar o final do período Cretáceo por referência a quanto tempo pensou que demoraria o marisco (cujos fósseis são encontrados em camadas posteriores) a terem evoluído para os seus descendente modernos. Lyell estimou que o Cretáceo terminou há 80 milhões de anos (não muito longe do número aceite de hoje de 65 milhões), mais ou menos 3 milhões.

De acordo com Harold Levin da Washington University, “Comparando a quantidade de evolução exibida pelos moluscos marinhos nas várias séries do Sistema Terciário com o valor ocorrido desde o início da Idade do Gelo do Pleistoceno, Lyell estimou que teriam transcorrido 80 milhões de anos desde o início do Cenozóico.” [20] Levin acrescenta que,” Ele chegou surpreendentemente perto da marca.” Na verdade, não é nada surpreendente quando se sabe que a data aceite de hoje não foi derivada de uma fonte absoluta e independente, mas de conjecturas, incluindo a de Lyell.

O tipo de suposição usada para complementar as datas relativas produzidas pela datação radioactiva inclui suposições sobre as taxas às quais os sedimentos são colocados no fundo de lagos, praias e leitos oceânicos; estimativas das taxas nas quais as florestas são transformadas em depósitos de carvão e estimativas das taxas nas quais certas famílias de criaturas de vida muito longa podem ter evoluído. Mas embora essas conjecturas estejam incorporadas na visão moderna da idade dos depósitos geológicos, raramente são divulgadas em livros geológicos ou biológicos e raramente são expostas ao debate.

Curiosamente também, nenhum geólogo parece ter verificado as datas da coluna geológica com uma calculadora electrónica numa base de bom senso. Vejamos a ilustração da coluna e olhemos para a espessura das rochas em cada período em comparação com a extensão de tempo atribuída a esses períodos. Observe que há uma consistência notável entre a idade atribuída e a espessura do depósito. Por exemplo, diz-se que o período do Cretáceo durou 65 milhões de anos e tem 15.000 metros de espessura – uma taxa média anual de deposição de 0,2 milímetros. Agora olhe para o período siluriano: este também produz uma taxa média de deposição de cerca de 0,2 milímetros por ano – assim como o Ordoviciano, o Devoniano, o Carbonífero e o resto. É apenas quando chegamos a tempos relativamente modernos na era Cenozóica em que as taxas de deposição variam muito, parecendo acelerar ligeiramente.

Este é um achado bastante notável. Espera-se uniformidade geológica para favorecer a uniformidade. Ao longo de condições climáticas amplamente mutáveis, oceanos que avançam e recuam, secas e idades do gelo, a taxa de sedimentação parece permanecer incrivelmente constante ao longo dos milhares de milhões de anos que se diz terem passado. A própria taxa de deposição presumida – espessura de um fio de cabelo humano por ano. Mas vale a pena fazer uma pausa para notar que uma taxa tão lenta seria totalmente incapaz de enterrar e fossilizar florestas inteiras, dinossauros ou mesmo um girino de tamanho médio.

Claro que, todos esses sedimentos, com os seus conteúdos de cápsula do tempo de criaturas fossilizadas do passado foram estabelecidos muito depois da Terra ter sido formado e muito depois do evento decisivo que ocorreu na cadeia de evolução: a origem da própria vida nos mares antigos. É na rocha da qual mais tarde derivaram os sedimentos – o alicerce primário da crosta terrestre – que estamos principalmente interessados se quisermos datar a Terra.

A questão chave permanece: Que idade tem a Terra? E para examinar a resposta que veio a ser aceite nesta questão, devemos olhar mais atentamente para os métodos radioactivos de datação.

Referências Bibliográficas:

[1] Miller, S. L. (1953). A production of amino acids under possible primitive Earth conditions. Science, 117(3046), 528-529. http://dx.doi.org/ 10.1126/science.117.3046.528.

[2] Eden, M. (1967). Inadequacies of neo-Darwinian evolution as a scientific theory. Wistar Inst Symp Monogr. 5, 109-11.

[3] Livro «Life Itself: Its Origin and Nature» de Francis Crick (1981)

[4] Livro «Story of the Earth» de John Thackray (1980)

[5] Barghoorn ES. (1971). The oldest fossils. Scientific American. 224: 30-42. PMID 4994765

[6] H. D. Pflug & H. Jaeschke-Boyer (1979). Combined structural and chemical analysis of 3,800-Myr-old microfossils. Nature, volume 280, páginas 483–486.

[7] Clifford Walters, Akira Shimoyama, Cyril Ponnamperuma (1980). Organic Geochemistry of the ISUA Supracrustrals. Y. Wolman (ed.), Origin of Life, 473-479.

[8] Manfred Schidlowski (1988). A 3,800-million-year isotopic record of life from carbon in sedimentary rocks. Nature, volume 333, páginas 313–318.

[9] Mojzsis SJ, Arrhenius G, McKeegan KD, Harrison TM, Nutman AP, Friend CR. Evidence for life on Earth before 3,800 million years ago. Nature. 384: 55-9. PMID 8900275 DOI: 10.1038/384055a0

[10] A.G. Cairns-Smith (1982). Genetic Takeover and the Mineral Origins of Life. Cambridge University Press. 477 páginas.

[11] Livro «Information Theory and Molecular Biology.» de Hubert P. Yockey (1992)

[12] Bowie JU, Sauer RT. (1989). Identifying determinants of folding and activity for a protein of unknown structure. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America. 86: 2152-6. PMID 2928323

[13] Bowie JU, Reidhaar-Olson JF, Lim WA, Sauer RT. (1990). Deciphering the message in protein sequences: tolerance to amino acid substitutions. Science (New York, N.Y.). 247: 1306-10. PMID 2315699

[14] F. W. B. van. Eysinga 1975. The Geological Time Table, 3rd edition. Elsevier Scientific Publishing Co., Amsterdam.

[15] Livro «The Age of the Earth» de Arthur Holmes (1913)

[16] Livro «Principles of Physical Geology» de Arthur Holmes (1944)

[17] Livro «Ages Of Rocks, Planets And Stars» de Henry Faul (1966)

[18] Livro «The Age of the Earth» de John Thackray (1980)

[19] Livro «A Handbook on Evolution» de Gavin de Beer (1970)

[20] Livro «The Earth Through Time» de Harold L. Levin (1978)

[21] Livro «Shattering the Myths of Darwinism» de Richard Milton

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A justiça em Portugal é uma espécie de roleta russa onde tudo pode acontecer. E demasiado palavrosa e pouco eficaz. No caso Emaudio, que teria esse nome embora o projecto Emaudio nunca tivesse sido devidamente investigado, eu seria a principal vítima. Começaria a pensar, depois de tudo o que tinha acontecido, se não teriam existido motivos de “interesse nacional” para a minha condenação. Mas, para além da protecção das instituições, não conseguiria encontrar nenhuma razão que pudesse ter motivado parcialidade. Eventualmente, poderia ter havido ou incompetência ou mera simpatia por certas causas. Entretanto, ao ler o projecto de código penal, já indicativo da vontade popular que estava por detrás desta iniciativa [1], ficaria surpreendido com a rigidez de pensamento do investigador. Todo o raciocínio por detrás da sua acusação estava previsto no novo código e, curiosamente, no “velho”. O procurador-geral-adjunto, Rodrigues Maximiano conhecia o meu primeiro depoimento [2] e as conversas aparte que dele não constavam e que ele próprio provocara. Sabia que, depois de ameaças que estava a ser alvo, conforme declarado para os autos logo no início, regressaria — após súbita indisposição de Menano do Amaral a 24 de Maio — para rectificar pequenos pormenores do meu “depoimento antes do interrogatório do engenheiro Menano do Amaral” [3] alterando declarações prévias de que não haveria necessidade de qualquer dossier da Weildelplan, por não haver “qualquer assunto relevante com aquela empresa”, para a chamada “prestação de serviços”. Conhecia o que eu dissera e nunca negaria sobre o presidente da República, Almeida Santos e a Interfina [4]. Sabia do fax enviado a 30 de Agosto pela Weildleplan ao então governador [5], anterior ao chamado fax de Outubro que viria a ser publicado pelo O Independente. E, mau grado as notórias deficiências da investigação pré-acusatória, a lógica do acusador seria a de que a divulgação do referido fax de Outubro “inviabilizou definitivamente a adjudicação à “Weidleplan de tal projecto” [6]. E, a ser assim, porque é que os responsáveis por tal divulgação não seriam contemplados por Rodrigues Maximiano nas disposições do código penal sobre “actos preparatórios”, “tentativa” e “desistência” Imagine-se, só para efeitos de análise, que o procurador-geral-adjunto tinha tido razão em querer acusar os administradores da Emaudio e o governador de Macau sem pretender, eventualmente, beliscar o “establishment”. Teria existido, segundo o art.° 190 da acusação, um pacto de suborno que, segundo o art.° 201 dessa acusação, acabaria por não ser executado por causa da divulgação do fax. Nesse caso, essa não execução dever-se-ia a quem? O código penal recomenda a não acusação de quem tivesse contribuído para a não execução, uma vez que, “se vários agentes comparticiparem no facto, não é punível a tentativa daquele que voluntariamente impedir a consumação ou verificação do resultado…”. Parece evidente que Rodrigues Maximiano quereria a minha condenação em primeiro lugar! Como, aliás, viria a acontecer.

[caption id="attachment_34609" align="alignleft" width="225"]Rodrigues Maximiano Rodrigues Maximiano[/caption]

Segundo afirmariam os acusados e a inspecção geral de finanças em grande parte confirmaria, os cinquenta mil contos da Weidleplan seriam um donativo político igual a milhares de outros. Entrariam nos cofres da Emaudio e nenhum dos acusados dele beneficiaria directamente. Porquê então a minha acusação? E, nesse caso, porque não semelhante procedimento quando Stanley Ho, que tem vindo a ganhar todas as grandes adjudicações em Macau, admite ter financiado a fundação Mário Soares [7]?

Depois de, sem apelo nem agravo, ter sido “proscrito” do grupo parlamentar do PS, em 1987, sem direito sequer à reforma que Constâncio já tinha adquirido, enquanto funcionário público, aquele secretário-geral, sucessor de Mário Soares, tudo iria fazer para me afastar de vez do movimento socialista. Um pouco como Nicolae Ceaucescu teria feito na Roménia aos seus opositores dentro do partido único. Em Fevereiro de 1987, o ex-primeiro-ministro da Holanda e meu velho amigo, Joop den Uyl, então presidente da união dos PS da Comunidade Europeia escrever-me-ia para me comunicar que Constâncio pedira àquela organização o meu afastamento do cargo de vice-presidente para que tinha sido eleito em 3 de Fevereiro de 1983. Tinha sido eu que, em 1979, com a oposição de António Guterres, tinha conduzido o PS a membro de pleno direito daquela organização, no seu congresso de Bruxelas. Fora, depois, eleito por unanimidade em 1983 e reeleito, também por unanimidade, em 1985. O meu mandato terminaria na reunião que iria ter lugar em Lisboa, em Maio de 1987. A qualidade de vice-presidente só poderia ser invalidada ou por abandono da filiação partidária ou por não reeleição. Nunca por capricho ou desejo individual de Vítor Constâncio. Porquê então pedir a minha “demissão”, já que não poderia sequer ser substituído? Constâncio alegaria que eu não tinha sido eleito vice-presidente “por ser um militante de base” mas sim por ser, na altura da minha eleição, secretário internacional do partido. Ora, segundo ele, não teria sido “confirmado como vice-presidente da UPSCE [8] nem tendo solicitado essa confirmação, a minha continuidade no “bureau” só poderia ser entendida na qualidade de si próprio” [9]. Constâncio alegaria todo o tipo de mecanismos estatutários, que a união não possuía, de ligação entre os vice-presidentes e os representantes do partido no “bureau” mas furtar-se-ia a responder àquilo que era essencial: porquê pedir a minha demissão daquele cargo dois meses antes de ele terminar em Lisboa e, somente, após oito meses da sua própria eleição para secretário-geral? Se a minha presença naquele cargo, para onde fora eleito por unanimidade quatro anos antes, por proposta de outros partidos da IS, era tão incomodativa, porque não ter pedido logo a minha saída antes ou, então, porquê o comportamento à “Ceacescu” dois meses antes do fim do meu mandato? Para o congresso que teria lugar em Lisboa de 3 a 5 de Maio nem sequer seria convidado enquanto observador. Teria, contudo, a alegria de poder ser convidado para jantar no restaurante Sr. Vinho por todos os meus colegas secretários internacionais e vice-presidentes dos outros partidos europeus que participavam no congresso em Lisboa, onde o novo secretário-geral do PS, seria “eleito” o “Idi Amin português”. Seria a primeira vez que vira o “meu” partido ser motivo da humilhante galhofa dos meus colegas europeus.

[caption id="attachment_34610" align="alignright" width="300"]Mário Soares e Rui Mateus Mário Soares e Rui Mateus[/caption]

Em finais de 1986 iria substituir Mário Soares na presidência da fundação de Relações Internacionais, após a sua eleição como presidente da República. Fora ele próprio que insistira para que eu o substituísse dados os seus planos para aquele instituto. Era fácil de compreender a ligação da FRI e da CEIG à Emaudio numa perspectiva de inversão do curso no PS após a eleição de Constâncio e, também, numa perspectiva da sua reeleição em 1991. Para além dos seus projectos na Comunicação Social, e do poder que se pensava isso iria arrastar, seria a partir da Emaudio que as outras instituições seriam financiadas, conforme as suas necessidades. Assim, grande parte do pessoal e dos colaboradores da FRI passariam a trabalhar no quadro da Emaudio e, a CEIG, seria esvaziada segundo a modificação estatutária elaborada por Almeida Santos em 1988. De qualquer modo e na previsão da sua retirada da Política activa, em 1991, no caso de uma derrota eleitoral ou, no caso de uma reforma natural, em 1996, a FRI deveria continuar a desenvolver actividades político-culturais de prestígio, semelhantes às que tivera no passado, como a conferência conjunta com a Universidade Internacional Menedez Pelayo de Espanha em 1982 [10] ou com o Herald Tribune em 1983, que dado terem “secado” as fontes de financiamento originais, seriam financiadas pela Emaudio. Assim, seriam organizadas no quadro da FRI o International Leadership Fórum em colaboração com o Centro de Estudos Estratégicos Internacionais de Washington em 1988 e a Wheatland Conference on Literature que teria lugar no Palácio de Queluz no mesmo ano em colaboração com a Wheatland Foundation da proeminente família Getty dos EUA, que traria a Portugal alguns dos maiores nomes da literatura mundial [11]. Entre outras iniciativas totalmente financiadas pela FRI contar-se-iam igualmente as conferências inseridas no “Balanço do Século” que o próprio presidente da República também patrocinaria, com o seu nome, em 1987 e 1988 [12]. E, na sequência das conferências para o “Balanço do Século” estava também previsto o lançamento das “Conferências de Sintra”. Para esse efeito tinham tido lugar várias reuniões em Lisboa, na FRI e no Palácio de Belém, entre Mário Soares e o embrião do que se previa vir a ser o futuro secretariado desta importante iniciativa: Peter Courterier, ex-secretário de estado dos negócios estrangeiros da Alemanha no governo de Helmut Schmidt; Michael Ledeen, ex-conselheiro de Alexander Haig e do conselho de segurança nacional da Casa Branca; John Loiello, ex-responsável das relações internacionais do Partido Democrático dos EUA; Hans Janitscheck, ex-secretário-geral da Internacional Socialista; Paul Manafort, advogado especialista em relações públicas e com grande influência no Partido Republicano e, finalmente, eu próprio. Só esta iniciativa iria custar umas largas dezenas de milhar de contos para criar um secretariado permanente e organizar as primeiras conferências com participantes de grande relevo mundial. Mas uma vez estabelecida, à semelhança do que acontece com as “Conferências de Bilderberg e a “Trilateral, o prestígio internacional adquirido acabaria por a tornar auto-suficiente. A FRI financiara o MASP em 1986 e a CEIG, com mais de oitenta mil contos e era credor de milhares de contos do PS, segundo constava da contabilidade daquele partido.

[caption id="attachment_34611" align="alignleft" width="300"]Mário Soares Mário Soares[/caption]

Mas, a partir do momento em que Mário Soares lançara as bases da nova fundação Mário Soares e exigira o meu afastamento do projecto Emaudio, em 1989, a fundação de Relações Internacionais deixaria de poder contar com financiamentos oriundos da Emaudio, que esta empresa aliás também acabaria por não mais conseguir. Eram financiamentos políticos das mais variadas naturezas e proveniências que mantinham quer a Emaudio, quer a FRI ou a CEIG com vida. Que tinham igualmente mantido o MASP e que, enquanto Mário Soares fora secretário-geral, também o PS.

Eu pedira então para ser substituído na FRI e, à semelhança do que acontecera com a transferência de parte do património da Emaudio para o PS [13], que esta fundação passasse a controlar ou directamente ou por intermédio de quem os seus sócios entendessem, as sessenta mil acções que, aparentemente, tinham iniciado o meu afastamento da família “soarista”. Mário Soares tinha-me informado na sua casa do Algarve, em Julho de 1990, que o então secretário-geral do PS, Jorge Sampaio, estaria na disposição de fazer entrar novos elementos naquela fundação e, à semelhança do que acontecera em todas as outras, assumir a sua direcção. Aliás, logo após a eleição de Vítor Constâncio, em 1986, a nova direcção do PS vinha reclamando que as fundações se submetessem à sua orientação. O que não conseguiria. As fundações e a CEIG seguiam as orientações de Mário Soares que, então, lembrara que também em 1980 ele pretendera que o IED [14], principal reduto do “ex-secretariado” se submetesse à sua vontade, sem nunca o conseguir. Eventualmente, por desinteresse económico e estratégico, viria a aceitar que as fundações José Fontana e Antero de Quental passassem para o domínio da nova direcção partidária, mas nunca aceitaria o mesmo desígnio para a CEIG nem para a FRI onde fundadores como Gustavo Soromenho, Raul Rego e Almeida Santos se opunham terminantemente à invasão “constancista”. Acontece que, apesar dos meus apelos, não seria dado um único passo para que a fundação de Relações Internacionais “mudasse de mãos”. A partir do momento em que a Emaudio se vira sem meios eu tentaria, sem êxito, que os fundadores assumissem a responsabilidade pelas despesas correntes. Uma recepcionista que era funcionária deficiente motora e ganhava 57 contos, uma mulher de limpeza, telefones, água e luz, renda de aluguer da sede de 141 contos, despesas com previdência social e, acima de tudo, despesas com o carro de marca Citroën ao serviço pessoal de Mário Soares desde 1985 e, cujas despesas anuais com seguro e manutenção, rondavam os setecentos contos. Entretanto, rebentara o caso Emaudio e, com a sua liquidação, éramos eu e Menano do Amaral que, do nosso bolso, pagaríamos as despesas de aluguer e funcionárias. Os meus apelos aos fundadores não resultariam e a Mário Soares tão pouco.

[caption id="attachment_34613" align="alignright" width="300"]Raul Rego Raul Rego[/caption]

Enviar-lhe-ia então um “outro fax” na forma de uma carta datada de 30 de Outubro que o enfureceria ao lembrar que desde a última conversa em Julho nada mais me fora “adiantado sobre o assunto sendo informado das despesas a efectuar com o seguro do veículo que se encontra ao seu serviço bem como o salário da única funcionária da fundação e a renda da casa”. Afinal a fundação tinha estado ao seu serviço anos a fio. Eu nunca fora remunerado no quadro da mesma. E agora, para além do castigo no quadro da Emaudio, tinha sido acusado pelo procurador-geral-adjunto de “subornar” Carlos Melancia — imaginem — e ainda tinha que aguentar a FRI. A carta resultaria, embora reconheça que, a partir dessa data, a raiva de Soares contra mim tivesse passado a ser um verdadeiro ódio. Em 19 de Dezembro, Mário Soares escreveria uma carta afirmando que “não obstante estar efectivamente desligado das actividades” da FRI desde que tomara “posse do cargo de presidente da República” vinha pedir para “ser excluído da qualidade de membro dessa fundação”. Evidentemente que o choque de me ver acusado de alegadamente “subornar” Carlos Melancia e o desejo de que ninguém pudesse vir a dizer que eu teria actuado sempre de acordo com as suas instruções seriam tão grandes que Mário Soares se esquecera que todas as actividades da FRI de 1986 a 1990 tinham sido executadas à sua medida e que apesar de, então, se vir declarar convenientemente “desligado” da FRI se esqueceria de devolver o veículo pertencente à FRI, que tinha estado ao seu serviço aqueles anos todos. Tinha sido um magnífico e luxuoso Citroën que resultara, também ele, de um donativo de um empresário português com negócios em África. Pouco depois, vários dirigentes do PS, que incluiriam António Guterres, Galvão Teles, João Cravinho, Vítor Constâncio e Marques da Costa entrariam para a FRI. O dirigente socialista que Sampaio designara para verificar as contas concluiria pela “não existência de dívidas ou contenciosos” e a existência, mesmo assim, de valores patrimoniais que, segundo ele, incluíam “parte das acções da Emaudio, que a médio prazo poderão ser uma fonte de financiamento da fundação” [15]. Esta empresa estava entretanto já em liquidação, tendo-me eu comprometido a “doar” para a fundação “o valor que viesse a ser apurado na liquidação daquela empresa correspondente a 60 mil das minhas acções”. O então secretário das relações internacionais de Jorge Sampaio, Fernando Marques da Costa, assumiria a presidência da fundação.

Poucos meses depois da minha há muito desejada substituição na fundação de Relações Internacionais, Jorge Sampaio sairia, também ele, derrotado nas eleições legislativas de 1991, o que conduziria a breve trecho a novas mudanças no PS. Os velhos conflitos do PS “soarista” que permitiriam a união de forças entre grupos do chamado “ex-secretariado” tinham-se instalado também no interior do grupo. Durante este período teria, contudo, uma interessante revelação: o meu acusador, Rodrigues Maximiano, procurador-geral-adjunto, que a comunicação social conotava com o PCP, era afinal um “sampaista” ferrenho. Em entrevista a O Independente afirmaria que a diferença entre Cavaco e Sampaio era total porque “Jorge Sampaio é o futuro”. Terá mesmo então aderido ao Partido Socialista. Não ao PS que Mário Soares e eu tínhamos fundado nos anos difíceis mas “sim, com Jorge Sampaio” [16] ao novo PS.

[caption id="attachment_34614" align="alignleft" width="300"]Mário Soares e Guetrres Mário Soares e Guetrres[/caption]

Mas não seria preciso muito tempo para assistir à sua queda e à ascensão de António Guterres, que substituiria Fernando Marques da Costa por José Lamego. Na FRI e nas relações internacionais do PS. Este novo responsável pela Política externa do PS, evidenciando um surpreendente entente cordial nas relações com Mário Soares e o “soarismo”, compreenderia com mais realismo que como sem ovos se não fazem omeletes, também sem donativos o PS não teria futuro. A 3 de Novembro de 1992 convidar-me-ia para um almoço a que se juntaria também o então responsável pelas finanças do PS, Luís Patrão. Queriam saber com o que é que poderiam contar dos despojos da Emaudio. Interessante seria sobretudo o magnífico prédio e o seu recheio. Eu explicaria então o que todos já conheciam: a Emaudio estava a ser liquidada e eu tinha sido particularmente maltratado em todo o processo que se iniciara com a insólita decisão de Mário Soares de transferir o controlo da empresa em 1989. Responder-lhe-ia depois por carta que “caso o PS mantenha o interesse então demonstrado, e paralelamente ao que já aconteceu com a Imprinter em 1989, não levanto qualquer objecção a fazer reverter a totalidade das acções em meu nome para o Partido Socialista ou para quem por seu intermédio a FRI indique, desde que:

– Receba instruções da FRI nesse sentido. Me seja entregue o valor correspondente aos meus suprimentos na Emaudio… ou aquilo que eu considerar oferta realista da V/parte e que esta transferência seja acompanhada de documento relativo à mesma e acordado por ambas as partes”. Como então imaginara, esta carta nunca teria resposta. O PS, os seus institutos e fundações afins, como sempre acontecera e eu compreendia perfeitamente, estavam interessados em receber donativos sem condições. Como viria também a acontecer com a Emaudio.

Só que, no meu caso, gato escaldado…

[caption id="attachment_34615" align="alignright" width="300"]Rui Mateus Rui Mateus[/caption]

Em 1993 o PS celebrava 20 anos de vida. Falava-se numa comemoração no local onde o congresso constitutivo tivera lugar. Na Alemanha, em Bad Mundstereifel. Poucos dias antes do evento eu seria surpreendido por uma notícia no Expresso comentando que “por sugestão de Mário Soares, não apenas os 28 signatários da acta do congresso mas também aqueles que participaram nas reuniões preparatórias, o que perfaz um total de 109 pessoas. Até Rui Mateus, caído em desgraça pelo seu envolvimento no escândalo de Macau, que provocou a “queda” de Carlos Melancia, foi convidado. Residente nos Estados Unidos, onde se dedica à actividade docente, Mateus fez no entanto já saber que não estará presente” [17]. Atónito, responderia com uma carta ao artigo do Expresso. Afirmava não compreender o “até” uma vez que não tinha cedido a ninguém os meu direitos de fundador — numa clara alusão à inflação de socialistas “pós 25 de Abril” presentes à cerimónia e negava ter sido convidado. Afirmava ainda ter ficado a saber ter caído “em desgraça pelo meu envolvimento no escândalo de Macau” embora não soubesse em relação a quem e porquê eu teria caído em desgraça. Mas, afirmaria ainda, que se se tratava de uma alusão a Mário Soares ou à direcção do PS, então me sentia tranquilo pois, “nem em relação a um nem à outra me sentia particularmente diminuído com tal “penalização””. Acrescentava também então que “embora seja ainda a lógica do compadrio reinante na vida Política portuguesa que determina quem é o herói e quem cai em desgraça, estava convencido de que atempadamente se conheceriam os motivos que me teriam levado a cair em desgraça” [18]! No seguimento da minha carta àquele semanário, mesmo antes de ser publicada, já Almeida Santos se preparava para me responder que lamentava “que uma deselegância do Expresso me tivesse determinado a “punir a actual direcção do PS”, numa clara alusão à responsabilidade de Mário Soares no processo. Guterres, por seu lado, enviar-me-ia um dos seus típicos cartões de visita a lamentar “profundamente a intriga do Expresso a que era inteiramente alheio”.

Acho que está quase tudo dito. O tempo que, embora contrariado, provavelmente ainda poderei ter que passar na prisão será mais uma contingência que, quando comparada com tudo o que já tive que suportar nos últimos seis anos, será de somenos importância. Será, à semelhança do que já acontecera com Edmundo Pedro, em 1978, um segundo caso de prisão Política. Estou de consciência tranquila. A acontecer, teria mais que ver com o facto de ser o “mal amado” do regime do que com a minha disposição para ser o “cordeiro que se sacrifica” para justificar os eixos cometidos em nome da democracia. O estado e os seus principais protagonistas que assumam as suas responsabilidades! Neste livro eu assumo as minhas.

“Para além da ausência de regras que permitam, pela via individual, o acesso do cidadão à actividade Política, não existem regras idóneas de financiamento dos partidos nem de transparência para os políticos. Um pouco à semelhança dos “pilares morais” do regime, a Maçonaria e a Opus Dei, tudo se decide às escondidas, como se o direito dos cidadãos à informação completa e rigorosa de como são financiadas as suas instituições e dos rendimentos dos seus governantes e dos seus magistrados se tratasse de algo suspeito, de algo subversivo.”

Rui Mateus

NOTAS:

[1] A revisão do código penal, aprovado pela Assembleia da República, entraria em vigor a 1 de Outubro de 1995

[2] 17 de Maio de 1990

[3] Conclusos do procurador-geral-adjunto, fls.1252 dos Autos

[4] art.º159 da acusação, fls.1282 dos Autos

[5] art.º173 da acusação, fls.1283 e 1284 dos Autos

[6] art.º201 da acusação, fls.1289 dos Autos

[7] Declaração de Stanley Ho ao Expresso, de 12 de Dezembro de 1992

[8] UPSCEUnião dos Partidos Socialistas da Comunidade Europeia, hoje Partido Socialista da Europa

[9] Carta de Vítor Constâncio, de 8 de Abril de 1987

[10] Conferência “O Papel da Cultura nas Sociedades DemocráticasPrimeiras Jornadas Culturais do Mundo de Expressão Portuguesa e Espanhola”, fundação Gulbenkian, 11 e 12 de Fevereiro de 1982

[11] Susanna Sonntag, Joseph Brodski, Czeslaw Milosz, Martin Amis, Salman Rushdie, Ismail Kadaré, Ian Mc Evan, Malcom Bradbury, John Elliot, John Gross, Angela Carter, Lídia Jorge, Pedro Tamén, Almeida Faria, Virgílio Ferreira e Cardoso Pires, entre outros

[12] Conferências individuais com nomes ilustres como Norberto Bobbio, Mário Vargas Llosa, John Kenneth Galbraith, Karl Popper e René Thom

[13] A Emaudio detinha cerca de 50% do capital da Imprinter, Impressores Internacionais SA e era co-proprietária de dois semanários que seriam entregues em 1989 ao PS e, mais tarde, alienados por este

[14] IEDInstituto de Estudos para o Desenvolvimento

[15] Acta n.º12 da FRI, datada de 4 de Abril de 1991

[16] O Independente, de 27 de Setembro de 1991

[17] Expresso, de 27 de Março de 1993

[18] Carta ao Expresso, de 9 de Abril de 1993

Fonte: Livro «Contos Proibidos – Memórias de um PS Desconhecido» de Rui Mateus

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