A Profecia Xamanica

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Xamanismo
Xamanismo

A profecia, tendo realmente começado como enunciação inspirada, deve ter origem no xamanismo, a crença animista num mundo habitado por espíritos que se traduziu na religião mais antiga e duradoura. O xamanismo nasce do passado de caçadores-ceifeiros da Humanidade e precede a palavra escrita, em vários milénios. Muito embora o termo «xamã», no sentido de sacerdote do xamanismo, provenha da Sibéria, onde o fenómeno era generalizado, têm sido descobertos muito recentemente, em todos os continentes, xamãs e respectivos rituais sob diferentes formas. O xamanismo continua a ser praticado em diversas partes do mundo nos dias de hoje.

Apesar da profecia, no seu sentido mais amplo, fazer parte da arte do xamã, a previsão de acontecimentos futuros desempenhava um pequeno papel nas actividades do sacerdote ou, mais raramente, da sacerdotisa. O que todos os xamãs afirmavam era ter acesso a informação não disponível à restante Humanidade. Tal conhecimento provinha dos espíritos que os xamãs encontravam nas suas jornadas, dado que viajavam com o poder da mente, e a alma abandonava-lhes o corpo. As viagens dos xamãs conduzia-nos, por vezes, a reinos de deuses ou a partes distantes do mundo real. Com eles, traziam inteligência que podia ser utilizada em benefício da aldeia ou tribo.

O veículo utilizado por estes sacerdotes para tais jornadas era o estado de transe. Por todo o mundo, os xamãs serviam-se de variados meios para o conseguir. Recorriam frequentemente à música e dança, assim como a determinadas substâncias alucinogénias. No México, as curandeiras ingeriam cogumelos mágicos e o povo yanomami, da floresta tropical da Amazónia, utilizava vários pós, incluindo um feito a partir da casca seca da ucuuba.

As viagens em transe dos xamãs

As diferentes culturas interpretaram a viagem xamanista da alma de acordo com as suas próprias tradições. Entre os exemplos mais conhecidos figuram as histórias do povo inuit sobre Sedna, deusa dos animais marinhos. Os caçadores inuit dependiam dos mantimentos regulares da caça para suportar o longo inverno ártico. Sempre que a caça rareava, presumiam que Sedna estava zangada, ofendida por alguma infracção impensada em relação a um qualquer tabu, e que estava a vingar-se, mantendo os animais sob o seu controlo longe do alcance dos caçadores. Nestas alturas, um xamã percorria a longa e perigosa viagem espiritual até ao lar de Sedna, no fundo do mar. Enquanto os inuit entoavam melodias e cânticos para o ajudar no seu percurso, o visionário entraria num moroso estado de transe, partindo numa expedição onde poderia deparar-se com obstáculos assustadores. Chegado ao destino, tinha de acalmar a deusa dos animais marinhos e convencê-la a libertar as focas, morsas e outras criaturas de que os inuit precisavam. Caso fosse bem sucedido, a comunidade podia esperar caça farta nos meses vindouros e o xamã seria devidamente reverenciado pela importante missão que realizara.

Xamã
Xamã

Além de providenciar caça em tempos de necessidade, os xamãs de todo o mundo tinham várias outras funções. A cura era uma das principais, visto serem os médicos das sociedades primitivas, submetendo-se a viagens em transe para descobrir as causas e curas de doenças e males. Além do mais, os xamãs traziam notícias do destino de pessoas desaparecidas, tentavam obter chuva em tempos de seca e garantiam a vitória dos seus guerreiros em épocas bélicas. Podiam, ainda, vaguear pelo tempo, partindo rumo ao futuro para saber o resultado provável de uma batalha ou a evolução de uma doença.

As memórias de viagens em transe dos xamãs perduram em todos os relatos mais antigos de enunciações inspiradas. O fio que une os profetas hebraicos, à pítia de Delfos e aos oráculos da Idade do Bronze na África ou ao Peru da Antiguidade resume-se a esta tradição compartilhada, uma tradição de indivíduos excepcionais, capazes de atingir estados extáticos e visionários passageiros, através dos quais o oculto se tornava visível e o desconhecido era revelado.

A Rainha Profeta do Japão

Algures na fronteira entre o mito e a história, antigas lendas japonesas falam-nos de uma rainha chamada Himiko ou Pimiko, a primeira governante conhecida do Japão e a lendária fundadora do grande santuário xintoísta de Ise. Consta que Himiko teve ligações privilegiadas com a deusa do Sol, Amaterasu: os caracteres que representam o nome da rainha significam «filha do Sol» e histórias revelam que era a guardiã do espelho sagrado de Amaterasu. Sem nunca ter casado, Himiko viveu num palácio fortemente protegido onde comunicava com os antepassados divinos, transmitindo as mensagens que recebia dos espíritos a um intermediário, sempre homem. Registos chineses confirmam que houve, de facto, uma rainha com esse nome no Século I A.C. e revelam que, após a sua morte, foi enterrada numa enorme elevação tumular, tendo sido acompanhada por mais de cem seguidores.

Mulher inuit conquista  poderes xamanistas [1]:

«Ela olhou para cima para ver um meteoro
em chamas a avançar a grande velocidade
em sua direcção … e antes de conseguir desviar-se,
o imenso pedregulho incandescente atingira-a,
deixando-a inconsciente. Porém, mesmo antes
de perder os sentidos, apercebeu-se de uma luz
brilhante que flamejava dentro dela e vislumbrou
o espírito do meteoro possuí-la. Tinha dois corpos
articulados: num dos lados, um urso polar e,
no outro, um humano.»

NOTA:

[1] Livro:Spirits of the Snow” de Allan, Kerrigan e Philips (1999)

Fonte: Livro «As Profecias que Abalaram o Mundo» de Tony Allan

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