Informações vazadas por Edward Snowden e as suas consequências

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Consequências das informações de Snowden
Consequências das informações de Snowden

Snowden estabeleceu inicialmente contacto com a produtora de Documentários Laura Poitras em Janeiro de 2013. De acordo com Poitras, Snowden resolveu contactá-la após ter visto a sua reportagem sobre William Binney, um denunciante da NSA, no New York Times. Ela é membro do conselho da Freedom of the Press Foundation (Fundação para a Liberdade de Imprensa) juntamente com Glenn Greenwald. Greenwald, afirmou em reportagem para o The Guardian, estar a trabalhar com Snowden desde Fevereiro, e Barton Gellman, escreveu no The Washington Post que o seu primeiro “contacto directo” com Snowden ocorreu em 16 de Maio. Contudo, Gellman alega que Greenwald apenas esteve envolvido após o The Washington Post não ter dado garantias da publicação dos Documentos na íntegra, dentro de 72 horas. Gellman afirma que foi dito a Snowden que a sua organização não podia garantir quando ou a extensão das suas revelações que seriam publicadas, e Snowden declinou sucintamente posteriores colaborações com ele.

Snowden comunicava-se usando e-mails encriptados, com o nome de código “Verax“. Pediu para que não fosse citado, com medo de ser identificado através de análise semântica.

De acordo com Gellman, antes do seu primeiro encontro pessoal, Snowden escreveu: “Eu compreendo que irei sofrer pelos meus actos, e que a publicação destas informações ditará o meu fim.” Snowden também disse a Gellman que até os artigos serem publicados, os jornalistas que trabalhassem com ele também estariam em risco de morte se a comunidade dos serviços secretos norte-americanos “considerarem que vocês são o ponto singular que poderá significar um falhanço nesta operação de denúncia, que lhes permitisse continuarem a ser os únicos portadores destas informações.”

Em Maio de 2013, foi permitido a Snowden que abandonasse temporariamente a sua posição na NSA do Hawaii, a pretexto de receber tratamento para a sua epilepsia. A 20 de Maio, Snowden voou para o território chinês de Hong Kong, onde permaneceu quando os artigos iniciais sobre a NSA que vazou foram publicados. Além de outros pormenores, Snowden divulgou a existência e funções de vários programas de vigilância secretos dos Estados Unidos e os seus alvos, incluindo notavelmente o PRISM (programa de vigilância), base de dados de chamadas da NSA e o Boundless informant. Também expôs detalhes da Tempora, um programa de vigilância britânico Black-ops (operações secretas) gerido pelo parceiro britânico da NSA, o GCHQ. Snowden justificou as suas acções afirmando: “Eu não quero viver numa Sociedade que faz este tipo de coisas [espiar os seus próprios cidadãos]… Não quero viver num mundo onde tudo o que faço e digo é gravado.”

A identidade de Snowden foi tornada pública pelo The Guardian a seu pedido em 9 de Junho. Snowden justificou a sua decisão de abandonar o anonimato: “Não tenho qualquer intenção de esconder quem sou porque sei que não fiz nada de errado.” Acrescentou que ao revelar a sua identidade esperava proteger os seus colegas de serem sujeitos a uma caçada que determinasse quem tinha sido o responsável pelo vazamento de informações.

Em Julho de 2013, Greenwald afirmou que Snowden teria informações importantes adicionais acerca da NSA que preferiu não tornar públicas, incluindo “planos detalhados sobre o que faz a NSA e como faz.”

A meio de 2013, várias notícias relatavam que os Estados Unidos, com a ajuda da Austrália e Nova Zelândia, têm andado a espiar as comunicações nacionais e internacionais numa escala muito superior à que se supunha. Foi posteriormente revelado que a França e o Reino-Unido também têm andado a espiar.

O ex-consultor da CIA, Edward Snowden, também denunciou, numa entrevista publicada no Der Spiegel, que os serviços secretos alemães sabiam dos programas de espionagem em massa dos EUA, acusando-os de funcionar “em conluio com a NSA”, à semelhança da maioria dos países ocidentais.

Baseados em Documentos fornecidos por Edward Snowden, estas reportagens de imprensa revelaram que as actividades de espionagem conduzidas pelas agências dos serviços secretos dos EUA e Reino Unido visavam não apenas cidadãos estrangeiros como também americanos e cidadãos dos aliados americanos da NATO e da União Europeia.

Sumário dos programas de espionagem da NSA

Em 6 de Junho de 2013, o jornal britânico The Guardian começou a publicar uma série de revelações feitas por um até então desconhecido espião americano, revelado vários dias mais tarde como sendo um analista de sistemas, ex-CIA e ex-NSA, de nome Edward Snowden. Após um mês de publicações, tornou-se claro que a NSA opera uma rede complexa de programas de espionagem que lhes permite interceptar conversas telefónicas e de internet de mais de um bilião de utilizadores de dúzias de países ao redor do mundo. Foram feitas revelações específicas acerca da China, União Europeia, América Latina, Irão, Paquistão, Austrália e Nova Zelândia, indicando que muitos dos programas recolhem informação em bruto indiscriminadamente directamente dos servidores centrais, e backbones da internet, que quase invariavelmente irá ser transferida vinda de países distantes.

Edward Snowden
Edward Snowden

Devido a este servidor central e à monitorização backbone, muitos dos programas sobrepoem-se e interrelacionam-se com outros. Estes programas são geralmente conduzidos com a assistência de entidades americanas, tais como a DOJ e a FBI, são sancionadas por leis americanas tais como a FISA Amendment Act, e as necessárias ordens judiciais são assinadas pela Foreign Intelligence Surveillance Court (Corte de Vigilância de Serviços Secretos). Adicionado a isto, está o facto de muitos dos programas na NSA serem auxiliados directamente pelos serviços secretos americanos e de outros países, como o GCHQ britânico e o DSD australiano, assim como grandes empresas privadas de telecomunicações e internet tais como a Verizon, Telstra, Google e Facebook.

O programa inclui:

  • PRISM: Cooperação entre a NSA e as empresas de internet, onde as últimas permitem o acesso (directo ou indirecto) aos seus servidores.

  • Boundless Informant: O programa de computador que executa fisicamente a recolha de dados.

  • X-Keyscore: Um programa que corre na Austrália e Nova Zelândia, que localiza especificamente e-mails de outras linguagens que não a inglesa.

  • Dropmire: Um programa que localiza especificamente embaixadas e diplomatas estrangeiros.

  • Fairview: Um programa que localiza actividade em telemóveis (sobretudo mensagens de texto) em países estrangeiros.
  • Upstream e Tempora: Recolha de dados de cabos de fibra óptica e backbones de internet.
  • Mainway (gravações de chamadas), Main Core (gravações financeiras): Armazenamento de dados recolhidos.

  • Stellar Wind: extracção dos dados recolhidos.
  • Echelon: Intercepta comunicações comerciais truncadas por todos os signatários do Five Eyes.
  • Turbulence: Inclui capacidades de guerra cibernética, tais como localizar inimigos com malware.

  • Insider Threat Program: Policiamento que requer que empregados federais relatem “pessoas ou comportamentos de alto-risco” de colegas, assim como punições a quem não denuncie esses colegas.

NSA

Outros programas foram mencionados nas revelações de Snowden. Estão incluídos: Special Source Operations (incluindo como um logotipo na maior parte dos slides de apresentações, aparentemente responsáveis por todos os programas que colaboram com entidades empresariais, ThinThread, Nucleon (voz), Pinwale (vídeo), Marina (gravações de internet), Stormbrew, Blarney, Oakstar, Pintaura (automatiza o fluxo de trânsito), Traffic Thief, Scissors and Protocol Exploitation (classifica tipos de dados para análise), Fallout and Conveyance (providencia filtragem – aparecem todos nos slides na referência seguinte); SilverZephyr e Steel Knight.

Slides de Powerpoint denunciados por Edward Snowden

Pode encontrar os slides de Powerpoint vazados neste link: PRISM (programa de vigilância) – Slides vazados por Snowden

Reportagens de imprensa baseadas nos documentos fornecidos por Snowden:

The Guardian

O The Guardian e o The Washington Post relataram ambos que a NSA tem andado a monitorizar o tráfego de internet, em tempo real, através do PRISM. Além disso, o The Guardian também adiantou que:

  • A NSA recolheu dados de mais de 120 milhões de subscritores (Esta foi a primeira revelação, publicada a 6 de Junho).
  • A NSA recolheu informação electrónica global através do Boundless Informant.
  • Duante a reunião do G-20 de 2009 em Londres, a British intelligence Agency Government Communications Headquarters (GCHQ) interceptou comunicações de diplomatas estrangeiros.
  • A GCHQ tem vindo a interceptar e armazenar quantidades maciças de tráfego de fibra-óptica através da Tempora.
  • Um método de escuta de dados encriptados de máquinas de fax utilizado numa embaixada norte-americana tem o nome de código Dropmire.
  • A Microsoft desenvolveu capacidade de vigilância para lidar “com a intercepção de chats encriptados no Outlook.com, cinco meses após o serviço entrar em testes. A NSA teve acesso aos e-mails do Outlook.com porque o ‘PRISM recolhe esses dados antes destes serem encriptados.'”

The Washington Post

Revelação do PRISM, em simultâneo com o The Guardian.

South China Morning Post

Durante alguns episódios específicos dentro de um periodo de quatro anos, a NSA infiltrou-se em:

  • Várias empresas de telecomunicações chinesas.
  • Universidade chinesa de Hong Kong e Universidade Tsinghua em Pequim.
  • Operador da rede asiática de fibra-óptica, Pacnet.

Der Spiegel

Alguns Documentos providenciados por Edward Snowden e vistos pelo Der Spiegel reveleram que a NSA tem espiado em várias missões diplomáticas da União Europeia (EU), incluindo:

  • A delegação da União Europeia enviada aos EUA, mais precisamente, a Washington.
  • A delegação da União Europeia enviada aos EUA, nomeadamente a Nova York.
  • O Conselho da União Europeia em Bruxelas.
  • Apenas a Austrália, o Canadá, a Nova Zelândia e o Reino Unido estão explicitamente isentos de ataques da NSA, cujo principal alvo na União Europeia é a Alemanha.
  • Snowden também confirmou que o Stuxnet foi desenvolvido cooperativamente entre os EUA e Israel.
  • A NSA deu aos serviços secretos alemães BND e BfV acesso à X-Keyscore.

O Globo

Os Estados Unidos espiaram milhões de e-mails e chamadas de brasileiros. A Austrália e a Nova Zelândia têm vindo a auxiliar os EUA no seu programa de vigilância.

Le Monde

Num relatório não-relacionado com Edward Snowden, o jornal revelou que a DGSE francesa também estaria a realizar espionagem em massa, o que é descrito como “ilegal e além de qualquer supervisão”.

Consequências e efeitos

Os Agentes da Defesa britânicos emitiram uma notificação confidencial à BBC, entre outros meios de comunicação social, no sentido de exigir que evitassem publicar mais notícias relativas ao vazamento de informação acerca da espionagem, incluindo o programa americano PRISM e o envolvimento britânico. O exército americano restringiu igualmente o acesso ao site do The Guardian, tentanto prevenir e desautorizar a revelação de informação secreta.

O presidente americano Barack Obama garantiu ao público americano que não há motivos de preocupação porque “ninguém está à escuta das vossas chamadas telefónicas.”

Em 21 de Junho de 2013, o director da National Intelligence, James R. Clapper emitiu um pedido de desculpas por ter dado falso testemunho em frente ao Congresso norte-americano. Anteriormente, em Março, Clapper tinha negado que a NSA estaria a recolher qualquer tipo de dados dos cidadãos norte-americanos. Na sua carta, Clapper escreveu que se tinha focado na Secção 702 do Foreign Intelligence Surveillance Act, e como tal, simplesmente não pensou acerca da Secção 215 do Patriot Act, que justifica a recolha maciça de dados telefónicos de cidadãos americanos. Clapper afirmou: “A minha conduta foi claramente errada – motivo pelo qual peço perdão.”

Contra-terrorismo e segurança nacional

De acordo com Keith B. Alexander, o director da NSA, estes vazamentos de informação causaram danos “significativos” e “irreversíveis” à segurança nacional dos Estados Unidos, e esta publicação “irresponsável” de informação secreta terá um impacto “pernicioso a longo prazo” na capacidade dos serviços secretos em  detectar futuros ataques. Mais ainda, estas fugas de informação “inflamaram e sensacionalizaram” o trabalho que os serviços secretos fazem de forma legalizada, sob “regulação e supervisão restrita”.

Agentes do governo norte-americano alegaram que os terroristas estão a tentar alterar as suas tácticas como medida de reacção às fugas de informação.

Impacto nas relações externas

Estas fugas de informação na imprensa vieram afectar as relações dos Estados Unidos com muitos dos seus parceiros económicos:

  • Relações com a China: o porta-voz da Casa-Branca Jay Carney expressou a sua raiva em relação à decisão do governo de Hong Kong em libertar Edward Snowden.

  • Relações com a União Europeia: A comissária europeia para os Assuntos Domésticos, Cecilia Malmström, escreveu que a “confiança mútua foi seriamente abalada e espero que os Estados Unidos façam tudo ao seu alcance para restaurá-la.”

Fonte:

Artigos originais:

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