Merlim, o profeta

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Merlin
Merlin

«Infeliz de vós, Normandia, pois o cérebro do leão será vertido sobre vós e ele será banido da terra natal com os membros esmigalhados.»

– Merlim profetizando a morte de Henrique I da Inglaterra na Normandia, a 1 de Dezembro de 1135, como registado por Geoffrey of Monmouth em 1150.

Nos dias de hoje, Merlim continua a ser alvo de atenção pública graças aos livros e filmes arturianos. No entanto, poucas são as pessoas que conhecem as origens de Merlim enquanto profeta (e, segundo consta, um profeta histórico).

O famoso feiticeiro fez a primeira aparição por volta do ano 1135 da Era Cristã, na «Historia Regum Britanniae» de Geoffrey of Monmouth, um dos mais populares e influentes livros da Idade Média. Pretendendo ser uma história sobre a Grã-Bretanha de aproximadamente 1170 a. C. até o Século VIII d. C., os conteúdos do livro provieram em grande medida da imaginação fértil de Geoffrey. Além de Merlim, Historia também mencionava o rei Artur, embora a única associação de Merlim ao monarca no livro seja a utilização da sua magia para ajudar o pai deste, Uther Pendragon, que, para conseguir dormir com a mãe de Artur, se disfarçou, passando por seu marido.

Segundo Historia, a Grã-Bretanha foi inicialmente povoada por seguidores de Bruto, filho do herói troiano Eneias. Geoffrey chegou a criar toda uma linhagem de reis imaginários, inclusive o rei Lear e Cimbelino, ambos conhecidos hoje em dia através das peças de Shakespeare. Embora reconhecendo a conquista romana, Geoffrey preferiu retratar os Romanos como suseranos tenebrosos.

Merlim
Merlim

A parte mais interessante e influente da obra de Geoffrey descreve acontecimentos posteriores à partida dos Romanos. Segundo o autor, o trono da Grã-Bretanha foi usurpado por um intruso traiçoeiro de nome Vortigern, que não só forçou o exílio dos herdeiros de direito, como também convidou os Saxões pagãos a entrarem no país como mercenários para reforçarem a sua posição.

Segundo o livro, os Saxões gostaram do que viram da Grã-Bretanha a seu tempo, também voltaram as espadas contra Vortigern, que se afastou, indo para o seguro monte Snowdonia, onde planeava construir uma fortaleza inexpugnável. Contudo, todas as tentativas de erigi-la não tiveram sucesso, porque as paredes ruíam sempre. Convencido de que havia mão de um mágico, Vortigern convocou os seus adivinhos, que lhe disseram que a única forma de quebrar o encanto era sacrificar uma criança que tivesse nascido sem pai. Vortigern procurou tal prodígio por toda a parte e acabou por encontrar o jovem Merlim, cuja mãe gravidara de um incubo, deixando o menino sem pai humano.

Merlim tinha, porém, poderes proféticos e antes de ser sacrificado insistiu em desafiar os adivinhos de Vortigern para uma prova de dons. Após terem tentado, em vão, revelar a razão pela qual o castelo ruía sempre, Merlim resolveu o mistério com sucesso: estavam a construí-lo sobre um lago submerso onde viviam dois dragões guerreiros. Vortigern investigou e encontrou os dragões. Um era vermelho e o outro branco e, nesse mesmo instante, começaram a lutar.

Uma história profética

Pressionado para dar uma explicação, Merlim respondeu com um discurso longo e profético que ficou conhecido ao longo da Idade Média como «profecias de Merlim», revelando nada mais do que uma história profética da Grã-Bretanha apresentada em termos alegóricos e que se alongava por um período de mil anos ou mais. A primeira parte é obscura, mas, por vezes, perturbadoramente precisa, o que não é de estranhar, visto que Geoffrey of Monmouth, que aparentemente actuava como autor das profecias, estava a escrevê-las após os acontecimentos.

No que diz respeito aos dragões, Merlim revelou que o vermelho significava o povo celta (até hoje o símbolo nacional galês) e o branco os Saxões. Tal como os dragões, ambos os povos estavam destinados a lutar um contra o outro; de início, os Saxões venceriam, proeza esta mais tarde conseguida pelos Celtas.

Geoffrey, porém, continuou a narrar profecias quando chegou à sua própria época. Através de Merlim, fez autênticas previsões para os séculos vindouros, a maior parte demasiado enigmática para ser facilmente interpretada. Anos depois, estas previsões foram alvo de troça por parte de William Shakespeare na peça Henrique IV, parte I, na qual Hotspur zomba do «sonhador Merlim e suas profecias».

A única previsão de «Merlim» que pode ser comprovada com alguma certeza diz respeito ao ressurgimento celta (na comparação com a história dos dragões), quando «as ilhas voltarem a ser chamadas pelo nome de Bruto». O nome «(Grã)Bretanha» voltou a ser utilizado após a união das coroas inglesa e escocesa, em 1603. Mesmo assim, as palavras de Merlim não estão propriamente habilitadas como proféticas, porque os obreiros da união entre os reinos conheciam essas mesmas palavras quando escolheram o nome. Surpreendentemente, as enunciações enigmáticas de Merlim, como descrito por Geoffrey, continuaram a ter uma enorme influência nos séculos que se seguiram. Muitos leitores procuraram nelas, com certa avidez, aplicações contemporâneas. Jaime I, o primeiro rei de uma Inglaterra e Escócia unidas, deu nova voz à visão de Geoffrey ao afirmar que «como rei de toda a ilha, ele seria rei da Grã-Bretanha, como Bruto e Artur».

O louco da fronteira

Dado que as profecias foram, em grande medida, atribuídas à imaginação de Geoffrey of Monmouth, a reputação de Merlim como vidente ficou abalada. No entanto, existem indícios de que Geoffrey se baseou, na verdade, em antigas lendas celtas, aumentando a possibilidade da verdadeira existência de um percursor de Merlim em carne e osso. As histórias do menino sem pai e dos dragões lutadores tinham, por exemplo, sido mencionadas num conto do Século VIII, no qual o nome do menino era Ambrósio. O seu dom de previsão teve lugar, supostamente, numa corte celta do Século VI.

Geoffrey recorreu a uma tradição diferente numa obra mais resumida, Vita Merlini, que escreveu uma dúzia de anos depois de Historia. Esta biografia do vidente de 1500 versos descreve um personagem bem diferente do Merlim arturiano. Fala-nos de um rei e profeta do Século VI de Dyfed, no sul de Gales, que lutou ao lado do rei de Cumbria contra um rei de Scocia (Escócia). Enlouquecido de dor pela morte dos três irmãos durante a batalha, o rei retirou-se para a floresta da Caledónia, na fronteira da Escócia, ocasionalmente reemergindo para enunciar profecias que, por vezes, ecoam às incluídas em Historia.

Este Merlim apresenta semelhanças inequívocas com o bardo gaulês conhecido por Myrddin, cujos escritos não eram evidentemente estranhos a Geoffrey. Os fragmentos sobreviventes da obra de Myrddin incluem poemas autobiográficos, nos quais fala de si mesmo como um marginal e louco, levando uma vida solitária na floresta da Caledónia após uma batalha.

Merlim e Stonehenge
Merlim e Stonehenge

A figura do profeta enlouquecido de tristeza também surge de forma inesperada em outras obras da literatura galesa, e as semelhanças de nomes de personagens associados indicam que o indivíduo em causa é o mesmo dos poemas de Myrddin. Contudo, em alguns fragmentos em prosa, é apelidado de Laloecen ou Lailoken. O mais revelador destes textos narra a vida do santo Kentigern, padroeiro de Glasgow. Descreve como este encontrou um louco nu num bosque, que lhe contou que perdera os sentidos durante uma terrível batalha travada perto do rio Liddell, nas imediações da fronteira inglesa com a Escócia. Esta figura selvática passa, então, a acompanhar o santo, interrompendo-lhe por vezes os sermões com enunciações proféticas. O louco acabou por se reconciliar com o Cristianismo, mas não sem antes proferir uma última previsão de que morreria de três causas em simultâneo. Por muito improvável que parecesse, as suas palavras foram confirmadas quando foi apedrejado por pastores, escorregou na margem do rio Tweed e foi empalado numa estaca afiada, morrendo, assim, simultaneamente de apedrejamento, empalação e afogamento.

Longe de ser o feiticeiro da lenda moderna, o verdadeiro Merlim pode ter sido um «homem selvagem dos bosques», nu e peludo. Nikolai Tolstoi, autor de «The Quest for Merlin», publicado em 1985, afirma inclusivamente ter encontrado a fonte, bem no alto da encosta de Hart Fell, na fronteira da Escócia, onde o vidente viveu.

Como profeta de carne e osso, este Merlim encaixa na perfeição na História, tendo em consideração um aspecto desditoso: a sua clarividência parece ter-lhe propiciado poucas alegrias e não impediu que tivesse o final infeliz que os profetas costumam ter.

A espada cravada na pedra

Nos tempos modernos, a previsão mais conhecida de Merlim é com certeza a história da espada na pedra: o último desejo do rei Uther Pendragon no leito de morte foi: quem conseguisse retirar uma lâmina magicamente cravada num rochedo, seria o seu sucessor como rei da Grã-Bretanha. Na história, o discípulo e protegido de Merlim, Artur, consegue tal proeza depois do fracasso de muitos cavaleiros reconhecidos, ascendendo assim ao trono. Na verdade, Geoffrey of Monmouth não menciona esta história, que é apresentada pela primeira vez na obra de Robert de Boron, um poeta borgonhês, meio século depois. O seu poema Merlin deu, ainda, mais uma duradoura contribuição à lenda arturiana: apresentou a Távola Redonda, em torno da qual os cavaleiros de Artur podiam reunir-se como iguais, sem se preocuparem com questões de hierarquia no posicionamento dos lugares.

Merlim e Stonehenge

Em Historia, de Geoffrey of Monmouth, Merlim é responsável por colocar o imponente círculo em pedra de Stonehenge na planície de Salisbury, no sul da Inglaterra. O livro de Geoffrey descreve como, após a queda de Vortigern, o novo governante da Grã-Bretanha, Aurélio, está determinado em construir um memorial para um grupo de nobres traiçoeiramente assassinados pelo aliado saxão de Vortigern, Hengist. Porém, tal como acontecera com a fortaleza de Vortigern, houve problemas de construção que somente foram resolvidos quando Merlim foi consultado. O feiticeiro recomendou transportarem um complexo monumental já erigido na Irlanda para o local (um feito que conseguiu ao recorrer à magia). O resultado, segundo Geoffrey, foi a construção do monumento «conhecido na língua inglesa como Stonehenge».

Fonte: Livro «As Profecias que Abalaram o Mundo» de Tony Allan

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