As profecias sobre Hitler

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1919
Adolf Hitler
Adolf Hitler

«[…] este homem deve ser, sem dúvida, levado muito a sério; ele está destinado a assumir o papel de Fuhrer em futuras batalhas […]»

Elsbeth Ebertin, lendo o horóscopo de Hitler em Julho de 1923.

«Existe uma possibilidade de uma tentativa de assassinato através de material explosivo.»

Karl Ernst Krafft, prevendo a conspiração bombista em 1939 contra Hitler, na cidade de Munique, uma semana antes do acontecimento.

O aparecimento de profetas é, muitas vezes, originado por tempos dramáticos e a era Nazi na Alemanha não foi excepção. Mesmo nos anos que antecederam à tomada de posse de Adolf Hitler, a vida estava longe se ser estável para o povo alemão (o rescaldo da derrota na Primeira Guerra Mundial e a inflação catastrófica de 1922 e 1923 causaram inquietação e incerteza quanto ao futuro). Um reflexo desta insegurança geral foi o aumento da popularidade da Astrologia, que contou com mais praticantes na Alemanha dos anos 20 do que em qualquer outra parte da Europa. Indivíduos com iniciativa, como o teósofo Hugo Vollrath, que organizou congressos, lançou publicações e revistas, encontraram um público ansioso pelos seus projectos.

Quem também beneficiou com o aparecimento repentino da Astrologia foi Elsbeth Ebertin, grafóloga e astróloga que publicou um almanaque anual de previsões a partir de 1917. Em 1923, uma mulher membro do recém-criado Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores, ou partido Nazi, enviou detalhes da data de nascimento de Hitler a Elsbeth, com o intuito de saber o que lhe reservava o destino. Sem se referir a Hitler pelo nome, Elsbeth abordou o assunto no almanaque desse ano, que saiu em Julho. Escreveu ela «Um homem de acção, nascido em 20 de Abril de 1889 [a data de nascimento de Hitler] … pode colocar-se em perigo por excesso de actos impensados e pode muito bem desencadear uma crise incontrolável. As suas constelações demonstram que este homem deve ser, sem dúvida, levado muito a sério; ele está destinado a assumir o papel de Fuhrer em futuras batalhas.» Em Novembro desse ano, Hitler ajudou a organizar o fracassado golpe de Munique que levou à sua captura e prisão. Quanto à restante previsão de Elsbeth, a História é testemunha.

Adolf Hitler
Adolf Hitler

Consta que o próprio Hitler viu o horóscopo e rejeitou-o rudemente, dizendo: «O que têm as mulheres e as estrelas a ver comigo?». Contrariamente aos rumores, ele nunca teve interesse ou deixou-se impressionar por Clarividentes de qualquer espécie, mas alguns membros do movimento Nazi mostraram-se mais receptivos. Em particular, refira-se Heinrich Himmler, o chefe da polícia Nazi, que era fascinado por Astrologia, e Rudolf Hess, o braço direito de Hitler.

As «previsões» de Hanussen

Outros membros do partido estavam dispostos a utilizar as previsões em benefício próprio. Tanto crentes como oportunistas tiveram participação no caso Hanussen, um episódio sombrio que coincidiu com a tomada de poder do Partido Nazi na Alemanha no início de 1933. Erik Jan Hanussen era um hipnotizador de palco e clarividente com uma reputação considerável na altura em terras germânicas. Chegou a publicar uma revista semanal de Astrologia e a dar consultas particulares; consta-se, ainda, que se servia de escutas como forma de reforçar a precisão das suas previsões.

Erik Jan Hanussen
Erik Jan Hanussen

Apesar de ter sangue judeu, Hanussen tinha contactos entre os nazis e, segundo consta, chegou a dar aulas a Hitler sobre como discursar em público. Contudo, também tinha inimigos no movimento: a polícia secreta, ou Gestapo, tinha conhecimento da sua origem judaica.

Quando Hanussen leu o horóscopo de Hitler em Janeiro de 1933 e previu correctamente que ele assumiria o poder na Alemanha no dia 30 daquele mês, muitas foram as vozes que se fizeram ouvir, reclamando que o astrólogo deveria ter beneficiado de informações privilegiadas de fonte segura. Hanussen foi, mais uma vez, atormentado com a mesma acusação no mês seguinte, quando proferiu uma revelação pública ainda mais surpreendente. A 26 de Fevereiro foi citado na imprensa: «Vejo um crime horripilante cometido pelos comunistas. Vejo chamas incandescentes. Vejo uma tocha horrenda que ilumina o mundo.» Na noite seguinte, a previsão foi espectacularmente cumprida com o incêndio do Reichstag. Os nazis culparam, de facto, os comunistas pela destruição do edifício do parlamento em Berlim, embora não haja muitas dúvidas de que o incêndio foi ordenado pelos próprios nazis a pretexto de se livrarem dos esquerdistas.

A forma como Hanussen conseguiu tal previsão permanece um mistério. Segundo alguns relatos, a profecia foi, na verdade, feita por uma das suas colegas, uma médium de nome Marie Paudler, durante uma sessão. Outros suspeitam que Hanussen tinha conhecimento prévio do acto planeado através dos contactos dentro do movimento. De qualquer modo, houve naturalmente membros do partido que ficaram furiosos perante a emissão da notícia sobre o incêndio tão aparatosamente antecipada. Alguns dias depois, Hanussen foi capturado a caminho de uma actuação e empurrado para o interior do próprio veículo. Um corpo crivado de balas foi mais tarde encontrado num bosque nos arredores de Berlim.

Astrologia e o partido nazi

Karl Ernst Krafft foi mais um clarividente à margem do regime Nazi. Um suíço de origem alemã, Krafft era um jovem inteligente, embora excêntrico, que se lançou em tentativas obscuras para provar a validade científica da Astrologia através de análise estatística. Sem conseguir apoio académico para os seus projectos, passou por uma sucessão de empregos. Em 1938, mudou-se para a Alemanha, onde rapidamente decidiu tentar a sorte com os nazis.

Karl Ernst Krafft
Karl Ernst Krafft

Seguindo um contacto feito por meio dos estudos astrológicos, Krafft conseguiu uma colaboração independente com a SS Nazi. No dia 2 de Novembro de 1939, poucos meses após a nova ocupação, enviou um relatório para o escritório de Himmler. O horóscopo de Hitler, afirmou ele, indicava que inimigos com uso de explosivos poderiam ameaçar a vida do Fuhrer entre os dias 7 e 10 daquele mês. De facto, Hitler escapou a uma tentativa de assassinato a 8 de Novembro, quando uma bomba explodiu numa cervejaria de Munique onde discursara para apoiantes. Hitler deixou o edifício pouco antes da explosão, que vitimou sete pessoas e feriu 63.

O próprio Krafft emitiu de imediato um telegrama a Rudolf Hess com a notícia do sucesso da sua previsão. Hitler e o seu ministro de propaganda, Joseph Goebbels, foram rapidamente informados e Krafft foi detido pela Gestapo por suspeita de participação no atentado. Conseguiu convencê-los da sua inocência e acabou por receber o prémio que desejara: Goebbels decidiu dar-lhe um emprego.

Previsão e propaganda

O trabalho que Krafft teria de fazer não era exactamente o que esperara. Um apaixonado crente na Astrologia pretendia fazer horóscopos e aconselhar políticos e generais sobre acções futuras. Porém, Goebbels tinha outros planos. Pouco antes de Krafft lhe ter captado a atenção, a esposa de Goebbels tinha-lhe mostrado uma quadra de Nostradamus que dizia: «Vereis a nação britânica mudar sete vezes / Coberta de sangue por 290 anos / Nem um pouco livre como resultado do apoio alemão / Aries [deus da guerra] teme o seu polo bastarna.» Os Bastarnas foram uma tribo que habitou na Polónia no período clássico, e a estância foi interpretada como significando que, após seis mudanças no governo ou dinastia britânicos num período de 290 anos, ocorreria uma sétima como resultado de uma situação envolvendo a Alemanha e a Polónia. Caso a primeira mudança após a época de Nostradamus fosse considerada a execução de Carlos I e a criação da Commonwealth em 1649, o período de 290 anos terminaria, assim, em 1939.

Goebbels estava mais interessado no valor da propaganda de tais mensagens do que na profecia de Nostradamus em si e incumbiu Krafft de criar quadras falsas que encorajassem o esforço de guerra dos nazis. Os primeiros resultados de Krafft foram folhetos lançados em França durante a invasão alemã de 1940. Estes serviam para provar que a Alemanha conquistaria grande parte do país, mas deixaria o Sudeste desocupado: o plano era encher as estradas de refugiados nessa direcção, atrapalhando, assim, as movimentações das tropas francesas.

Enquanto Krafft trabalhava na propaganda, um outro horóscopo, do qual não tinha qualquer conhecimento, viria a ter uma influência dramática na sua própria vida, assim como no decurso da guerra. De autoria anónima, consta-se que foi redigido em Novembro de 1918, abordando o futuro da nação alemã. Não restou qualquer cópia, mas aparentemente o mapa previa a ascensão da Alemanha até Maio de 1941, data a partir da qual entraria em declínio. Tal previsão era do conhecimento de Rudolf Hess e, segundo consta, era alvo da sua preocupação, pois sabia que as forças militares alemãs invadiriam a Rússia no mês seguinte, deparando-se com a perspectiva perturbadora de manter uma guerra em duas frentes. Os medos de Hess motivaram a sua famosa viagem à Grã-Bretanha em Maio de 1941, para tentar a paz entre ambas as nações. A missão foi, claro está, um fracasso e Hess passou os 46 anos seguintes na prisão até à sua morte, em 1987.

Os resultados da deserção de Hess revelaram-se prejudiciais para Krafft e os seus colegas astrólogos. Hitler ordenou medidas de controlo sobre «adivinhos e outros vigaristas», que culpava pelas acções de Hess. Krafft viu-se preso juntamente com outros praticantes da arte. Foi libertado em 1943 e retomou o trabalho de propaganda, mas a integridade das suas previsões depressa falou contra si. No início da guerra, por exemplo, comparara os horóscopos de Rommel e Montgomery, comandantes rivais no norte de África, e concluíra que Montgomery era sem dúvida o mais forte. Tal franqueza, assim como reclamações obstinadas de Krafft a respeito do trabalho humilhante que tinha de fazer, levaram-no novamente à prisão em 1944. Mantido em condições precárias, contraiu febre tifóide e morreu a caminho do campo de concentração de Buchenwald, em 1945. Pouco antes de morrer, fez a sua última previsão: bombas inglesas, disse ele, cairiam sobre o ministério da propaganda, onde fora tão maltratado. E assim aconteceu.

Fonte: Livro «As Profecias que Abalaram o Mundo» de Tony Allan

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