Júlio Verne e a imaginação tecnológica

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Júlio Verne
Júlio Verne

“Chegaremos à Lua, chegaremos aos planetas, chegaremos às estrelas com a mesma facilidade, velocidade e segurança com que hoje viajamos de Liverpool a Nova Iorque.”

Júlio Verne, prevendo as viagens espaciais no seu romance «Da Terra à Lua», de 1865.

Nascido em 1828, Júlio Verne foi um dos escritores franceses do Século XIX que mais livros venderam. Os seus romances, publicados à média de um por ano, concederam-lhe reputação e riqueza, permitindo que desfrutasse de luxos como comprar aquele que era, na época, o maior iate do mundo. No entanto, a vida de Verne foi bastante reclusa. O grande inventor de jornadas fantásticas raramente viajava e, como pioneiro a imaginar navegações aéreas, viajou uma única vez num balão, na cidade provinciana de Amiens, onde viveu durante 33 anos até ao dia da sua morte, em 1905.

O meio de transporte preferido de Verne era a imaginação. Embora não fosse cientista, era fascinado pelo potencial dos avanços científicos do seu tempo. Projetando os conhecimentos da época, conseguiu fazer previsões notavelmente perspicazes do que o futuro reservava. Ajudou, assim, a inspirar verdadeiros pioneiros. Charles William Beebe, explorador marítimo norte-americano que, em 1934, atingiu os 923 metros de profundidade numa batisfera, era admirador do romance de Verne «Vinte Mil Léguas Submarinas», publicado em 1870. O almirante Richard Byrd, que sobrevoou o Pólo Norte pela primeira vez em 1926, disse: «É Júlio Verne que me guia até aqui.»

Previsões na ficção

A lista de previsões de Júlio Verne é extensa e algumas ainda não se realizaram. Desde o seu primeiro romance, «Cinco Semanas em Balão», publicado em 1863, inspirou-se no potencial da aviação. O tema central do romance «Robur, O Conquistador», de 1886, são máquinas mais pesadas do que o ar: o herói não só constrói uma com sucesso, como depois projecta uma outra máquina capaz de viajar com a mesma facilidade por terra, mar e ar. O submarino Nautilus, de «Vinte Mil Léguas Submarinas», foi imaginado décadas antes de existir Tecnologia para transformar tais embarcações em realidade e um século antes dos primeiros submarinos nucleares.

Desenho do Nautilus
Desenho do Nautilus

Muitas das criações de Verne pressagiaram inovações mais recentes. Num romance, os membros de uma assembleia municipal comunicam uns com os outros a partir de casa através de um sistema que parece tanto o telex como o correio eletrónico. Previu elevadores e passagens pedonais rolantes e descreveu arranha-céus de 300 metros de altura com ar condicionado, nos quais a «temperatura era sempre uniforme». Verne imaginou, ainda, aparelhos tecnológicos que resolvem tramas: no romance «Os Irmãos Kip» (1902), um assassinato é solucionado através da amplificação de um detalhe de uma foto, como sucedeu 65 anos depois no célebre filme de Michelangelo Antonioni, «Blow-up – História de Um Fotógrafo».

O sucesso mais notável a nível de previsões despontou com o terceiro romance, «Da Terra à Lua» (1865) e o sucessor «À Volta da Lua», publicado cinco anos mais tarde. Muitos escritores anteriores a Verne tinham especulado sobre uma viagem à Lua, mas o seu relato aproximou-se muito mais à realidade do voo da nave Apollo, em 1969, do que qualquer um dos seus antecessores. Algumas das coincidências entre ambos são incríveis: o voo lunar imaginado por Verne teve o seu início a partir de Tampa, Florida, a menos de 200 quilómetros do Cabo Kennedy, local de descolagem do Apollo. Verne visualizou correctamente foguetes a serem utilizados para a entrada e saída da aeronave da órbita lunar (quase quarenta anos antes de os irmãos Wright terem projectado o primeiro voo artificial) e imaginou a nave espacial a cair no Oceano Pacífico na viagem de regresso à Terra.

Viagem à Lua
Viagem à Lua

O mais incrível de tudo foi a duração da viagem. Os viajantes chegaram à Lua em 97 horas e 13 minutos, ao passo que os astronautas do Apollo 11 demoraram 97 horas e 39 minutos.

Apesar de todas as semelhanças, a imaginação de Verne foi tolhida pelas limitações tecnológicas do seu tempo. A sua nave espacial era um projétil, lançado por uma arma de cano longo com 275 metros de comprimento. Ainda mais estranho aos dias de hoje é que os astronautas viajavam de roupões e levavam dois cães como companhia.

Numa fase final da sua vida, Verne ficou mais preocupado com a má utilização da Tecnologia. Em romances como «A Ilha de Hélice» (1895) e «A Espantosa Aventura da Missão Barsac», publicado postumamente, abordou mundos totalitários onde a Tecnologia não era utilizada para libertar as pessoas, mas para escravizá-las. Horrores como bombas de fragmentação, aviões de controlo à distância e instrumentos de tortura elétricos encheram as suas páginas e, infelizmente, Verne acabou por ser tão presciente no seu pessimismo quanto fora nos sonhos juvenis idealistas de libertação através da Tecnologia.

América no ano de 2889

Uma das obras menos conhecidas de Verne, escrita para uma revista norte-americana em 1889, narrava previsões bem-humoradas sobre como seria a vida na América mil anos depois. Numa época em que os poderes europeus ainda dominavam o mundo, Verne já visualizava os EUA como uma superpotência – agregando todo o continente americano ao mesmo tempo que possuía também a Inglaterra como colónia. Nesta América do futuro, os magnatas da comunicação governavam com toda a supremacia, donos de um império de «jornalismo telefónico» (a sua previsão de emissão radiofónica). Previu, ainda, um aparelho semelhante a uma webcam de nome «fonotelefoto», que permitia que duas pessoas se vissem e conversassem a milhares de quilómetros de distância. As notícias ambientais eram, porém, na sua maioria, negativas: Verne previu uma nação onde enormes cartazes de publicidade ascendiam em direcção ao céu e todas as regiões rurais estavam repletas de cabos eléctricos, como uma gigantesca teia de aranha.

Fonte: Livro «As Profecias que Abalaram o Mundo» de Tony Allan

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