O Tabu que impede que se levem a sério os Animais de Companhia

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Animais de Estimação
Animais de Estimação

O próprio estatuto dos animais de companhia assenta num tabu poderoso, que é omnipresente e em grande parte inconsciente. A característica essencial deste tabu é a ideia, definida em termos vagos, de que há alguma coisa de estranho, de perverso ou de perdulário no afecto que os homens nutrem pelos animais.

Este tabu foi recentemente estudado por James Serpell, que se dedica à investigação do comportamento animal na Universidade de Cambridge. Quando, na década de 1970, preparava o seu doutoramento, interessou-se pelo estudo das relações entre as pessoas e os seus animais de companhia. Para sua grande surpresa, verificou que tinha havido muito poucos, para não dizer que não tinha havido nenhuns, estudos científicos sobre o assunto, apesar de em mais de 50% dos lares da Europa Ocidental e dos Estados Unidos haver pelo menos um animal de companhia, incluindo nesta categoria aves e peixes. Na Comunidade Europeia, estima-se que haja 26 milhões de cães e 23 milhões de gatos de companhia. Nos Estados Unidos, há perto de 48 milhões de cães e 27 milhões de gatos, calculando-se em cerca de 10 mil milhões de dólares a despesa anual com comida para animais e cuidados veterinários. E, como salientou Nicholas Humphrey: “Nos Estados Unidos há quase tantos cães e gatos como televisores. Os efeitos da televisão estão estudados e documentados ao pormenor, mas os efeitos dos animais de companhia continuam praticamente por estudar.” A que se deve esta extraordinária cegueira da parte dos investigadores científicos?

A análise de Serpell é fascinante. Mostra que o tabu está relacionado com o grande fosso que existe entre as atitudes que temos para com os animais de companhia e para com outros animais domesticados. Muitos cães, gatos e cavalos são acarinhados e mimados, chegando os donos a pôr luto por eles quando morrem. Mas os porcos, as galinhas, as vitelas e outros animais criados em cativeiro são tratados da forma mais brutal e exploradora, privados de todo e qualquer afecto. São unidades numa linha de produção; a sua única utilidade é produzir o máximo de carne ao mínimo custo. As explorações pecuárias são o epítome do espírito mecanicista. O mesmo se passa com os animais de laboratório: são tratados como peças descartáveis, intermutáveis, para usar em experiências impiedosas.

Para justificar este tratamento, é preciso considerar os animais menos favorecidos como seres inferiores, indignos de qualquer tipo de apego sentimental. Se se considerar que os animais explorados têm algum valor intrínseco, levanta-se um conflito terrível. Uma forma de evitar tal conflito é manter os animais privilegiados e os explorados em categorias separadas dentro da nossa cabeça. Uma categoria consome comida especialmente produzida para ela; a outra entra na composição dessa comida. Mas se as emoções transbordam dos animais de companhia para os outros, a coisa complica-se. As pessoas tornam-se vegetarianas ou mesmo activistas dos direitos dos animais. A solução mais fácil está em denegrir as relações das pessoas com os seus animais de companhia.

Os preconceitos contra as relações afectivas com os animais não têm nada de novo. Em Inglaterra, por exemplo, no tempo da caça às bruxas, as relações das bruxas com animais seus “familiares”, em especial os gatos, eram consideradas perversas e malignas. Mas, nas modernas sociedades industrializadas, o fosso entre os animais de companhia e outros animais domesticados acentuou-se, com a generalização do bem-estar económico a permitir que números cada vez maiores de animais de companhia vivessem num luxo bem alimentado, sem qualquer utilidade económica, por razões puramente “subjectivas”; enquanto isso, cá fora, no mundo “objectivo”, legiões de animais menos favorecidos são criados da forma mais mecanicista possível, em explorações pecuárias e laboratórios.

A análise deixa bem clara a razão pela qual os animais de companhia não servem para as experiências mecanicistas. A Ciência institucional baseia-se no lado “objectivo” desta dicotomia, e os animais de companhia são completamente estranhos ao espírito mecanicista. Não são unidades descartáveis, antes têm personalidades individuais e estabelecem relações afectivas de longo prazo com as pessoas. Não é fácil arregimentá-los. E não estão habituados, nem eles nem os donos, a serem tratados “objectivamente” por experimentadores frios, que procuram não exteriorizar sentimentos. Vivem no mundo “subjectivo” da vida privada, por oposição ao mundo “objectivo” da Ciência.

A literatura de divulgação sobre animais de companhia não admite dúvidas sobre a importância dos laços entre os seres humanos e os animais. Aqui temos, por exemplo, um conselho convicto aos donos de animais de companhia da dó por Barbara Woodhouse, autora de vários livros de sucesso sobre treino de animais.

Animais de Estimação

Acho que temos de dar muito de nós próprios aos animais, se quisermos obter deles o melhor. E, para mais, temos de os tratar como gostaríamos de ser tratados; se queremos extrair o máximo dos nossos cães, não adianta mantê-los fechados em canis durante a maior parte das suas vidas e ficar à espera de que eles sejam inteligentes quando de lá saem. Em minha opinião, para serem companheiros autênticos, os animais têm de viver constantemente connosco e aprender as palavras e pensamentos que nós proferimos e transmitimos.

Entretanto, nos Estados Unidos, já é possível uma pessoa ir com o seu animal de companhia a sessões de aperfeiçoamento das relações entre ambos. Existem conselheiros, terapeutas e tratadores de animais de companhia, alguns dos quais até dão consultas por telefone. Entre eles destaca-se Penelope Smith, do condado de Marin, na Califórnia, que organiza cursos em que ensina a aumentar a comunicação telepática com os animais de companhia, num programa em várias fases. A sua mensagem essencial é idêntica à de Barbara Woodhouse:

Os animais percebem de facto o que nós lhes dizemos ou pensamos, desde que consigamos captar-lhes a atenção e eles estejam dispostos a ouvir (como qualquer pessoa)… O que é interessante é que quanto mais respeitamos a inteligência dos animais, falamos com eles em tom coloquial, os incluímos na nossa vida, e os tratamos como amigos, mais respostas inteligentes e calorosas costumamos obter deles.

Neste contexto, há poucas possibilidades de fazer experiências em animais de companhia, mas há muitas oportunidades de estabelecer parcerias de investigação com os animais de companhia, sem negar as relações emocionais entre animais e pessoas, antes fazendo dessa relação o essencial da investigação.

Fonte: LIVRO: «7 Experiências que podem mudar o Mundo» de Rupert Sheldrake

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