A Autoestrada da Morte

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Vista aérea dos destroços de tanques e camiões blindados iraquianos na Rodovia 8, a 8 de Março de 1991
Vista aérea dos destroços de tanques e camiões blindados iraquianos na Rodovia 8, a 8 de Março de 1991

Autoestrada da Morte ou Rodovia da Morte é o nome pelo qual ficou conhecida a autoestrada de seis faixas que liga o Kuwait e o Iraque. Oficialmente era chamada de Rodovia 80 ou Autoestrada 80. Sai de cidade do Kuwait e atravessa as cidades fronteiriças de Abdali e Safwan, seguindo até Baçorá.

Durante a ofensiva das Nações Unidas ocorrida na Primeira Guerra do Golfo, militares iraquianos em retirada foram atacados na Rodovia 80 por aviões e forças terrestres na noite de 26-27 de Fevereiro de 1991. O ataque causou a destruição de milhares de veículos, muitos ainda com ocupantes. As cenas chocantes da rodovia devastada tornaram-se as imagens mais conhecidas dessa guerra e foram citadas como factor determinante que levou o presidente americano George H. W. Bush a declarar uma trégua nas hostilidades até o dia seguinte [1]. Muitos invasores iraquianos conseguiram de facto escapar atravessando o rio Eufrates e os Serviços Secretos americanos estimaram que entre 70 mil a 80 mil militares inimigos conseguiram chegar a Basra. [2]

A autoestrada foi reparada ao final da década de 1990 e foi usada nos movimentos iniciais da invasão do Iraque em 2003 pelas forças americanas e britânicas.

Autoestradas da Morte

Os ataques americanos contra as colunas iraquianas ocorreram na verdade em duas autoestradas diferentes: entre 1.400 – 2 mil veículos foram abandonados na autoestrada principal ou autoestrada 80 no norte de Al Jahra e entre 400-700 na menos conhecida autoestrada até Baçorá, a principal fortaleza militar do sul do Iraque.

Autoestrada 80

Nesta estrada os fuzileiros navais norte-americanos tinham colocado minas anti-tanque e depois bombardearam a retaguarda de uma grande coluna de veículos do exército regular iraquiano, causando um enorme congestionamento e tornando os fugitivos alvos fáceis para os ataques aéreos. Ao término de dez horas, aviões dos fuzileiros, marinha e força aérea tinham atacado o comboio utilizando uma variedade de armas e explosivos. Alguns sobreviventes dos ataques aéreos depois tiveram de enfrentar as forças terrestres. Os veículos que conseguiram sair do congestionamento e continuaram a seguir pelo norte, foram constantemente alvejados um a um. Os destroços encontrados ao longo da autoestrada consistiam em poucos veículos militares (cerca de 28 tanques e outros blindados). A maior parte era de veículos civis como automóveis e autocarros. Dentro dos mesmos havia muitos produtos saqueados no Kuwait.

Alguns corpos encontrados dentro dos veículos
Alguns corpos encontrados dentro dos veículos

O número total de mortos pelos ataques é desconhecido e permanecem controvérsias sobre isso. Algumas estimativas independentes chegaram a 10 mil ou dezenas de milhares de baixas, mas isso é altamente improvável. De acordo com levantamentos de 2003 do projecto para Pesquisa de Defesas Alternativas, provavelmente entre 7.500 – 10 mil pessoas formavam a principal caravana mas após o início dos ataques, acredita-se que a maior parte abandonou os veículos em pânico e escapou pelo deserto ou pântanos circundantes (entre 450-500 foram feitos prisioneiros). Devido a isso, o número de mortos no ataque teria ficado por volta de 200 a 300 (conforme noticiou Michael Kelly entre outros), mas o mais plausível é que o número efectivo de mortos nesse ataque tenha ficado entre 500-600. [3]

Autoestrada 8

Na autoestrada 8 em direcção ao leste, as forças iraquianas tinham-se concentrado tentando organizar-se para a luta ou simplesmente fugirem. Ali estava a elite da primeira divisão blindada da Guarda Republicana do Iraque (Divisão Hamurabi) [4], que deveria espalhar-se por uma grande área para lutar contra pequenos grupos de americanos em terra, oriundos do nono batalhão de artilharia e um batalhão de helicópteros AH-64 Apache comandados pelo general Barry McCaffrey. Centenas de veículos iraquianos, a maioria militar, foram sistematicamente destruídos em pequenos confrontos ao longo de 80 km, tanto no asfalto como em pontos de travessia do deserto.

Esse confronto, conhecido pela Imprensa e público apenas duas semanas depois, ainda permanece obscuro e a maioria das imagens de devastação, atribuídas ao bombardeamento da autoestrada 80, na verdade são da autoestrada 8 [5]. O projecto para Pesquisa de Defesas Alternativas estimou o número de mortos entre 300 a 400 ou mais, o que elevou o número total nas duas autoestradas para entre 800 a 1000 mortos [6]. Uma grande coluna remanescente da Divisão Hamurabi que tentava recuar para Bagdad, também foi combatida e destruída poucos dias depois (2 de Março), já dentro do território iraquiano, pelas forças do general McCaffrey, numa controversa acção pós-guerra conhecida como Batalha de Rumaila. [7]

Controvérsias

A ofensiva das forças de coligação na autoestrada 80 é questionada e ponto de controvérsia, com alguns observadores afirmando que as forças foram desproporcionais e que os iraquianos retiravam-se do Kuwait (em atenção tardia a Resolução 660 do Conselho de Segurança das Nações Unidas de 2 de Agosto de 1990), além do que as colunas traziam, kwaitianos capturados (aparentemente para serem usados como reféns) [8] bem como civis refugiados que incluíam mulheres e crianças (a maioria de famílias pró-Iraque, militantes da Organização para Libertação da Palestina e colaboracionistas kwaitianos que tinham saído do país quando foi efectuada a expulsão dos palestinianos do Kuwait no início de Março). O procurador geral americano Ramsey Clark alegou que os ataques violaram a Terceira Convenção de Genebra, que determinou a ilegalidade de assassínios de soldados que não estão em combate [9]. A lei internacional determina expressamente que forças militares em retirada são alvos na Guerra para evitar que se reagrupem e contra-ataquem (apenas militares que se rendem são protegidos pela Convenções da Haia (1899 e 1907). Ainda foi denunciado que os veículos de combate americanos abriram fogo contra um grupo de mais de 350 soldados iraquianos desarmados que se tinham rendido a um posto avançado após escaparem do ataque na autoestrada 8, em 27 de Fevereiro. Essas afirmações foram publicadas por Seymour Hersh. [10]

O general Norman Schwarzkopf Jr. comentou em 1995: [11]

“A primeira razão do porquê que foi bombardeada a autoestrada que saía do norte do Kuwait é que havia muitos equipamentos militares em deslocação por ali, e eu tinha ordens dos meus superiores para destruir o maior número de material bélico iraquiano que pudesse. A segunda razão é que aquelas pessoas não eram um bando de inocentes a atravessar a fronteira para o Iraque. Eram estupradores, assassinos e criminosos que saquearam e pilharam o centro da cidade do Kuwait e tentavam voltar para o seu país antes de serem apanhados.”

Destroços de veículos abandonados durante a guerra
Destroços de veículos abandonados durante a guerra

De acordo com Colin Powell, chefe da comissão de comandantes e futuro secretário de estado americano, as cenas da carnificina do tipo “galeria de tiro” foram a razão da interrupção das hostilidades da Guerra do Golfo após a campanha da libertação do Kuwait. Ele escreveu mais tarde na sua autobiografia “My American Journey” que “a cobertura televisiva começava a mostrar-nos como carniceiros num matadouro”.

De acordo com o Instituto de Pesquisa de Política Estrangeira, contudo, “as aparências eram enganosas”: [12]

“Estudos do pós-guerra determinaram que a maioria dos destroços na autoestrada de Baçorá foram abandonados pelos iraquianos antes de serem alvejados e que na verdade os próprios inimigos os incendiaram. Além disso, as pesquisas de opinião mostraram que o apoio dos americanos não diminuíra em função das imagens mostradas.”

O jornalista fotográfico Peter Turnley publicou imagens de enterros em massa. [13] Turnley escreveu:

“Eu voei da minha casa em Paris até Riad quando a guerra em terra começou e cheguei à autoestrada da morte na manhã do cessar fogo. Outros poucos jornalistas tinham chegado para verem aquele cenário incrível, que mostrava a carnificina ocorrida. Nesse espaço da autoestrada onde carros e camiões com as rodas para cima a girar e com os rádios ainda a funcionar, os corpos se enfileiravam ao longo da estrada. Muitos perguntaram quantos tinham morrido na guerra contra o Iraque e isso nunca foi muito bem respondido. Naquela primeira manhã, eu vi e fotografei militares americanos a enterrar muitos corpos em várias covas. Eu não assisti às imagens na televisão sobre isso. E não me lembro de ter visto muitas fotos publicadas sobre essas mortes.”

A revista Time concluiu: [14]

“Após a guerra, alguns correspondentes tinham encontrado carros e camiões com corpos carbonizados, mas também muitos veículos abandonados. Os seus ocupantes tinham fugido a pé, e os aviões americanos não os alvejaram. Alguns civis kuwaitianos que tinham sido raptados pelos iraquianos em fuga provavelmente morreram, o que torna a autoestrada da morte uma verdadeira tragédia. O que prova uma vez mais que, apesar da “Era das Armas de Precisão“, a Guerra continua a ser um inferno, mesmo que algumas regras se tenham tornado mais civilizadas, a coisa mais humana a fazer é terminar com as Guerras o mais rápido possível.”

NOTAS:

[1] Seymour Hersh, OVERWHELMING FORCE: What happened in the final days of the Gulf War?, The New Yorker, 22 de maio de 2000

[2] Hammurabi Division, GlobalSecurity.org

[3] The Wages of War: Iraqi Combatant and Noncombatant Fatalities in the 2003 Conflict. Appendix 2: Iraqi Combatant and Noncombatant Fatalities in the 1991 Gulf War

[4] Hammurabi Division, GlobalSecurity.org

[5] Scoop Images: The Last Iraq War Looked Like This, Scoop, 27 de janeiro de 2003

[6] The Wages of War: Iraqi Combatant and Noncombatant Fatalities in the 2003 Conflict. Appendix 2: Iraqi Combatant and Noncombatant Fatalities in the 1991 Gulf War

[7] Hammurabi Division, GlobalSecurity.org

[8] Death Highway, Revisited, TIME, 18 de março de 1991

[9] Elaine Sciolino (22 de Fevereiro de 1998). The World: Theater of War; The New Face of Battle Wears Greasepaint The New York Times.

[10] Seymour Hersh, OVERWHELMING FORCE: What happened in the final days of the Gulf War?, The New Yorker, 22 de maio de 2000

[11] Giordono, Joseph. “U.S. troops revisit scene of deadly Gulf War barrage”, Jornal Stars e Stripes, 23 de Fevereiro de 2003.

[12] David D. Perlmutter, Photojournalism and Foreign Affairs, Instituto de Pesquisa de Política Estrangeira, 27 de Janeiro de 2005

[13] The Unseen Gulf War. Peter Turnley, Digital Journalist, Dezembro de 2002

[14] Death Highway, Revisited, TIME, 18 de Março de 1991

Fonte: Wikipédia

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