As Fontes da História Atlante (Os Escritos de Platão)

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A Atlântida descrita por Platão
A Atlântida descrita por Platão

O «Timeu» e o «Crítias» de Platão constituem não só o mais completo mas também, de longe, o mais importante corpo de evidência histórica que possuímos relativamente à Atlântida. Uma vez que as traduções disponíveis das passagens das obras de Platão que fazem referência à Atlântida parecem deixar bastante a desejar, compilamos cuidadosamente uma nova versão das mesmas, baseando o nosso trabalho sobre o «Timeu» nas traduções de JowettOs Diálogos de Platão») e R. D. Archer-Hind e fundando a nossa versão do «Crítias» na de Abbé JoliboisDissertation sur Atlantide», Lyons, 1846) e na excelente tradução francesa de P. NegrisLa Question de l’Atlantis de Platon», Congrès internat. d’archéol., Atenas, 1905). Através de uma cuidadosa colação destas traduções, cremos ter produzido um relato que se revelará mais útil, de um modo geral, para os estudantes do problema atlante do que qualquer outro actualmente existente em inglês. Este relato não deve ser encarado como uma tradução, mas sim como uma compilação de traduções da narrativa platónica sobre a Atlântida. Ao mesmo tempo, tomamos os devidos cuidados para evitar violentar de algum modo o original, que, não está inteiramente transmitido, embora não tenha sido omitido qualquer facto importante.

O relato de Platão do «Timeu» é em forma de diálogo. Sócrates, Hermócrates, Crítias e Timeu reuniram-se com o intuito de estabelecer um debate filosófico e Sócrates recorda a Crítias que lhes prometeu uma lenda que provasse ser aceitável “para o festival da deusa”.

Hermócrates: Na verdade, Sócrates, como Timeu disse, faremos o melhor possível, e não procuraremos pretextos para fugir à promessa. Ontem mesmo, ao sair daqui, mal chegámos a casa de Crítias, onde estamos hospedados, discutimos esta mesma questão. Crítias contou-nos então uma história da tradição antiga, que é melhor repetires agora, Crítias, para que Sócrates possa ajudar-nos a avaliar se servirá os nossos objectivos.

Crítias: Assim farei, se Timeu estiver de acordo.

Timeu: Estou perfeitamente de acordo.

Sócrates
Sócrates

Crítias: Escuta então, Sócrates, uma história que, por mais estranha que possa ser, é perfeitamente verdadeira, como afirmou uma vez Sólon, o mais sábio dos sete. Este era parente e amigo de Dropides, o meu bisavô, como ele próprio nos diz nos seus poemas, e Dropides garantiu ao meu avô, Crítias, que depois em velho nos contou a nós, que Atenas realizou grandes e mara­vilhosas proezas em tempos antigos, que, com o decurso do tempo e o passar das gerações, desapareceram da memória. A mais admirável é uma que seria apropriada para narrarmos, e assim pagar ao mesmo tempo a nossa dívida de gratidão para contigo e também prestar homenagem à deusa por altura do seu festival, com um cântico em sua honra.

Sócrates: Uma proposta capital. Mas que proeza é essa que Crítias descreveu, segundo o testemunho de Sólon, que a nossa cidade realizou em tempos antigos embora a História não a tenha registado?

Crítias: Vou contar-vos uma velha história que ouvi de um homem idoso, pois Crítias tinha então quase noventa anos de idade, enquanto eu tinha cerca de dez. Era o “dia da criança” das Apatúrias [1] e, como era costume, os rapazes gozavam o seu entretenimento e os nossos pais davam-nos recompensas por declamarmos poesia. Recitaram-se muitos poemas de vários autores e, uma vez que a poesia de Sólon tinha a virtude da novidade, muitas das crianças cantaram os seus poemas. Depois um dos nossos parentes observou (quer acreditasse realmente nisso ou quisesse apenas agradar a Crítias) que considerava Sólon não apenas o mais sábio dos homens mas também o maior de todos os poetas. O velho ficou satisfeito e disse, com um sorriso:

—  Sim, Amimandro, se ele não tivesse considerado a poesia apenas um passatempo e se se tivesse dedicado seriamente a ela, e se tivesse completado a obra que trouxe do Egipto em vez de se sentir compelido a deixá-la por escrever devido aos problemas que encontrou aqui ao regressar, creio que nem Hesíodo, nem Homero, nem nenhum outro poeta teriam gozado de tanta fama como ele.

—  Que obra era essa, Crítias? — perguntou Amimandro.

—  Referia-se a uma proeza grandiosa — respondeu ele, — uma proeza que merecia ser exaltado por todo o mundo, um grande feito que a nossa cidade realizou, mas, devido ao tempo e à morte dos seus autores, a história não chegou até aos nossos dias.

—  Conta-nos do princípio — pediu o outro, — a história que Sólon contou e de quem e como a ouviu como verdadeira.

Delta do Nilo
Delta do Nilo

—  Há no Egipto — disse Crítias —, no Delta, no ponto em que o Nilo se divide, uma província chamada Saís, e a principal cidade desta província chama-se também Saís, terra natal de Amasis, o rei. A fundadora desta cidade foi uma deusa cujo nome, na língua egípcia, é Neith, e em grego, como dizem os egípcios, Atena. Os habitantes de Saís são grandes amantes dos atenienses e afirmam ter connosco um certo parentesco. Quando Sólon esteve nesta cidade, foi recebido pelo seu povo com honrarias e, quando interrogou sobre coisas antigas os sacerdotes mais versados no assunto, descobriu que nem ele, nem nenhum outro grego, sabia nada sobre essas questões. E, quando quis levá-los a falar da antiguidade, contou-lhes as histórias mais antigas da Grécia, a de Foroneu, que se diz ter sido o primeiro homem, e de Niobe, e a lenda de Deucalião e Pirra, e de como sobreviveram ao dilúvio, e traçou a genealogia dos seus descendentes e tentou, calculando as gerações, contar o número de anos decorridos após os eventos que relatava. Depois, um dos sacerdotes, um homem bem avançado em anos, disse:

—  Oh, Sólon, Sólon, vós, os gregos, sois apenas crianças, e nenhum grego é um homem velho.

E quando Sólon ouviu isto, perguntou:

—  O que queres dizer?

E o sacerdote respondeu:

Sois todos jovens na alma; pois não tendes nenhuma tradição antiga, nenhuma crença antiga nem conhecimento encanecido pela idade. E a razão é esta: muitas foram as destruições da humanidade, e muitas serão ainda. As maiores pelo fogo e pela água, mas para além dessas há outras menores. Pois, na verdade, a história que também se conta entre vós, de como Faetonte preparou a carruagem do pai e, ao não conseguir seguir pelo caminho do seu pai, queimou todas as coisas à face da terra e foi ele próprio atingido e morto por um relâmpago; esta história pode parecer uma fábula; mas a verdade nela oculta está relacionada com um desvio dos corpos que se movem nos céus em torno da Terra, pelo que de longe a longe ocorre uma destruição das coisas que se encontram à face da Terra, através do fogo. Assim, aqueles que vivem em montanhas e locais elevados e em sítios secos perecem mais facilmente do que aqueles que vivem perto de rios e do mar. O Nilo, que é o nosso defensor, salva-nos também desta catástrofe libertando as suas águas, mas, quando os deuses lançam uma inundação sobre a terra, purificando-a com as águas, os que estão nas montanhas salvam-se, os vaqueiros e pastores, mas os habitantes das cidades no teu país são arrastados pelos rios para o mar. Mas aqui a água nunca cai dos céus sobre os campos, mas ocorre o inverso, e as águas sobem naturalmente a partir de baixo. Por conseguinte, as histórias aqui preservadas são as mais antigas de que há registo. A verdade é que em todos os locais, onde grandes frios ou calores não o proíbam, há sempre seres humanos, ora mais, ora menos. Assim, tudo o que tenha ocorrido em tempos antigos, notável ou não, quer seja em Atenas ou no Egipto, ou em qualquer outro local conhecido, encontra-se aqui registado por escrito, no nosso templo. Mas com vocês e outras nações, mal o Estado acaba de ser descoberto, bem como o uso das letras e das outras comodidades que as cidades exigem, e depois do período de tempo habitual, como uma doença recorrente, a torrente dos céus precipita-se sobre vós e deixa apenas os iletrados e os ignorantes, de tal modo que é como se nascêsseis de novo jovens, sem conhece nada do que aconteceu em tempos antigos, quer no nosso país, quer no vosso. [2]

“Por exemplo, estas genealogias dos teus compatriotas, Sólon, que acabas de relatar, são pouco mais do que histórias de crianças. Pois, em primeiro lugar, vós recordais apenas um dilúvio, quando houve muitos antes desse; e ignorais agora que viveu em tempos no vosso país a mais bela e nobre raça entre a humanidade, da qual descendeis, tu e tudo o que a vossa cidade é agora, a partir de uma pequeníssima semente do passado que restou. Não o sabeis, porque os sobreviventes viveram e morreram durante muitas gerações sem deixar nada por escrito. Pois em tempos, Sólon, muito antes da maior destruição causada pelas águas, aquela que é agora a cidade dos atenienses foi a primeira, tanto na Guerra como em tudo o resto, e as suas leis eram extremamente justas sobre todas as cidades. Os seus feitos e o seu governo, diz-se, foram os mais nobres de todos cujo relato chegou aos nossos ouvidos.”

E Sólon disse que, ao ouvir isto, ficou estupefacto e rogou com urgência ao sacerdote que lhe relatasse do princípio ao fim tudo sobre estes antigos cidadãos.

E assim o sacerdote disse:

—  Oh Sólon, contar-te-ei por ti e pela tua cidade, e pela honra da deusa que é dona e criadora e instrutora, tanto da tua cidade como da nossa, pois ela fundou a tua mil anos antes, tirando a vossa semente da Terra e de Hefesto, e a nossa numa época posterior. E a data da fundação da nossa cidade está registada nos nossos escritos sagrados como tendo sido há oito mil anos. Mas, relativamente aos cidadãos de Atenas de há nove mil anos, vou informar-te brevemente sobre as suas leis e as mais nobres das proezas que realizaram. A verdade exacta relativamente a tudo isto estudá-la-emos depois, na devida altura, examinando à vontade os registos concretos.

“Observa as leis helénicas em comparação com as do Egipto, pois encontrarás aqui, nos dias de hoje, muitos exemplos das leis que existiam na altura entre vós: primeiro, a separação da casta dos sacerdotes das restantes; a seguir, a distinção dos artífices, em que cada tipo trabalha na sua própria arte e não se mistura com os outros; e a classe dos pastores, dos caçadores e dos lavradores está também à parte; e também a dos guerreiros, como certamente reparaste, é aqui separada de todas as outras classes; pois espera-se deles que estudem a arte da Guerra e nada mais. Vê também o costume de os armar com lanças e escudos, pois nós fomos o primeiro povo da Ásia [3] a armar-se a si próprio, segundo os ensinamentos da deusa, tal como ela vos ensinou primeiro a vós, nesse vosso país. Também em relação ao conhecimento, podes ver como a nossa lei é cautelosa nos seus princípios básicos, examinando as leis da natureza até chegar à adivinhação e à medicina, cujo objectivo é a Saúde, retirando destes estudos divinos lições úteis para as necessidades humanas e acrescentando-lhes todas as Ciências relacionadas. Da mesma forma a deusa vos estabeleceu quando fundou primeiro a vossa nação, fixando o local onde nascestes porque viu que o clima temperado das estações tornaria o seu povo mais inteligente. Como a deusa era patrona da Guerra e da erudição, seleccionou o local que produziria homens mais parecidos com ela própria, e nesse local plantou a vossa raça. Assim, pois, viveu o vosso povo, governado por leis como as que descrevi e ainda melhores, ultrapassando em excelência todos os homens.”

“Muitos e poderosos são os feitos da vossa cidade realizados para admiração da humanidade. E há um que, pela sua grandeza e nobreza, se sobrepõe a todos. Pois as nossas crónicas falam de um grande adversário que a vossa cidade conquistou em tempos antigos, uma potência que avançou com injustificada insolência sobre toda a Europa e a Ásia, partindo do oceano Atlântico. Pois nessa época era possível atravessar o mar, uma vez que existia uma ilha em frente da boca do estreito, que se chama, como vós dizeis, as Colunas de Hercules. Essa ilha era maior do que a Líbia e a Ásia juntas [4]; e, a partir dela, os marinheiros desses tempos tinham passagem para as outras ilhas, e destas ilhas para todo o continente oposto, que limita esse oceano justamente assim considerado. Pois essas regiões dentro do estreito mencionado parecem ser apenas uma baía com uma entrada estreita; mas é na verdade um oceano, e a terra que o rodeia pode, com grande verdade e propriedade, ser chamada continente. Nesta ilha, Atlântida, surgiu uma grande e maravilhosa potência de reis, que dominavam toda a ilha e muitas outras, e partes do continente; e, para além disso, a Leste do estreito, dominavam a Líbia até ao Egipto, e a Europa até às fronteiras da Etrúria. Assim, esta potência reuniu todas as suas forças e procurou, de um só golpe, escravizar o vosso país e o nosso e toda a região no interior do estreito. Então, oh Sólon, o poder da tua cidade brilhou nos olhos de todos os homens, gloriosos em valor e força. Pois, sendo os melhores à face da terra em coragem e nas artes da Guerra, por vezes a vossa cidade liderou os helenos, outras vezes ergueu-se forçosamente isolada quando todos os outros desertaram; e, depois de passar pelos maiores perigos, ela venceu os invasores e triunfou sobre eles, e salvou da escravidão as nações que ainda não estavam escravizadas; quanto aos restantes, os povos que viviam deste lado das Colunas de Hércules, a vossa cidade libertou-os com mão generosa. Mas, mais tarde, depois de imensos terramotos e inundações, abateu-se um dia e uma noite de destruição; e os guerreiros do teu país foram, como um só, engolidos pela terra, e do mesmo modo a ilha da Atlântida afundou-se sob o mar e desapareceu. Por conseguinte, até hoje, o oceano nesse local é intransponível e imperscrutável, bloqueado por baixios causados pela ilha quando se afundou.”

Colunas de Hércules
Colunas de Hércules

Ouviste esta breve narrativa, Sócrates, que o velho Crítias afirmava ter ouvido de Sólon, e quando falavas ontem da constituição e dos homens que descreveste, fiquei estupefacto pois fizeste-me recordar a história que acabo de te contar, e observei que, por alguma coincidência miraculosa, a maior parte do teu relato vem exactamente ao encontro da descrição de Sólon. No entanto, não quis dizer nada na altura, pois, após tanto tempo, a memória podia falhar-me. Decidi portanto que não devia falar do assunto enquanto não tivesse reavivado toda a história por mim mesmo. Assim, aceitei de bom grado a tarefa que nos impuseste ontem, pensando que a parte mais árdua desses empre­endimentos, ou seja, encontrar uma história que se adequasse às tuas intenções, seria assim relativamente fácil. Então, tal como Hermócrates disse, assim que partimos daqui ontem comecei a repetir a lenda aos nossos amigos, tal como a recordava; e quando cheguei a casa recuperei-a quase na totalidade, reflectindo sobre ela durante a noite. Como é verdadeiro o provérbio que diz que tudo o que aprendemos na infância nos fica maravilhosamente gravado na memória! Não sei se conseguiria recordar na totalidade tudo o que aqui ouvi ontem; mas, embora tenha passado tanto tempo desde que ouvi esta história, muito me surpreenderia se me tivesse escapado um único pormenor. Foi com grande prazer infantil que a ouvi na altura, e o velho homem teve todo o prazer em me instruir (pois fiz-lhe muitas perguntas); de tal modo que ficou indelevelmente gravada na minha mente, como aquelas imagens encáusticas que não podem ser obliteradas. E, logo pela manhã, narrei esta história aos outros, para que pudessem partilhar a minha afluência de palavras. Assim, regressando agora ao objectivo desta nossa conversa, estou preparado para falar, Sócrates, não só em termos gerais, mas entrando em detalhes, tal como os ouvi. Os cidadãos e a cidade que ontem nos descreveste, em jeito de fábula, vamos transpô-los para a esfera da realidade e para o nosso próprio país, e suporemos que a Atenas da antiguidade é o teu Estado ideal, e que os cidadãos que imaginaste são os verdadeiros antepassados dos nossos, de quem o sacerdote falou. Corresponderão de modo exacto, e não erraremos se dissermos que eram os homens que viveram nesses dias. E, dividindo o trabalho entre nós, conseguiremos realizar de modo apropriado as tuas ordens. Por isso deves decidir, Sócrates, se esta nossa história te satisfaz, ou se deveremos procurar outra em seu lugar.

Sócrates: Como poderemos encontrar algo melhor, Crítias? É particularmente adequada para este festival da deusa, graças à sua ligação com ela; e o facto de não se tratar de uma história fictícia, mas sim verdadeira, é certamente um ponto a seu favor. Onde encontraremos outros cidadãos assim, se rejeitarmos estes? Não pode ser; portanto, sob os auspícios da Sorte, prossegue, enquanto eu, para compensar o meu discurso de ontem, terei por meu lado o privilégio de ouvir em silêncio [5].

E é tudo, quanto ao Timeu.

A próxima passagem das obras de Platão que faz referência à Atlântida é o «Crítias», que pretende ser um relato, efectuado por uma pessoa desse nome, das circunstâncias da vida na Atlântida, tal como Sólon contou a Dropides, o bisavô do orador [6]. Nove mil anos antes do tempo de Sólon, ou seja, por volta de 9600 a. C., rebentou uma Guerra entre as nações por trás das Colunas de Hércules e as nações para além delas. Atenas colocou-se do lado dos povos do Oriente, e os reis da ilha da Atlântida lideravam as raças ocidentais. A Atlântida era uma ilha maior do que a Ásia (Ásia Menor) e a Líbia (norte de África) juntas, mas fora engolida por uma convulsão da terra e a sua localização era agora assinalada por perigosas areias movediças que tornavam as rotas marítimas nessa região impossíveis de navegar.

Neste período, Atenas possuía extensos territórios, as suas terras eram férteis e os seus habitantes numerosos. No que diz respeito aos atlantes, Crítias explica aos ouvintes que tem de traduzir os nomes dos seus heróis para grego. Sólon, que escrevera um relato da sua história em verso, descobrira que os sacerdotes de Saís já tinham dado a estes nomes um carácter egípcio. Tomaria portanto uma liberdade semelhante, mas mantendo o seu significado. O seu antepassado possuíra um relato destas coisas por escrito, mas ele, Crítias, via-se obrigado a confiar apenas na memória para narrar os factos que ouvira na infância e que o tinham impressionado sobremaneira.

Poseidon
Poseidon

Os deuses tinham dividido a terra em porções, grandes e pequenas, e a Poseidon ou Neptuno, deus do mar, fora atribuída a ilha da Atlântida, onde ele gerou filhos com uma mulher mortal. A ilha, que não era montanhosa perto da orla costeira, tinha no centro uma planície, que se diz não ter tido igual em termos de beleza e fertilidade. A cerca de dez quilómetros desta planície erguia-se uma pequena montanha, onde vivia um habitante aborígene ou autóctone, chamado Evenor, que, com a sua mulher, Leucipa, teve uma filha chamada Clito. Esta rapariga, depois da morte dos pais, desposou Poseidon, que circundou então a montanha com cinturas de terra e valas. As cinturas de terra eram duas, e as três valas, que se encheram com água do mar, estavam colocadas a igual distância umas das outras, impossibilitando assim o acesso à montanha. A arte da navegação era, nesta época, desconhecida. Poseidon colocou também na ilha central dois cursos de água, um quente, o outro frio, que auxiliavam tremendamente a sua fertilização.

O deus criou neste local encantado cinco pares de crianças do sexo masculino, gémeos, dos quais era pai. Dividiu a Atlântida em dez partes. Concedeu ao primogénito os domínios da mãe, que eram os maiores e mais bem situados, e estabeleceu os restantes príncipes nas outras regiões da Atlântida, como chefes de diferentes nações. O nome do filho mais velho era Atlas, que era rei de toda a ilha, e foi dele que o oceano Atlântico retirou o seu nome. O seu irmão gémeo chamava-se, na língua atlante, Gadiro e, em grego, Eumelo. A sua porção de território ficava na extremidade da ilha, perto das Colunas de Hércules, e essa região é conhecida desde então como Gadírica. O par de gémeos seguintes chamavam-se Anferes e Evaimão, e os outros, respectivamente, Mneseu, Autóctone, Elasipo, Mestor, Azaes e Diaprepes. Estes príncipes reinaram em prosperidade na ilha durante vários séculos e estabeleceram uma supremacia no meio do oceano sobre muitas outras ilhas, incluindo aquelas que se situam perto do Egipto e daTirrénia.

Os descendentes de Atlas mantiveram o poder soberano durante vários séculos, numa sucessão ininterrupta. As suas riquezas eram tão grandes que ultrapassavam as de todos os reis que tinham vivido em séculos precedentes, e nenhum monarca de eras posteriores se pôde comparar a eles neste aspecto. Graças às suas sábias diligências, encheram a capital e o país com tudo o que era útil e agradável à existência. O seu poder permitia-lhes obter todos os produtos de terras estrangeiras. A sua ilha fornecia-lhes todo o tipo de pedras e minerais e, acima de tudo, aquele mineral conhecido como oricalco (cobre da montanha), o mais precioso, a par do ouro, de todos os metais. A ilha produzia também em abundância todo o tipo de madeira adequada para a construção de edifícios. Alimentava inúmeras manadas de animais, tanto domésticos como selvagens, e grande número de elefantes. Estes encontravam muita comida nos pântanos, lagos e rios, nas planícies e nas montanhas. O solo produzia também em abun­dância raízes, madeira, sucos, flores e frutos, o doce sumo das uvas e milho, todos os alimentos desejáveis, e ainda vegetais na estação própria. Árvores frondosas abrigavam o seu povo feliz, e frutos diversos saciavam a sua fome e a sua sede, especialmente um que tinha uma casca dura e fornecia tanto polpa como bebida e unguento. Numa palavra, encontrava-se nesta ilha, que tão desgraçadamente desapareceu, tudo o que podia satisfazer o corpo, o espírito, e produzir devoção para com os deuses.

Com estas riquezas naturais, os atlantes construíram templos, palácios, pontes e aproveitaram as águas dos fossos que contornavam a antiga metrópole num círculo triplo. Começaram por construir pontes sobre os fossos de água do mar e outra que conduzia ao palácio real. Aumentaram este edifício, em tamanho e beleza, a cada reinado sucessivo, e abriram um canal desde o mar, através das zonas de terra, com cem metros de largura, cerca de trinta metros de profundidade e aproximadamente cem quilómetros de comprimento. Na extremidade desta via marítima, onde até as maiores embarcações podiam navegar, construíram um porto. As duas faixas de terra eram atravessadas por grandes canais, pelos quais um trirreme ou um galeão de três conveses podia passar de uma zona de mar para a outra. As pontes pelas quais se fazia a comunicação entre as zonas de terra eram suficientemente altas para permitir a passagem das embarcações, e eram cobertas. A primeira faixa de mar tinha cerca de quinhentos metros de largura, a segunda cerca de trezentos e cinquenta e a terceira, que circundava a ilha, cerca de cento e oitenta metros de largura.

O diâmetro da ilha onde se erguia o palácio era de cinco estádios, ou aproximadamente mil metros. A ilha, e cada uma das cinturas de terra, estavam cercadas por muralhas de pedra. À entrada das pontes havia portões, encimados por torres de defesa. A ponte na entrada principal tinha cerca de trinta metros de largura. A pedra de que eram feitas estas construções imensas era extraída na ilha, e havia-a de cor branca, negra e vermelha. As muralhas que circundavam a zona exterior estavam cobertas por uma leve camada de bronze, as do interior da cidade tinham placas de estanho e as muralhas da cidadela estavam forradas a oricalco.

O palácio no interior da cidadela estava disposto da seguinte maneira: no meio, na parte mais inacessível, ficava o Templo de Clito e Poseidon, reluzente com ouro. Aqui, os descendentes dos primeiros atlantes reuniam-se todos os anos para oferecer sacrifícios piedosos aos deuses. O Templo de Poseidon tinha cerca de cento e oitenta metros de comprimento, mais de um hectare de área e uma altura proporcional ao seu comprimento e largura. Mas a sua arquitectura era bárbara. Todo o exterior estava decorado com prata, os pináculos cintilavam com ouro e a abóbada interior estava coberta de marfim, ouro, prata e o cintilante oricalco. Mas o oricalco prevalecia na decoração das paredes interiores, dos painéis e das estátuas, embora houvesse também estátuas de ouro puro. Poseidon era aqui representado de pé na sua carruagem, segurando nas rédeas de corcéis alados. À sua volta reunia-se uma centena de Nereides montadas em golfinhos, e outras esculturas contíguas representavam as princesas e príncipes da linhagem real, e outras efígies ou dádivas votivas feitas pelos reis e pelo povo do Império Atlante. O altar dos sacrifícios, pela sua grandeza e beleza, era digno da magnificência do Templo, bem como o resto do edifício real.

Em várias partes da cidade havia nascentes de água quente e fontes de água fria, que fluíam ambas com abundância. Foram construídos grandes banhos públicos, alguns a céu aberto, outros cobertos e rodeados de paredes, como devem ser os banhos quentes para utilizar no Inverno. Estes eram os banhos para a família real, outros eram reservados para as mulheres, e até os cavalos e outros animais domésticos tinham piscinas próprias. Cada banho foi construído com a devida atenção a questões de decência e à conveniência das várias classes sociais servidas.

Cada uma das duas cinturas da cidade estava repleta de templos, santuários, jardins e ginásios. Perto do centro da ilha central erguia-se um grande hipódromo circular, com cento e oitenta metros de diâmetro. Em volta deste hipódromo estavam dispostas as residências dos funcionários e guardas da corte. Os soldados da guarda real residiam perto do castelo, em torno da montanha que este encimava, mas os de maior confiança tinham alojamentos dentro do próprio castelo, perto dos apartamentos dos príncipes. As docas estavam cheias de trirremes, e bem equipadas com tudo o que era necessário para as viagens por mar.

Ao passar pelos portões da cintura exterior, encontrava-se uma muralha que começava na costa e circundava a ilha e as suas cinturas de terra ao longo de uma distância superior a dois quilómetros e meio, até se fechar do outro lado do canal de comunicação. Todo o espaço assim envolvido estava cultivado. A parte voltada para o mar estava coberta de casas e armazéns. O golfo estava pontilhado de embarcações e os molhes apinhados de mercadores de todas as partes, que iam e vinham dentro do porto, com um clamor contínuo.

Vista de fora, a ilha apresentava um aspecto montanhoso, especialmente no lado voltado para o mar. À volta da cidade real estendia-se uma planície nivelada, igualmente rodeada de montanhas, excepto na costa. A ilha estava voltada para Sul [7]. Os locais mais elevados eram as únicas partes onde estava exposta à violência dos ventos. As nossas montanhas dão-nos apenas uma vaga ideia das montanhas dessa ilha. As suas alturas majestosas, as cadeias contínuas, as florestas densas e emaranhadas que as cobriam, despertavam a mais viva admiração. As suas encostas estavam cobertas de pequenas cidades, ricas e populosas, e diversificadas por rios, lagos e pradarias, fornecidas de alimento suficiente para um número infinito de animais selvagens. Nestas florestas encontrava-se todo o tipo de madeiras úteis.

Jardins da Atlântida
Jardins da Atlântida

A ilha tinha, ao longo da costa, um aspecto alongado, mas o canal e os fossos de mar faziam com que perdesse um pouco dessa aparência. O canal tinha uma profundidade, comprimento e largura incríveis. Quando comparamos esta obra com outros exemplos da actividade humana, a mente recusa-se a acreditar que fosse obra do homem. Fluía através do território por uma distância superior a mil e quinhentos quilómetros, e recebia todos os cursos de água que desciam das montanhas, atravessando a cidade com vários canais mais pequenos, que se uniam onde desaguava no mar. Os seus afluentes serviam para o transporte de madeira e das colheitas, e proporcionavam incontáveis meios de comunicação interior. O solo produzia duas colheitas anuais, de todas as variedades de frutas e cereais. No Inverno, pelos auspícios dos deuses, o solo era protegido das chuvas e das inundações.

O território da planície fornecia sessenta mil soldados. Estava dividido em cantões, cada um com cerca de trinta quilómetros quadrados, e cada cantão fornecia um contingente armado e nomeava o seu próprio líder. O território montanhoso fornecia uma hoste inumerável de guerreiros. A lei determinava que o chefe de cada cantão devia fornecer dez carros de combate, cada um com dois cavalos e dois homens de cavalaria, com um condutor, para permitir aos soldados lutarem a pé se fosse necessário. Devia também alistar dez soldados de infantaria fortemente armados, dois arqueiros, dois fundeiros, três lançadores de pedras e quatro marinheiros, estes últimos como contribuição para tripular uma frota de vinte mil embarcações. Isto aplicava-se apenas à parte régia da Atlântida. As outras nove partes do Império (as ilhas?) tinham uma economia militar separada.

Em relação ao governo, cada um dos doze reis era monarca absoluto na sua própria ilha. Mas a sua administração e as relações entre eles eram governadas pelas instruções dos antigos governantes atlantes, e estavam gravadas numa coluna de oricalco situada no centro da ilha, no Templo de Poseidon. Era aí que se reuniam uma vez de seis em seis anos para deliberar sobre as questões públicas e examinar todos os assuntos urgentes com devota atenção, julgando e condenando os prevaricadores. Antes de ter início o tribunal, eram trazidos dez touros para a zona sagrada. Cada rei jurava apanhar e oferecer um destes touros a Poseidon sem empregar o auxílio do ferro. Depois de apanharem os animais, estes eram levados até à coluna gravada e aí imolados. Depois de terminar a cerimónia, os reis passavam os membros de cada touro pelo fogo, efectuando uma oferenda de sangue e ensopando a coluna nele. As vítimas eram depois totalmente consumidas pelo fogo. Mais tarde, colocavam o restante sangue em pequenos recipientes de ouro e salpicavam o fogo com ele, fazendo ao mesmo tempo uma jura solene de julgar de acordo com as leis gravadas na coluna e de punir os que as tivessem violado, em conformidade com os preceitos do seu antepassado, Poseidon.

Palácio de Poseidon
Palácio de Poseidon

Depois bebiam algum do sangue restante e consagravam o recipiente que o continha a Poseidon. Ao cair da noite regressavam ao templo, cada um deles trajado com ricas vestes azuis, e sentavam-se em conselho, que terminava ao nascer do dia. Depois gravavam as sentenças que tinham pronunciado numa tábua de ouro que suspendiam no templo, juntamente com as vestes que tinham usado, para proveito de futuras gerações.

Não lhes era permitido erguer armas uns contra os outros, e os filhos de Atlas assumiam invariavelmente a liderança em todas as expedições militares. Nem lhes era permitido matar qualquer membro da sua família, a menos que uma maioria de seis votos no conselho lhes conferisse poder para o fazer.

Durante muitos séculos não perderam de vista as suas origens augustas, obedeceram a todas as leis e foram adoradores religiosos dos deuses seus antepassados. A sinceridade reinava nos seus corações. A moderação e a prudência dirigiam a sua conduta e as suas relações com as nações estrangeiras. Enquanto se comportaram deste modo, tudo esteve bem. Mas, com o decorrer do tempo, as vicissitudes das questões humanas corromperam, pouco a pouco, as suas instituições divinas e começaram a comportar-se como os restantes filhos dos homens. Deram ouvidos ao aguilhão da ambição e procuraram governar pela violência.

Nessa altura Zeus, o rei dos deuses, contemplando esta raça em tempos tão nobre que se tornara depravada, resolveu puni-la e, através de uma triste experiência, moderar a sua ambição. Convocou então um concílio dos deuses no Olimpo e dirigiu-se-Ihes da seguinte forma:

Aqui termina o relato de Platão, e crê-se que a morte interferiu com a sua conclusão.

NOTAS:

[1] Festival em honra de Dionísio, que tinha lugar em Outubro, em que os jovens eram recebidos no seu clã.

[2] O sacerdote quer dizer que a destruição dos registos antigos se deve a causas sísmicas ou a inundações, e que, uma vez que os egípcios estão protegidos tanto pelo Nilo como pela ausência de chuvas, a sua população é contínua e os seus monumentos e registos escapam à destruição. Isto, claro, não sucede com a Grécia.

[3] No tempo de Platão o Egipto era considerado parte da Ásia. Na verdade, por vezes falava-se de toda a África como fazendo parte da Ásia.

[4] Platão quer dizer aqui, é claro, o Norte de África e a Ásia Menor.

[5] Crítias queria dizer que ficara impressionado com a semelhança do Estado ideal, tal como Sócrates o descrevera, com Atenas, tal como era descrita na história de Sólon. Assim, fizera um esforço para recordar todos os pormenores dessa história, na esperança de que servisse o propósito de Sócrates, o de ilustrar o seu Estado imaginário. Depois disto, Crítias prossegue, expondo a ordem do universo antes da criação da humanidade.

[6] É, na realidade, uma amplificação da história sobre a Atlântida constante do «Timeu».

[7] Platão provavelmente quer dizer que a parte mais densamente povoada tinha um aspecto meridional

Fonte: LIVRO: «A História da Atlântida» de Lewis Spence

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