Como é o processo do laboratório até ao comprimido final?

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Fabrico de Medicamentos

Um Fármaco é uma molécula que faz qualquer coisa útil, algures no corpo humano e, felizmente, não há escassez de moléculas desse tipo. Algumas são descobertas na natureza, em particular em plantas, o que faz sentido pois partilhamos com elas uma grande parte da nossa cons­tituição molecular. Às vezes, limitamo-nos a extrair a molécula, mas o mais comum é acrescentarmos-lhe qualquer coisa aqui e ali, por pro­cessos químicos complexos, ou retirar-lhe qualquer coisa, na expecta­tiva de lhe aumentar a potência ou reduzir os efeitos secundários.

Muitas vezes temos alguma ideia acerca do mecanismo que esta­mos a visar, normalmente porque estamos a copiar o mecanismo que faz funcionar um medicamento existente. Por exemplo, existe uma enzima no corpo chamada ciclo-oxigenase, que ajuda a fabricar moléculas que assinalam inflamações. Se impedirmos o funcionamento dessa enzima, ajudamos a reduzir a dor. Muitos Medicamentos actuam desta forma, incluindo a aspirina, o paracetamol, o ibuprofeno, o cetoprofeno, o fenoprofeno, etc. Se conseguirmos descobrir uma nova molécula que impeça o funcionamento da ciclo-oxigenase em la­boratório, é provável que também o faça num animal e, se tal acontecer, então é provável que ajude a reduzir a dor numa pessoa. Se nada de desastroso tiver acontecido a animais ou a seres humanos quando estavam a tomar o medicamento que impede o funcionamento dessa enzima, é muito provável (embora não certo) que o nosso novo medicamento seja seguro.

Um novo Fármaco que actue de uma maneira completamente nova apresenta um risco de desenvolvimento muito maior, porque é imprevisível, sendo muito maiores as probabilidades de falhar em cada um dos passos acima descritos. Porém, esse tipo de medicamento novo também representaria um avanço muito mais significativo na ciência médica. Mais adiante discutiremos a tensão existente entre copiar e inovar.

Um dos processos para desenvolver Medicamentos é o rastreamento, uma das tarefas mais enfadonhas para um jovem cientista de laboratório. Sintetizar-se-ão centenas, ou mesmo milhares, de moléculas, com formas e dimensões ligeiramente diferentes, na expecta­tiva de que actuarão num determinado alvo no corpo. A seguir, utiliza-se um método laboratorial que permite medir se o medicamento está a induzir a mudança que se espera (como, por exemplo, impedir o funcionamento adequado de uma enzima) e, depois, experimentam-se todos os Medicamentos, uns a seguir aos outros, medindo os seus efeitos até se apurar um bom. Durante este período, geram-se muitos dados de grande categoria que, depois, são deitados fora ou aferrolhados na caixa-forte de uma empresa da Indústria Farmacêutica.

Quando se descobre alguma coisa que funciona num prato de laboratório, ministra-se a um animal. Nesse momento, está-se a medir muitas coisas diferentes. Que quantidade do medicamento se descobre no sangue depois de o animal engolir o comprimido? Se a resposta é “pouquíssimo”, os doentes terão de ingerir comprimidos enormes para receberem uma dose activa, o que não é prático. Durante quanto tempo  o medicamento permanece no sangue antes de ser decomposto pelo organismo? Se a resposta é “uma hora”, os doentes terão de tomar um comprimido vinte e quatro vezes por dia, o que tão-pouco é útil. Tam­bém podemos analisar o que acontece às moléculas do medicamento quando são decompostas no corpo, e interrogarmo-nos se alguns pro­dutos dessa decomposição serão, em si, nocivos.

Entretanto, estaremos atentos à toxicologia, sobretudo a aspectos seríssimos que excluiriam completamente um medicamento. Havemos de querer descobrir se o nosso medicamento provoca cancro, por exemplo, logo no início do processo de desenvolvimento, para o podermos abandonar. Dito isto, podemos ficar tranquilos se se tratar de um medicamento que as pessoas só tomarão durante alguns dias; na mesma linha, se lesar o sistema reprodutivo mas for um medicamento para a doença de Alzheimer, por exemplo, podemos ficar menos preo­cupados (só disse menos preocupados: as pessoas idosas têm relações sexuais). Nesta fase, existem muitos métodos padronizados. Por exem­plo, podemos levar muitos anos a descobrir se o nosso medicamento provocou cancro em animais; portanto, embora tenhamos de o fazer para obter a aprovação regulamentar, também realizamos testes preli­minares em pratos de laboratório. Um dos exemplos é o teste de Ames, que nos permite verificar muito rapidamente se um medicamento causa mutações em bactérias, olhando para os tipos de alimentos de que necessitam para sobreviver num prato de laboratório.

Cobaia
Cobaia

Vale a pena referir neste ponto que quase todos os Medicamentos com efeitos desejáveis também terão efeitos tóxicos indesejáveis quando tomados em doses mais elevadas. É um facto da vida. Somos animais muito complexos mas, como só temos cerca de 20.000 genes, muitos blocos de construção do corpo humano são usados várias vezes, o que significa que qualquer coisa que interfira com um alvo no nosso corpo também pode afectar outro, em maior ou menor medida, com uma dose mais elevada do medicamento.

Por conseguinte, necessitamos de realizar estudos em animais e laboratoriais para verificar se o nosso medicamento interfere com outras coisas, como a condutividade eléctrica do coração, o que não o tomará popular entre os seres humanos; e diversos testes de despiste para ver se tem efeitos em receptores comuns dos Medicamentos, como os rins dos roedores, os pulmões dos roedores, os corações dos cães, o comportamento dos cães; e diversas análises ao sangue.

Analisaremos os produtos da decomposição do medicamento em células animais e humanas, e, se derem resultados diferentes, podere­mos tentar testá-lo noutras espécies.

A seguir, ministrá-lo-emos em doses crescentes a animais, até eles morrerem, ou testaremos efeitos tóxicos muito óbvios. Com todos estes procedimentos, acabaremos por descobrir a dose máxima tolerável em várias espécies diferentes (geralmente um rato ou outro roedor, e um não-roedor, normalmente um cão), e também ficaremos com uma ideia melhor dos efeitos em doses inferiores às letais. As minhas desculpas se este parágrafo lhe parece brutal. Em minha opinião (no geral, desde que o sofrimento seja minimizado), considero correcto que se teste em animais se os Medicamentos são ou não seguros. O leitor pode discordar, ou concordar, mas preferir não pensar no assunto.

Se os nossos doentes vão tomar o medicamento a longo prazo, interessar-nos-emos particularmente pelos efeitos que surgem quando os animais já o tomam há algum tempo, pelo que faremos experiências de doseamento em animais durante um mês, pelo menos. Isto é importante, porque quando se trata de ministrar o medicamento a seres humanos pela primeira vez, não se lhes pode dá-lo durante mais tempo do que o testado em animais.

Se tivermos muito azar, haverá um efeito secundário que os animais não tiveram, mas os seres humanos sim. Não é muito frequente, mas acontece: o practolol era um Fármaco betabloqueador, muito útil em diversos problemas cardíacos, cuja molécula parece quase igual à do propranolol (amplamente usada e bastante segura). Mas, de repente, o practolol começou a causar a síndrome oculomucocutânea, que é horrível. É por isso que necessitamos de dados de boa qualidade sobre todos os Medicamentos, para apanhar este tipo de situações cedo.

Como pode imaginar, tudo isto exige muito tempo e dinheiro, e nem sequer podemos estar certos de termos um medicamento seguro e eficaz quando chegamos a este ponto, porque ainda não o ministramos a um único ser humano. Dada a improbabilidade de tudo isto, considero milagroso um medicamento resultar, e ainda mais milagroso o facto de termos desenvolvido Medicamentos seguros em épocas em que todo este trabalho não tinha de ser realizado obrigatoriamente nem era tecnicamente possível.

Fonte: LIVRO: «Farmacêuticas da Treta» de Ben Goldacre

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