Fátima engana pessoas desde 1917

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Aparição de Fátima
Aparição de Fátima

Três crianças de Los Angeles dizem ter visto um “thethan” luminoso através da penumbra de poluição da cidade norte-americana. Segundo a cientologia, um “thethan” é uma das almas que, há 75 mil milhões de anos, foram atiradas para os vulcões do planeta Terra por um ditador intergaláctico. O “thethan” em questão apareceu num ferro-velho, prometendo que, caso fossem ali no dia 13 de cada mês, as crianças receberiam a revelação de segredos. No lugar do ferro-velho, a igreja da cientologia prepara-se para construir um santuário.

Apesar de, em 1917, Portugal estar sob a vaga anticlerical da primeira República, era, com toda a certeza, um país mais dado a misticismos do que é hoje. No entanto, no século cómico, de 14 de Outubro desse ano, escrevia-se: “Conservamos a nossa habitual indiferença, como se a aparição da mãe de Jesus Cristo fosse para nós a coisa mais natural deste mundo. Vimos passar para a charneca centenas, milhares talvez, de peregrinos, crentes, curiosos, amadores de piqueniques, vendedores de água fresca e capilé, repórteres e vendedores de vinho a retalho”.

Quase cem anos mais tarde, partilho o espanto do século cómico com a nossa falta de espanto. Porque será que a história (inventada por mim) das três crianças de Los Angeles, ou os preceitos da cientologia, nos motivam descrença, se não mesmo uma risada, enquanto as conversas mantidas entre a Virgem e os pastorinhos nos parecem mais fiáveis?

Lúcia, Francisco e Jacinta: os três pastorinhos
Lúcia, Francisco e Jacinta: os três pastorinhos

Por que razão extraordinária os visitaria? Segundo Lúcia, Nossa Senhora explicou o motivo do contacto: “Quero dizer-vos que façam aqui uma capela em minha honra, que sou a senhora do rosário, que continuem sempre a rezar o terço todos os dias”. Obediente, Francisco, um dos pastorinhos, terá recusado estudar por penitência e isolava-se para mitigar os pecados dos outros.

Após as aparições, criou-se no país uma exaltação espiritual, e uma oportunidade para combater o laicismo da primeira República, que se propagou através da “Cruzada do Rosário“. A iniciativa, com milhares de seguidores, consistia em rezar o terço, comungar ao domingo, orar pelo sucesso da cruzada e ter em casa uma imagem de Nossa Senhora. Segundo o historiador católico Costa Brochado, foi assim que começou o mês de Maria: “Os ímpios tinham motivos para supor a Igreja derreada eis que ela se ergue mais forte e bela do que nunca, lançando-se à reconquista da cristandade com a arma singular do terço”.

Fátima foi, inicialmente, uma acção de propaganda de intelectuais católicos, encavalitados na fé do povo ignorante. Não é preciso ser psicólogo ou vidente para perceber que aquilo que Lúcia diz ter visto e ouvido, “sobretudo, aceitai e suportai com submissão o sofrimento que o Senhor vos enviar”, é um reflexo da forma como aquelas crianças, naquele Portugal, viviam a Religião, um Deus que ralha, castiga e exige.

Segundo um documento escrito por Lúcia, em 1941, os dois primeiros segredos eram:

1) A revelação do inferno – “Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fogo, que parecia estar debaixo da terra”;

2) A obrigatoriedade da adoração – “Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração“, e a conversão da URSS: “Virei pedir a consagração da Rússia“. Ou seja, a ameaça do castigo eterno e a cruzada contra o comunismo.

O terceiro segredo, revelado em 2000, mostra como Fátima parece um filme de série B, de enredo frágil e com um final insatisfatório. Lúcia terá visto a imagem de um homem vestido de branco, sob a ameaça de uma espada, que levou o Vaticano a decretar que se tratava de uma antevisão do atentado ao papa João Paulo II, “foi uma mão materna que guiou a trajectória da bala”.

Irmã Lúcia com o Papa João Paulo II
Irmã Lúcia com o Papa João Paulo II

Tanto barulho por nada. Uma “auto-profecia”. Não fosse a dimensão do logro e o número de gente enganada, Fátima seria uma comédia. No entanto, a narrativa dos segredos assemelha-se mais ao Antigo Testamento, a ideia de um Deus egocêntrico, sedento de atenção, que ameaça com o inferno e exige a construção de um templo em sua homenagem. Mas porque não uma mensagem verdadeiramente reveladora e inédita para a humanidade, porquê a construção de uma capela em vez de um orfanato, o medo do inferno em vez da prática do bem?

O terceiro segredo aproxima a Igreja de um canal de televisão que se alimenta do próprio “star system“. Como um actor a promover a telenovela num programa da manhã, o Vaticano decidiu que, apesar de todas as calamidades e Guerras que aconteceram no Século XX, a Virgem estava preocupada com o Papa. A igreja umbiguista, muito mais do que ecuménica.

Perante tudo isto, os fiéis de Fátima dirão, tal e qual os crentes em “thethans“, “é o mistério da fé. Não se questiona a fé”, como se fossem crianças, que pastavam o gado, na Cova da Iria, em 1917.

Fonte: DN.pt

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